Lucifer “III”

Reviews 23 de Março, 2020 João Rolo

A indústria musical na Suécia tem uma máquina de produzir rock-porn tão sofisticada que sabe bem vender à força toda a gama de música... Lucifer “III”

Editora: Century Media Records
Data de lançamento: 20.03.2020
Género: heavy/doom metal/rock
Nota: 3/5

A indústria musical na Suécia tem uma máquina de produzir rock-porn tão sofisticada que sabe bem vender à força toda a gama de música forrada a denim e cabedal.

Segundo anunciado pela editora Century Media Records, os Lucifer caracterizam-se por uma sonoridade que mistura o heavy hard rock da década de 1970 com proto heavy metal e doom rock. “III” é um álbum produzido por Nicke Andersson (Entombed, Hellacopters, Imperial State Electric) e escrito com a esposa Johanna Andersson (voz), que apresenta um novo line-up composto pelos suecos Harald Göthblad (baixo), Martin Nordin e Linus Björklund (guitarras), membros dos Dead Lord e Vojd, respectivamente. Qualquer projecto que inclua o sueco Nicke Andersson tem à partida todas as credenciais para deixar um headbanger com o pito aos saltos. Neste caso, o pito, perdão, o projecto foi fundado por Joahnna Sadonis, actual Mrs. Andersson, uma mulher de fibra e cabedal que apareceu nos The Oath, em Berlim, e fundou os Lucifer em 2014 com membros dos Angel Witch, Ladytron e Cathedral. O volume “I” desta discografia foi então escrito em parceria com o guitarrista Gaz Jennings, logo após o fim dos Cathedral, e lançado em 2015 pela respeitável Rise Above Records de Lee Dorrian – um álbum com o forte cunho do ex-guitarrista dos doomsters Cathedral que, na altura, garantiu a Johanna uma maior visibilidade e reconhecimento internacional.

No álbum “II”, Joahanna muda de parceiro e troca Gaz Jennings por Nicke Andersson. A senhora escolhe-os a dedo. A opção fê-la rumar a Estocolmo, terra do actual companheiro, para as gravações de “II”, e foi totalmente produzido por Nicke, que ainda gravou quase todos os instrumentos e foi assistido ocasionalmente pelo guitarrista Robin Tidebrink. Apesar de ainda preservar alguma da essência do álbum de estreia, “II” aponta desde logo uma nova direcção musical seguindo as coordenadas de Nicke: uma nova abordagem sonora menos densa e viscosa, mais melódica, com outra dinâmica rítmica, uma produção mais limpa e composições estruturadas para abrilhantar a prestação vocal da actual Mrs. Andersson.

A fórmula é aprimorada no capítulo “III” de Lucifer. O novo álbum prossegue a linha iniciada por Nicke Andersson na recuperação do mais clássico hard-rock dos anos 1970 e navega a milhas do registo mais pesado do volume “I”. A mudança de Berlim para Estocolmo e o casamento de Johanna com o Nicke não trouxe melhorias a Lucifer, antes pelo contrário. O amor deve ser cego, e surdo… Mas lá porque Nicke acalmou e decidiu assentar, um gajo aos amigos perdoa tudo. E olha que o tipo não foi nada parvo, grande cabedal! Ao Nicke Andersson, que tão boa rockalhada nos deu a ouvir ao longo de todos estes anos, a gente perdoa. Desde o capítulo “II” que este rock das motas anda a pingar óleo – é que apesar do motor bem afinado e dos cromados de estúdio em muito bom estado, este material não é de origem, é apenas mais uma máquina customizada e adaptada para alimentar o culto duma cena retro que já deu o que tinha a dar. “III” assemelha-se por instantes a um alinhamento tocado por uma banda de covers de hard rock formada num salão de cabeleireiro e manicure. Nicke assumiu numa entrevista que «há qualquer coisa de Abba no som dos Black Sabbath». Huummm… Passou-se. A finalizar a informação promocional, a Century Media anuncia: “Rock and Roll is dead? Long LIVE Rock and Roll! THE THIRD COMING STARTS NOW”. O rock & roll precisa de muito mais criatividade do que a existente neste álbum.

Apesar do álbum estar pejado de lugares-comuns servidos num enlatado de música em conserva e dos temas nos parecerem um autentico mash-up de clássicos de 2001, para alguns apreciadores qualquer dos singles de “III” iria encher a pista da catedral, se ao menos mudassem os sets uma vez em cada década. A maior parte dos solos e dos riffs são uma xaropada. A postura vocal é melodramática, sofre com o excesso de gloss e melodrama. Mais melodramática, só a nossa Adelaide Ferreira… A banda toca e Johanna passa com um ar de vampe fora de prazo, como a loira da serie britânica “Absolutely Fabulous. Alguém lhes diga que reciclar as Heart nesta década é pior do que bater no ceguinho. “Ghosts”, “Midnight Phantom” e “Leather Demon” são disso um bom exemplo. Ao longo dos nove temas, que perfazem o total de “III”, destacam-se: “Lucifer”, “Pacific Blues”, “Flanked By Snakes” e “Stay Astray”, talvez os menos engajados com a tal estética retro. Resta dizer que a temática das letras revela uma admiração assombrada pelo imaginário dos Danzig capaz de deixar os mortos às voltas no caixão.

O terceiro álbum dos Lucifer é uma cartilha que regista as influências dos 70´s x 7: Black Sabbath, Deep Purple, Blue Oyster Cult, Lucifer’s Friend, Steppenwolf, Heart e Fleetwood Mac. Sete magníficos. Está tudo dito, estão por aqui espalhados uns pozinhos destas influências todas. A indústria musical na Suécia tem uma máquina de produzir rock-porn tão sofisticada que sabe bem vender à força toda a gama de música forrada a denim e cabedal, como quem exporta o mobiliário IKEA, por isso é bem provável que os Lucifer venham a ter um enorme sucesso à escala global.