No ano que completam 25 anos de existência, os icónicos representantes lisboetas do metal épico, Ironsword, lançam um dos mais importantes álbuns da sua... Tann (Ironsword): «Nunca ficámos de braços cruzados e caímos em lamentações»

No ano que completam 25 anos de existência, os icónicos representantes lisboetas do metal épico, Ironsword, lançam um dos mais importantes álbuns da sua história. “Servants of Steel” é grandioso e imponente, com faixas muito inteligentes e bem estruturadas, sendo, segundo a banda, considerado o trabalho «mais desafiante alguma vez escrito». A Metal Hammer Portugal falou com Tann, o líder do grupo, sobre o novo disco e a sua carreira.

«Independentemente de fazermos músicas mais doom metal, acústicas ou músicas mais rápidas e agressivas, a nossa sonoridade terá sempre um registo épico.»

Tann (guitarra, voz)

Descreveram o processo de escrita do álbum como o mais desafiante. Após tantos trabalhos inteligentes com uma base de apoio alargada, expliquem-nos o que tem “Servants of Steel” de diferente em termos líricos. O que significa para vós?
Quem nos acompanha já percebeu que nós não gostamos de repetir a mesma fórmula. Um dos nossos objectivos é reinventar o nosso som a cada lançamento. Portanto, sendo o quinto álbum de originais, houve um cuidado especial com arranjos, várias mudanças de tempo, músicas com estruturas um pouco mais complexas e fora do normal, tudo isto sem perdermos a nossa identidade. Temos algumas músicas onde claramente saímos da nossa zona de conforto. Penso que tudo isto acaba por tornar a nossa música mais excitante e interessante para os nossos seguidores. O “Servants of Steel” acaba por ser um álbum mais arrojado, mais ambicioso, com um feeling mais dark que o álbum anterior. O “None But the Brave” é um disco muito mais homogéneo, em geral mais cru e directo, muito mais in your face, digamos assim. Para além disso, o trabalho de bateria do João Monteiro no novo álbum é fenomenal! Em termos líricos, continuamos a escrever sobre o autor Robert E. Howard, embora, desta vez, tenha feito adaptações de alguns dos mais famosos contos originais do Conan, criado por Robert E. Howard. Foi uma autêntica dor de cabeça tentar resumir um conto em três ou quatro versos, mais refrão. “Servants of Steel” não tem nenhum significado evidente, mas creio que acaba por resumir a nossa resiliência, a nossa resistência no underground ao longo destes 25 anos de carreira.

A pergunta da praxe aos Ironsword envolve sempre a referência aos Manilla Road. A ligação à banda é inegável, para além de serem fãs incondicionais do grupo que finalizou actividades em 2018. “Servants of Steel” tem uma abordagem realmente poderosa e conta com a presença do vocalista Bryan ‘Hellroadie’ Patrick. Como foi trabalhar com alguém que fez parte de uma banda-ídolo?
Já conheço o Bryan há quase 20 anos e sempre foi uma espécie de irmão mais velho para mim. Inicialmente, o convite tinha sido feito ao Mark Shelton para fazer alguns backing vocals – ele já o tinha feito anteriormente para o nosso terceiro álbum “Overlords of Chaos”. Infelizmente, acabou por falecer antes de efectuar qualquer gravação, por isso a única pessoa que para mim fazia sentido cantar essas partes seria o Bryan. A ideia era tentar recriar aquele ambiente dos últimos trabalhos de Manilla Road, em que o Shelton e o Bryan repartiam vocalizações. Enviei-lhe as músicas com as letras e expliquei-lhe a minha ideia, mas também lhe disse que tinha liberdade total para fazer o que ele quisesse. Gravou nos estúdios do Randy Foxe (ex-baterista mítico de Manilla Road) e passado uns dias enviou-me de volta o material. Fez um trabalho incrível e exactamente como eu tinha em mente! O álbum “Servants of Steel” é dedicado ao Mark Shelton. Como fãs incondicionais do grupo, nunca é demais continuarmos a nossa humilde homenagem e tributo. Afinal, não é por acaso que somos rotulados de os “Manilla Road Portugueses”.

