“Chocolate Starfish and the Hot Dog Flavored Water”, dos Limp Bizkit, tornou o nu-metal numa supernova e mudou tudo na banda que o criou... “Chocolate Starfish and the Hot Dog Flavored Water”: por dentro da obnóxia obra-prima de Limp Bizkit

“Chocolate Starfish and the Hot Dog Flavored Water”, dos Limp Bizkit, tornou o nu-metal numa supernova e mudou tudo na banda que o criou – e não necessariamente para melhor.

Se a estreia homónima dos Korn em 1994 representou o nu-metal nas suas raízes mais cruas e puras, certamente nenhum álbum personificou melhor a sua ascensão a uma glória detestável e conquistadora do que “Chocolate Starfish and the Hot Dog Flavored Water”. O barulhento, matreiro e ridiculamente intitulado terceiro álbum dos Limp Bizkit inaugurou o momento em que o relacionamento da música alternativa com o mainstream alcançou massa crítica. Foi o álbum que confirmou uma dinâmica que antes era impensável: o metal era, mesmo que apenas por um momento, o maior género do mundo. É verdade que “Hybrid Theory”, dos Linkin Park, pode ter chegado aparecido uma semana depois para levar as coisas ainda mais longe, mas demorou um pouco mais a tornar-se no imparável e histórico que agora reconhecemos. “Chocolate Starfish…”, porém, foi um fenómeno instantâneo – vendendo mais de um milhão de cópias numa semana, tornou-se o álbum de rock mais rapidamente vendido de todos os tempos e completou a evolução dos Limp Bizkit, de miúdos fora do metal a ícones legítimos da cultura pop.

«Nunca pensei que os Limp Bizkit fossem tão grandes como eram», admite o guitarrista Wes Borland ao telefone de sua casa em Detroit. «Depois, o disco vendeu um milhão na primeira semana. Era apenas ridículo. Houve um momento em que as coisas ficaram tão grandes que nem me lembro de ficarem ainda maiores.»

As coisas já estavam a ficar muito grandes para os Limp Bizkit na viragem do milénio. Numa era em que a geração metal dos anos 90 praticamente só valorizava a batuta dos seus estadistas mais velhos, os Bizkit pareciam destinados a ser os mais bem-sucedidos, mas controversos, graduados da cena. Um período de suporte aos Korn seguido do abrasivo álbum de estreia “Three Dollar Bill, Y’all”, em 1997, torná-los-ia numa das bandas mais comentadas do rock. A sua mistura presunçosa de hip hop violento e riffs do tamanho de um kaiju atraía uma grande variedade de fãs, mas também os tornou num alvo instantâneo para os quadrantes mais sarcásticos do metal, espalhando-se acusações de que a sua música e imagem estavam a abrir o nosso mundo para a invasão de jocks e posers.

Não importava: quando “Significant Other” chegou em 1999, alcançou o primeiro lugar nos Estados Unidos e alcançou o Top 10 no Reino Unido, com “Break Stuff” e “Nookie” a oferecerem os maiores hinos metal para uma geração. Este também foi um disco que os fez continuar a cortejar a controvérsia: o concerto dos Bizkit no desastroso Woodstock’99 foi o bode expiatório dada a violência generalizada que estragou o festival. As vendas, no entanto, continuaram, e o quinteto – Wes, o vocalista do boné Fred Durst, o baixista Sam Rivers, o baterista John Otto e o DJ Lethal – teve impulso suficiente para se tornar na banda rock mais significativa da década. E assim, querendo-se fazer algo poderoso, e depois de apenas meio ano de promoção a “Significant Other”, a banda reuniu-se para o álbum número três.

«Tínhamos um grande disco a seguir», recorda Wes. «Houve pressão, mas não nos sentimos inseguros ou como se não conseguíssemos dar seguimento. Sentimo-nos muito confiantes e eu sabia o que queria fazer. Eu sabia que seria diferente de “Significant Other” – e melhor.»

Depois de um breve e pouco sucedido período com Rick Rubin, os Bizkit estabeleceram-se nos Larrabee Studios, de Los Angeles, com o produtor de “Significant Other”, Terry Date, procurando-se desenvolver o talento crescente da banda para arrancar grandes sucessos de metal moderno.

«Foi muito bom», recorda Wes. «Estávamos todos [a gravar] na mesma sala e escrevíamos as músicas e gravávamos à medida que avançávamos. Nem me lembro de quantas semanas estivemos a gravar, só me lembro que chegou um dia em que estávamos a ouvir tudo o que tínhamos e o Fred disse: ‘Acho que terminámos.’»

