Karg é honestamente demolidor e não é para corações moles ou estados de alma ambíguos. Karg é um só com a certeza de que... Karg “Traktat”

Editora: AOP Records
Data de lançamento: 07.02.2020
Género: post-black metal
Nota: 3.5/5

Projecto criado em 2006, Karg representa uma visão ainda mais pessoal de JJ em relação a Harakiri For The Sky, banda que fundou em 2011 com MS.

A sonoridade entre as duas bandas é idêntica, baseando-se em post-black metal melódico, melancólico e depressivo, mas, com Karg, o austríaco consegue processar os seus conceitos de forma ainda mais individual, ideias essas que giram em torno de relações rompidas, amor perdido, afastamento, drogas, suicídio e depressão.

De facto, depressão poderá ser o grande cerne de “Traktat” já que JJ revelou estar prestes a explodir quando iniciou o processo de composição deste seu sexto álbum. Com muitos quilómetros de estrada com Harakiri For The Sky, a mente começou a colapsar e os médicos alertaram que o músico estava a passar por um episódio de depressão. Aliás, “Traktat” foi parcialmente escrito em digressão.

Assim, com todas as dificuldades inerentes, o multifacetado compositor dá um sucessor ao aclamado “Dornenvögel” (2018), um registo que elevou a sua própria fasquia criativa e que se manterá no topo da discografia de Karg durante muito tempo.

A procissão melancólica e trágica prossegue praticamente nos mesmos trâmites de álbuns anteriores, com várias camadas de guitarras em que reinam leads constantes, melódicos e cintilantes, bem como uma voz agonizante que não deixa ninguém indiferente, especialmente quem estiver ao corrente da condição mental de JJ, mas, ainda assim, encontram-se diferenças que podem atenuar alguma da raiva sentida anteriormente. Se, por um lado, os temas de Karg continuam a demonstrar escaladas hercúleas pelo interior do artista com crescendos e momentos de clímax retumbantes, por outro, “Traktat” contém imensas passagens calmas e suaves que podem funcionar tanto como espaços de reflexão para se encontrar uma solução como de aceitação da penúria, sem grande coisa a fazer para que a vida melhore.

Tal interpretação também nos leva ao sentimento paradoxal que grassa este estilo musical: mesmo tendo-se conhecimento do conceito obscuro de Karg, será que o teu estado de espírito influencia a percepção que tens dos leads melódicos como algo positivo numa onda dreamy ou como algo verdadeiramente devastador? Já tentei compreender essa noção com várias bandas do género e a resposta é sempre a mesma: a melodia, se condimentada com melancolia, pode ser realmente destruidora ao nível emocional. Por isso, sim, Karg é honestamente demolidor e não é para corações moles ou estados de alma ambíguos. Karg é um só com a certeza de que a vida é complicada, complexa e injusta, e nem sempre temos comando do leme. JJ que o diga.