Um registo enérgico e corrido, com espaço para o punk e hardcore, para o industrial e para o heavy metal, que se define como... Life of Agony “The Sound of Scars”

Editora: Napalm Records
Data de lançamento: 11.10.2019
Género: rock / metal alternativo
Nota: 5/5

Com mais de um milhão de álbuns vendidos, os Life of Agony (LoA) celebraram, no ano passado, vinte e cinco anos sobre a data de edição do primeiro longa-duração, intitulado “River Runs Red”. A mítica banda do New York hardcore regressa agora a esse mesmo disco, e prossegue no presente álbum, “The Sound of Scars”, a história que aí se inicia, descrevendo a vida de um jovem problemático com episódios de violência e estados depressivos marcados por tentativas de suicídio.

Apesar da entrada em cena com o primeiro concerto em 1989, dos primeiros passos apadrinhados por Pete Steele dos Type O Negative, até à edição dos três primeiros álbuns pela Roadrunner Records, que marcaram um início de carreira fulgurante – “River Runs Red”, “Ugly” e “Soul Searching Sun”, entre 1993 e 1997 -, os Life of Agony têm tido um percurso bastante atribulado. Os LoA já deram por terminada a sua carreira por duas vezes, a primeira em 1999, tendo ressurgido de 2003 a 2012, período em que gravaram um álbum apenas, “Broken Valley” pela Epic/ Sony (2005). A banda vive actualmente a sua terceira fase no activo após a assinatura de contrato com a Napalm Records (2016).

Se “River Runs Red” constitui um marco na história da música pesada à escala mundial, considerado, pela revista Rolling Stone, «one of the greatest metal albums of all time», já o mais recente “The Sound of Scars” não lhe fica atrás e revela-se um disco portentoso a redefinir a matriz sonora que se impôs como imagem de marca deste projecto. O novo registo dos LOA começa num breve prelúdio, a sequela da narrativa que presidiu ao álbum de estreia de 1993, e logo irrompem os três primeiros singles até agora revelados, “Scars”, ” Black Heart” e “Lay Down”, todos eles a demonstrar grande pujança, um projecto em pico de forma, lucidez e actualidade surpreendentes, e uma mestria exemplar no amadurecimento da escrita de canções. Incríveis!

“The Sound of Scars” é absolutamente irrepreensível na organização de um alinhamento que percorre outros sete temas divididos em três capítulos, ou momentos. Cada um deles é assinalado por separadores que funcionam como interlúdios, compostos por gravações breves de chamadas telefónicas para serviços de urgência hospitalar e linhas de apoio S.O.S., reforçando a ideia de uma narrativa. Um segundo momento começa então com o separador “Then”, e apresenta de seguida os temas “Empty Hole”, “My Way Out” e “Eliminate”. “Now” é o interlúdio que precede a sequência de três novos temas: “Once Below”, “Stone” e “Weight of The World”. “The Sound of Scars” encerra com o separador “When” de introdução ao tema “I Surrender”.

“The Sound of Scars” sucede ao álbum “A Place Where There’s No More Pain” (2017) e lida com temáticas tão complexas como a depressão, o isolamento ou a alienação. Alan Robert é o autor das letras que descrevem esta jornada emocional, que, tal como em “River Runs Red”, se quis ocupar da escrita para além das funções de baixista. Mina Caputo, vocalista transgénero que em 2012 se despediu da sua vida anterior como Mike Caputo, é quem veste a pele da poética destas canções com uma interpretação soberba a dar voz ao som das cicatrizes. Outra das novidades na formação dos LoA é a presença da baterista Veronica Bellino, que substitui de forma exímia o anterior Sal Abruscato, ex-baterista dos míticos Type O Negative, despedido pela segunda vez e agora líder dos A Pale Horse Named Death. O protagonista desta história é sem dúvida Joey Z., o fio condutor que une todo o álbum e que dá a corda às cicatrizes, cosendo as feridas dilaceradas com apontamentos brilhantes de uma singularidade notável. Génio! É ele também quem põe a mão na massa da produção, ao lado de Sylvia Massy (Tool, System of a Down), dando corpo ao espectro sonoro desta gravação. Uma última palavra para Howie Weinberg (Nirvana/ Soundgarden) na masterização, o engenheiro de som responsável pelo travo grungy e alternativo que se sobrepõe no final da audição.

Assim temos um registo enérgico e corrido, com espaço para o punk e hardcore, para o industrial e para o heavy metal, que se define como um dos melhores álbuns do rock pesado editado nesta década. Uma bomba.