A banda saiu do estúdio com um álbum que a levaria mais longe do que poderiam imaginar. Chegando ao primeiro lugar em ambos os lados do Atlântico após o seu lançamento em Outubro de 2000, “Chocolate Starfish…” atingiu o alvo de forma retumbante, e estava repleto de tantas grandes músicas que os Bizkit conseguiram lançar cinco delas como singles e ainda retinham faixas que se tornariam futuramente obrigatórias nos concertos. “Rollin’”, “My Generation”, “Take A Look Around”, “My Way”, “Hot Dog”, “Livin’ It”, “Full Nelson”… Uma lista que se lê como um alinhamento de êxitos por si só diz tudo o que é preciso saber-se sobre o tipo de poder de fogo que “Chocolate Starfish…” continha.

Foi um álbum que viu os Bizkit a tornarem-se parte do próprio tecido da cultura mainstream. “Take A Look Around” tornar-se-ia um hino destacado na sequência do sucesso de bilheteira que fora “Mission: Impossible 2”, com Tom Cruise – nada mal, já que os Metallica também fizeram uma música para a banda-sonora –, enquanto “Rollin’”, o single número 1 no Reino Unido, era adoptado pelo lendário wrestler The Undertaker como tema de entrada e ainda contou com a participação de Ben Stiller no vídeo. O vídeo de “Rollin’” também apresentaria Fred ladeado por dançarinas de boné vermelho e até um segmento filmado no World Trade Center de Nova Iorque – a derradeira paródia dos excessos da cultura musical e dos próprios Bizkit. Mesmo que muitos não tenham entendido a piada.

«Começámos a gozar com o que as pessoas pensavam de nós», disse Fred em 2014. «Foi por isso que fizemos o vídeo da “Rollin’”. Havia bonés vermelhos por todo o lado, e olhem para o Wes no início do vídeo com os brincos! Como é que as pessoas não perceberam que não estávamos a falar a sério? Achámos que era hilariante.»

De facto, enquanto os Bizkit estava a atrair fãs aos milhões, também prosseguiam a sua maratona em irritar as pessoas em todo o lado. A provocação com “Hot Dog” ao líder dos Nine Inch Nails, Trent Reznor, ajudou a adicionar combustível numa rivalidade em andamento entre as duas bandas, enquanto um problema de há muito tempo entre Bizkit e Rage Against the Machine chegou a um ponto bizarro no MTV Video Music Awards de 2000. Quando Fred, Wes e os outros se apresentaram para receber o prémio de Best Rock Video, o baixista dos Rage, Tim Commerford (cuja banda também tinha sido nomeada), escalou parte do palco e começou a abaná-lo. Acabaria por passar uma noite na prisão pelo tumulto, vindo mais tarde a atribuir a suas acções à sua «própria política pessoal».

«Tinha ouvido rumores de diferentes pessoas», pondera Wes, «de que os Rage eram do tipo: ‘Os Limp Bizkit são como os Rage Against the Machine, mas fazem a festa em vez de fazerem com que as pessoas pensem!’ Ouvi dizer que isso irritava o Tim».

Seja qual for o raciocínio, isso não ajudou muito a dissipar a crença de que os Bizkit não eram muito amados na indústria do rock. Ao colher o seu sucesso sem precedentes, tornaram-se os forasteiros definitivos do metal: uma banda que o mainstream não entendia totalmente e que os seus próprios pares odiavam. Para os seus fãs, porém, eles eram a banda mais importante da sua era: uma porta de entrada para o metal, com certeza, mas também uma anomalia entre culturas diferentes. Por mais que estivessem a dividir os fãs de dentro da cena metal em si, eles também estavam a unir os amantes de música de divisões muito mais profundas.

«As pessoas estavam entusiasmadas com a emoção das coisas serem novas e empolgantes em termos de novos sons e música urbana a entrar na música pesada ou estavam a rebelar-se contra isso», sugeriu Fred. «As pessoas que gostavam de diferentes tipos de música conseguiram o que queriam pela primeira vez. Foi aquele momento em que os planetas se alinharam e todos pudemos compartilhar o momento juntos. Isso significava algo para um grande grupo de pessoas que nunca tinham sido ouvidas antes. Foi especial.»

