Depois do vulcão que foi “What The Fuzz”, The Black Wizards lançaram “Reflections” em Agosto passado, um disco dominante em materiais psicodélicos, que recupera... Joana Brito (The Black Wizards): «”Reflections” é luz e este é um disco cheio dela»

Depois do vulcão que foi “What The Fuzz”, The Black Wizards lançaram “Reflections” em Agosto passado, um disco dominante em materiais psicodélicos, que recupera o groove no som e na estética dos hippies dos 60s e 70s como Portugal nunca os teve. Ao abraçar o analógico e as influências do passado, os traços da modernidade estão presentes na quantidade certa.

Com uma tour europeia planeada para 2020, uma oportunidade que permite que o caleidoscópio colorido que é o universo dos Black Wizards se expanda e se pregue ainda mais intimamente, parece-nos um momento tão apropriado quanto qualquer outro para falar novamente deste álbum, com a vantagem pronunciada que foi a gentileza casual e a abordagem leve face a cada pergunta da parte da banda.

«A nossa cena sempre foi mais compor do que propriamente ser excelentes tecnicamente.»

Joana Brito

Em primeiro lugar, muitos parabéns pelo lançamento do bruto “Reflections”! Como se sentem em quanto à recepção deste álbum? Atingiu as vossas expectativas?
Muito obrigada. É sempre um bocado às cegas, quando lanças um álbum nunca sabes qual vai ser a reacção das pessoas, sabes que gostas do disco e o que aquilo significa para ti mas não sabes o que vai significar para o público, não sabes se a mensagem vai passar. Mas estamos bastante contentes com as críticas e este disco tem sido muito bem-recebido, sem dúvida! E estamos, acima de tudo, muito orgulhosos, acho que este disco marca uma nova etapa e muito mais maturidade, mesmo a nível de produção.

Qual foi a ideia por detrás do título e de que forma se liga ao disco?
“Reflections” simboliza muitas coisas. Algo que reflecte é algo que volta para ti. O reflexo é olhares para ti próprio, é veres a verdade. Faz-te reflectir nas experiências passadas e olhar para elas de uma maneira mais clara e aprender com elas e seguir em frente. “Reflections” é luz e este é um disco cheio dela.

O frontman de Budda Power Blues parece ter marcado uma presença importante na construção deste disco. De que forma é que o envolvimento dele veio a impactar o resultado final?
O Budda foi, sem dúvida, uma figura importante neste disco. Acho que ele percebeu desde o início qual era a nossa ideia e o que queríamos fazer, então foi mais fácil. Acabou por conseguir entrar um pouco nas nossas cabeças e, então, entendemo-nos muito bem, a coisa fluiu e, acima de tudo, foi divertido! E acho que, pela primeira vez, ficámos mesmo contentes com o resultado. Claro que há sempre coisas a fazer e a melhorar, mas acho que parámos no sítio certo, conseguimos o mais importante, que foi captar a intensidade e genuinidade que queríamos.  

Há uma música em particular neste disco que se vê ainda mais capacitada de impacto emocional. Falamos da “Symphony of the Ironic Sympathy” e, muito sinceramente, de uma perspectiva pessoal, que duvido que seja minoritária, aquele final com a tua voz ali entre o êxtase e o comando, e sobretudo aquilo que está a ser cantado, é arrepiante. Como é que magicaram isso?
Sim, essa música tem uma carga emocional bastante grande. É basicamente um hino acerca do que a vida se encarrega de fazer por ti às vezes, quando pensas que o azar te persegue depois percebes que há coisas que não acontecem por acaso e que te levam a um destino melhor do que o anterior. E que basicamente tens de conseguir ver para além da situação em que estás no momento. Se estás a passar por um mau bocado, tens de conseguir ver para além dele e perceber que mais tarde ou mais cedo vais sair do buraco. Andava a ouvir muito Patti Smith na altura, e acho que isso me inspirou para fazer algo do género.

Com o lançamento de “Lake of Fire” e depois “What The Fuzz” sobretudo, vocês demostravam um nivel de know-how que vos colocou longe do estatuto de beginners. Qual foi o vosso percurso enquanto músicos, individualmente?
Eu e o Paulo [Ferreira, guitarra] sempre fomos músicos autodidactas, chegámos a ter aulas de guitarra mas foi durante pouco tempo, o que aprendemos mais foi tocando. A nossa cena sempre foi mais compor do que propriamente ser excelentes tecnicamente, sempre quisemos fazer música, e então tivemos de aprender um bocado de técnica para conseguir reproduzir o que tínhamos em mente… 

No Verão passado estiveram por França e pelo Reino Unido, incluindo o Desertscene London. Não sendo esta a primeira vez que saíram aqui do ninho, como foi a experiência? Sentiram alguma diferença em termos de impacto ou de resposta?
É a segunda vez que tocamos num festival no Reino Unido, e foram experiências diferentes mas ambas muito positivas. O DesertFest é mais festival de nicho e tivemos o The Underworld a abarrotar, sentimos aquele frio na barriga; o Black Deer é mais um festival de família, um bocado maior mas de pessoas que gostam mesmo de música e então tivemos um óptimo público e foi, sem dúvida, uma óptima experiência. Acho que de todas as vezes é diferente, mas tem vindo a ser cada vez melhor sempre que vamos lá fora.

Em Portugal parece estar a haver uma mudança de panorama musical, pelo menos no que respeita ao underground e sobretudo com bandas de stoner. Pertencendo ao núcleo, sentem isso? Acham que vamos eventualmente deixar de dizer, sobre estas bandas, ‘isto é uma cena que só vai dar lá fora’?
Por acaso sinto o oposto. Acho que estamos a passar por uma fase complicada a nível musical em Portugal. Bastantes venues a fechar, outras a deixar de fazer concertos por falta de aderência do público… Mas por outro lado, termos festivais como o SonicBlast, por exemplo, que se está a tornar a cada ano que passa um dos maiores festivais do underground europeu, é sem dúvida muito reconfortante. No entanto, no nosso caso não nos podemos queixar – somos muito bem-recebidos pelo público cá dentro também, mas o que eu sinto é que há poucos sítios para tocar hoje em dia. Quando começámos tocava-se em qualquer buraco, hoje em dia esses buracos não existem e a malta não aparece – acho que a cultura do underground desapareceu um bocado… Havia muitas bandas que começaram quando nós, metade delas já não existem.

Finalmente, o que é que temos a esperar de seguida dos The Black Wizards?
Muitos concertos e muitas coisas boas!

Lê a análise a “Reflections” AQUI.