Voltaram a juntar-se a Harris Johns neste álbum, com a editora Alma Mater Records, de Fernando Ribeiro. Sentem que têm avançado a passos largos para um som cada vez mais épico ao trabalharem com Harris?
A Alma Mater Records decidiu apostar em Ironsword, pois viu potencial em nós. Para nós, assinarmos pela Alma Mater Records foi uma escolha fácil e mais do que óbvia. Até ao momento todo o seu apoio tem sido incansável. Nós tínhamos uma lista com vários produtores de renome da chamada velha-guarda, e depois de serem analisadas as disponibilidades, orçamentos, etc., a escolha recaiu sobre o Harris Johns. O Harris Johns é um produtor lendário e responsável por vários clássicos que ouvi na minha adolescência. Para mim, foi um sonho tornado realidade. Um dos produtores que sempre esteve no meu top e jamais imaginava que um dia trabalhasse com ele. A mistura e masterização ficou a seu cargo, e teve liberdade total. O resultado final superou todas as minhas expectativas.

«“Servants of Steel” acaba por resumir a nossa resiliência, a nossa resistência no underground ao longo destes 25 anos de carreira.»

Tann (guitarra, voz)

Para além das vossas inspirações musicais, onde foram buscar inspiração para conseguirem produzir um disco que transmite um ambiente de batalha tão intenso como neste “Servants of Steel”?
Sempre fui fascinado por História, civilizações antigas, mitologia. Adorava ler “A Espada Selvagem de Conan”. Alguns dos meus filmes preferidos são “Excalibur” e “Conan e os Bárbaros”. Um dos meus autores preferidos é o Robert E. Howard. Penso que um conjunto de factores e situações acabam por influenciar quem toca e escreve música, e acho que o “Servants of Steel” reflecte isso.

Os Ironsword são donos de um som muito seu. Apesar da sua sonoridade tão única, o grupo parece pisar prego a fundo no que toca a epicidade. Imaginam-se a sair desse registo ou esse sempre será o conceito a seguir?
Tens várias bandas, como Manowar, Candlemass ou Running Wild, com um registo bastante épico, mas depois também tens bandas dos anos 1970, como Rush, Uriah Heep, Sir Lord Baltimore, Dust ou Legend, com músicas igualmente épicas mas com uma sonoridade e ambiente totalmente diferentes. O mesmo se aplica a Ironsword. Independentemente de fazermos músicas mais doom metal, acústicas ou músicas mais rápidas e agressivas, a nossa sonoridade terá sempre um registo épico. Apesar das influências musicais óbvias, creio que conseguimos criar um estio próprio, ter a nossa identidade, e sempre nos mantivemos fiéis a este conceito. Podem dizer que tocamos heavy metal épico ou power metal épico, embora sejamos um pouco mais bárbaros do que as outras bandas deste estilo. Acho que a voz, as letras inspiradas nos contos de Robert E. Howard, a produção crua e olds-chool dos nossos álbuns e a atitude underground acabam por definir o que nós somos e o sermos diferentes.

Apesar da vossa importância para o metal, sobretudo português, os Ironsword parecem ainda relativamente desconhecidos do público em geral. A verdade é que os portugueses aderem pouco a um estilo tão grandioso como o vosso. Vão sempre preferir essa fama underground com uma discografia rica e apreciada pelos fãs do género?
A nossa popularidade tem crescido nos últimos anos em Portugal, e não só pelos fãs do género. Portanto, não nos podemos queixar de falta de apoio ou falta de meios. Nunca ficámos de braços cruzados e caímos em lamentações. Sempre trabalhámos muito e sempre aproveitámos as oportunidades que foram surgindo. A música para nós é o mais importante, e essa fidelidade nunca vai mudar. O facto de sermos uma banda ainda relativamente desconhecida do público em geral é algo com que eu lido com naturalidade. Dou tanto valor ao apoio dos fãs deste género como a todos aqueles que nunca tiveram contacto com a banda e acabam por se identificar com a nossa música. É muito gratificante que ao fim destes anos todos o nosso trabalho seja respeitado e o nosso mérito reconhecido.