«Não éramos aceites pelo rock, não éramos aceites pelo pop», acrescenta Wes. «[Mas] fomos aceites pelo mundo do hip hop, porque o mundo do hip hop tem o nosso lado hip hop, mas nunca tínhamos realmente vivido um rock assim antes. Sem apitar a nossa própria buzina, somos a banda que faz isso melhor: que tenta representar os dois lados igualmente, em vez de ser uma banda de rock com algum rap ou uma banda de hip hop com um pouco de guitarra pesada. Acho que estamos bem divididos ao meio.»

A escolha dos companheiros de digressão ecoaria tais declarações. Tendo passado algum tempo na estrada com Cypress Hill no início do ano, os Bizkit acabaram 2000 com a apropriadamente intitulada Anger Management Tour, com o mais recente astro do rap, Eminem. Depois de terem carregado o ímpeto de “Chocolate Starfish…” até 2001, as coisas estavam a ficar cada vez maiores e mais doidas.

«Tudo parecia excessivo», relembra Wes. «Acho que na última digressão que fizemos nesse ciclo de discos, construímos o nosso próprio palco, havia um robô gigante… [A editora] disse-nos: ‘Se tiverem essa produção, nenhum de vocês vai ganhar um cêntimo nesta digressão.’ E pensámos: ‘Tudo bem!’ Fizemos toda uma digressão que não rendeu dinheiro porque a nossa produção era muito grande. Ficou empatado. Foi ridículo.»

À medida que os concertos se tornavam mais extravagantes e a estrela dos Bizkit brilhava mais forte, também aumentava a pressão. Diante disso, Fred parecia deleitar-se por ser o novo antagonista-mor da música, mas a verdade era um pouco diferente.

«Senti-me um alvo, o inimigo público número um», admitiu. «Não sabia como lidar com isso. Onde quer que fosses, parecia que os olhos estavam em ti e como se a tua vida não fosse mais tua. A modos que pensas: ‘Que se f*dam!’ Se pudessem descobrir cada detalhe da tua vida e com o que te masturbas à noite, as pessoas podiam odiar-te.»

Wes, entretanto, também estava na luta. As suas roupas coloridas e a presença enigmática podem ter feito dele a propaganda perfeita para o nu-metal, mas também representava um artista eclético que estava a perceber que o centro das atenções era profundamente desconfortável.

«No espaço de seis anos, eu fui de nada, ninguém sabia quem eu era e estava em total anonimato, para ter que me mudar para Los Angeles porque tinha 20 miúdos à porta de minha casa na Florida a olharem pelas minhas janelas», suspira. «Não podia ir ao supermercado. Não gostei disso. Foi constrangedor para mim. Eu também estava a deixar que a imprensa me apanhasse, a deixar que os meus pares me apanhassem, pessoas a dizerem merdas, a dizerem ‘os Limp Bizkit são o McDonald’s das bandas de rock’, coisas assim. Comecei a sentir-me uma novidade.»

No final de 2001, tudo se tinha tornado demais. Wes deixou a banda no mês de Outubro, e, embora eventualmente regressasse, os Bizkit nunca mais alcançariam o nível comercial insano da era “Chocolate Starfish…”. Aquele álbum foi um momento no tempo que ninguém previu e que deixou um grande impacto na cena metal e mais além. Depois de quase uma década de altos e baixos, uma digressão europeia ricamente recebida com um rejuvenescido Wes no Verão de ’09 ajudaria a reencarnar os Bizkit como a banda de metal preferida para festas. É um estatuto que mantiveram até hoje, não sendo mais o bode expiatório do rock, nem os seus anti-heróis – apenas uma banda do caraças com um catálogo com hinos para todos os tempos, a maioria dos quais ainda permanece esculpida num certo terceiro álbum barulhento, matreiro e ridiculamente intitulado.

«Apenas acho que muitas pessoas demoraram a superar o quão irritantes nós éramos naquele período», sugere Wes. «Quando estás muito exposto e onde ninguém consegue ficar longe de ti, ficas do tipo: ‘Uh, estou farto de ver esta pessoa a toda a hora.’ Agora, as pessoas podem aproveitar a banda pelo o que ela é. Agora adoro estar em Limp Bizkit. Adoro todos os concertos, adoro ir em digressão, adoro toda a gente na banda. Mas demorei todos estes anos para olhar para trás e dizer: ‘Meu deus, adoro isto e adoro tocar estas músicas.’»

Consultar artigo original em inglês.