Os Killer Be Killed conseguiram criar um dos trabalhos mais bem-conseguidos de 2020. Killer Be Killed “Reluctant Hero”

Editora: Nuclear Blast
Data de lançamento: 20.11.2020
Género: groove metal
Nota: 4/5

Os Killer Be Killed conseguiram criar um dos trabalhos mais bem-conseguidos de 2020.

Até agora, 2020 teve a capacidade de nos fazer esquecer muita coisa depressa devido ao único assunto de que toda a gente fala. Não só nos faz esquecer como até nos faz passar certas coisas despercebidas, tanta é a informação com que somos bombardeados à razão horária, tanta é a palha que nos é apresentada, tantas são as novas bandas, boas e más, que querem deixar a sua marca para a posteridade. Como se não bastasse estarmos a viver uma das maiores catástrofes sanitárias da história da humanidade, temos de ter imensa paciência no lento processo de analisar cada disco que nos chega à redacção. “Reluctant Hero”, dos Killer Be Killed, não só foi lançado em plena 2ª vaga como, ainda por cima, foi composto quase em segredo. Tudo isto poderia parecer desculpa, não fosse “Reluctant Hero” um disco tão rico que nos forçou a ouvi-lo, e ouvi-lo e ouvi-lo novamente para podermos tecer uma opinião formada e honesta, mas também porque dá um gozo tremendo ouvi-lo crescer.

O supergrupo formado por Greg Pucciato, Max Cavalera, Troy Sanders e Ben Koller deu que falar com o seu disco homónimo de 2014 devido aos distintos timbres e projecções vocais de cada frontman envolvido. Em “Reluctant Hero”, a fórmula repete-se mas, desta vez, sentimos que os quatro compadres apuraram a fórmula inicial, tal é a besta de disco que nos apresentam. Pegando no arquétipo literário do herói relutante (geralmente, um cidadão normal que se depara com situações inumanas e que tem de ultrapassar ou, também, alguém munido de super-poderes e que prefere não os utilizar para bem de quem não os tem), os Killer Be Killed conseguiram criar um dos trabalhos mais bem-conseguidos de 2020 devido a dois factores principais: a sintonia de grupo e a experiência vasta de cada elemento do quarteto. Depois, cada um dos intervenientes imprime as suas assinaturas artísticas em temas determinados, numa gama que vai dos Mastodon aos Sepultura mais tardios ainda com Cavalera, mas não ignorando outros géneros e nomes secundários, mas preciosos.

É o caso de Fudge Tunnel e Nailbomb (ouça-se “Animus”, a cacetada sónica de “Dead Limbs” e o seu delicioso refrão, o baixo em “From A Crowded Wound” ou o final de “A Great Purge”, em que ouvimos um Max Cavalera totalmente possuído), mas também de toda a escola urbana do NYHC (tão desenvergonhadamente audível em “Filthy Vagabond”, com os heróicos “wo-ow!” do hardcore da Grande Maçã a introduzirem-se nos refrãos). Há ainda espaço para toques de industrial (“Comfort from Nothing”), mas as similaridades com Mastodon e o seu heavy metal moderno (“Reluctant Hero”, “Deconstructing Self-Destruction”, “Left of Center”) é bastante audível um pouco por todo o trabalho, não fosse Trey o vocalista de serviço nelas. Outro ponto importante a referir é a riqueza sonora servida. Já há muito tempo que não ouvíamos um som de bateria (particularmente a tarola) tão natural, cheio e, amplo. O cuidado com o som de baixo bem nítido deve ter partido de Max, dizemos nós, como forma de relembrar e piscar o olho a Alex Newport. No geral, a produção ajuda imenso a fazer o disco que “Reluctant Hero” é.

Encaramos os supergrupos de formas distintas: uns acham que é para fazer render o peixe, outros para não deixar morrer a chama, outros dizem que se devem a enfado, outros a necessidade criativa e outros ainda vêem-nos com desconfiança. É um cliché com décadas, sim. No entanto, discos como este são sempre bem-vindos. Assim como começámos, 2020 teve a capacidade de nos fazer esquecer muita coisa depressa. Felizmente, “Reluctant Hero”, um disco de metal (subgénero: bom), não é uma delas.