“Daemon” acaba por ser, ainda assim, um disco muito forte de Mayhem, que certamente agradará bastante aos fãs dos primeiros tempos da banda, e... Mayhem “Daemon”

Editora: Century Media Records
Data de lançamento: 25.10.2019
Género: black metal
Nota: 4/5

Mayhem, ou…The True Mayhem. Como decidirem chamar. Um dos nomes mais sonantes dentro do mundo do metal e uma banda cuja infame história e legado musical fazem com que toda a comunidade que partilha um gosto pelos sons mais extremos pare para contemplar cada novo lançamento daquela que é, seguramente, considerada a maior lenda do black metal norueguês. Não propriamente a banda com a carreira mais prolífica durante os seus 34 anos de existência, contando no seu passado apenas com cinco álbuns e dois EPs, com intervalos entre discos que chegaram a atingir os sete anos, os Mayhem regressam agora finalmente em 2019 com “Daemon”, o sexto disco de originais do agora quinteto, que conta na sua actual configuração com os guitarristas Teloch e Ghul, para além dos eternos Necrobutcher, Atilla Csihar e Hellhammer.

Para melhor perceber este monstro chamado “Daemon”, ao qual os Mayhem deram força nos últimos anos, há que perceber o contexto do que motivou o actual line-up a dar-lhe origem: a banda voltou à estrada com performances completas do seu clássico de estreia intemporal, “De Mysteriis Dom Sathanas”, e quer a intenção de reconectar com este disco fosse a de revisitar um passado do qual se afastaram criativamente ao longo da sua carreira ou, pura e simplesmente, de entrar no trend actual de bandas que tocam álbuns inteiros ao vivo para assegurar maiores dividendos, a verdade é que os últimos anos a tocar ao vivo todo o material escrito na sua maioria por Euronymous e Dead acabaram seguramente por ter influência na transformação de “Daemon” para aquele que pode ser considerado, numa primeira análise, o sucessor espiritual de “De Mysteriis…”.

Longe da audácia provocativa de um “Grand Declaration of War”, da precisão cirúrgica de “Chimera” ou até da ambiência perturbadora de “Ordo ad Chao”, os guitarristas Teloch e Ghul, principais compositores dos Mayhem, apostaram em revisitar o som primordial da banda em faixas estrondosas como “The Dying False King”, “Falsified & Hated”, “Worthless Abominations Destoyed”, “Of Worms and Ruins” e “Malum”, esta que em momentos nos parece soar de uma forma familiar à clássica “Pagan Fears”. A intenção de acender novamente a fornalha criativa que forjou “De Mysteriis…” não deixará de ser óbvia para muitos que ouvirão Hellhammer a tocar com a reverberação do som da bateria semelhante à do álbum de estreia, os riffs evocativos dos primórdios executados com total precisão por Ghul e Teloch, e também um intercalar entre momentos de uma expressividade vocal assombrosa e projecções absolutamente monstruosas na voz de Atilla Csihar, que não só demonstram uma reconexão com o estilo vocal que o tornou conhecido, como toda uma versatilidade que o continua a caracterizar como o vocalista mais completo de todos os tempos nos Mayhem.

“Daemon” tem também alguns momentos que marcam ligeiramente pela diferença, como a atmosférica “Aeon Deamonium”, a única música reminiscente de “Esoteric Warfare”, e “Deamon Spawn”, a faixa mais conturbada do disco com transições marcadamente abruptas e rasgadas entre momentos de obscuridade e agressividade inalterada. No entanto, ao definir um vencedor por entre um alinhamento de faixas de uma toada universalmente sólida e poderosa, é a segunda faixa “Agenda Ignis” que tem essa distinção, sendo o melhor momento do disco, no qual se pode ouvir Necrobutcher em deambulações que complementam os riffs da música em vez de simplesmente os acompanhar, algo geralmente incomum no som dos Mayhem.

Contrariando a tendência dos dois últimos longa-duração, “Daemon” surpreende também por ser o segundo álbum mais bem produzido dos Mayhem, tendo a banda deixado para trás o negrume, a produção lamacenta e os sons atmosféricos do caminho obscuro que estavam a percorrer com “Ordo Ad Chao” e “Esoteric Warfare”. Por um lado, o facto de ser possível imaginar a maioria destas faixas como podendo fazer parte do alinhamento de “De Mysteriis…” é uma prova de que Ghul e Teloch descobriram a fórmula de como fazer os Mayhem voltar às suas origens; mas por outro, acabaram por nos servir também uma receita de black metal um pouco by-the-numbers. Para quem gosta deste estilo, na sua essência mais primordial, vai acabar por ser claramente suficiente mas, para outros fãs que se habituaram a esperar algo desconcertante, desafiante e quase sempre radicalmente diferente, como aquilo que os Mayhem nos deram no período em que Blasphemer foi o mentor criativo da banda, “Daemon” pode acabar por soar a algo um tanto ou quanto… batido, e a mais um disco que não conseguiu superar ou igualar a genialidade de contornos técnicos, perturbadores e obscuros do que ouvimos entre “Grand Declaration of War” e “Ordo Ad Chao”. 

No entanto, julgando-o meramente pelo seu valor intrínseco, “Daemon” acaba por ser, ainda assim, um disco muito forte de Mayhem, que certamente agradará bastante aos fãs dos primeiros tempos da banda, e é um esforço que apresenta uma variante do som clássico dos noruegueses, mas desta feita com uma produção consideravelmente superior. Não será de admirar que venha também a ser possivelmente o disco mais vendido de Mayhem à conta do filme “Lords of Chaos”, mas isso em si já é outra história…