Porque sim. Seria a resposta simples à pergunta do título, mas não pode ser assim tão directo. O fanboyismo diz-me que Iron Maiden é... [Opinião] Por que razão Iron Maiden é a maior banda de todos os tempos?

Porque sim. Seria a resposta simples à pergunta do título, mas não pode ser assim tão directo. O fanboyismo diz-me que Iron Maiden é a maior banda de todos os tempos, mas a integridade analítica e a perspectiva geral da História da Música diz-me que não posso esquecer The Beatles, Queen, Metallica, Pink Floyd, Nirvana ou Guns n’ Roses. Ainda assim, é credível dizer-se que Iron Maiden é uma das maiores bandas de sempre.

Anormalmente, a pergunta veio depois da afirmação quando vi uma foto dos ingleses no Rock In Rio 2019. ‘Iron Maiden é mesmo a maior banda de sempre!’, pensei, e depois questionei-me porquê. Na verdade, esta fotografia levou-me a ter 14 anos outra vez, quando comprei o duplo-CD do espectáculo no festival brasileiro em 2001. Rodou vezes sem conta – em casa quando dava concertos sozinho no quarto (quem nunca?) e no discman quando ia para a escola ou estava nos intervalos. O nu-metal foi a porta de entrada, os Iron Maiden foram a cerimónia de lealdade.

Pioneiros da NWOBHM, os rapazes da Dama de Ferro sempre foram aquilo que se viu: profissionais, artísticos, pacatos, bons companheiros. É assim desde 1975, e nem o caos perpetrado tantas vezes por Paul Di’Anno derrubou a postura amigável dos britânicos.

Iron Maiden não é, como alguém poderá achar, só mais uma banda de heavy metal que toca o mesmo, com sucesso, há mais de 40 anos, e nem sempre esteve no topo do mundo – aquela parte da década 1990 sem Bruce Dickinson é deveras negra, mas este, que é um dos maiores vocalistas de que há memória, acabara por regressar a casa com Adrian Smith (e só voltaria com Adrian Smith!) para se criar “Brave New World” (2000), visto, contra o que se poderia esperar na época, como um dos melhores discos do grupo. Mas regressando ao início deste parágrafo, vejamos as várias fases ao longo da carreira e como se souberam reinventar: “Iron Maiden” (1980) bebe do punk, “The Number of the Beast” (1982) incute uma veia operática e teatral, “Powerslave” (1984) revolta-se contra o estado do mundo, “Somewhere In Time” (1986) e “Seventh Son of a Seventh Son” (1988) deliciam-nos com enormíssimas composições de fantasia, “Brave New World” (2000) reacende a chama, “Dance of Death” (2003) é simplesmente épico, “A Matter of Life and Death” (2006) e “The Final Frontier” (2010) mostram uns Maiden que também sabem fazer heavy metal com toques de progressivo. Nada é igual na discografia destes veteranos, mesmo que tudo seja heavy metal, e, por força dos tempos, das situações e da demanda criativa, tiveram que enveredar por novos caminhos quando era, e ainda é, preciso ir frente.

Incrivelmente nunca se viram no meio de grandes polémicas (souberam sempre resguardar-se), nem nunca precisaram de airplay massivo para venderem milhões de discos e encherem arenas – a música e a aproximação ao fã real falam por si –, ainda que possamos recordar a controvérsia com Margaret Thatcher por causa da capa do single “Sanctuary”, as acusações de satanismo com “The Number of the Beast” ou Bruce Dickinson afirmar que o festival Glastonbury é «a coisa mais burguesa do planeta». Apenas trivialidades das quais, à primeira, nem nos lembramos. O que nos lembramos é dos discos atrás mencionados, de “Maiden England” (1989) – que é tido por uma vasta falange como o melhor álbum ao vivo de sempre –, do regresso apoteótico de Dickinson, dos vários concertos no Rock In Rio (tanto 1985, como 2000 e 2019), do documentário “Iron Maiden: Flight 666” que levou a banda a pequenos países da América Latina num avião pilotado pelo próprio vocalista e, claro, sendo portugueses, recordamos sempre com carinho cada passagem dos Maiden pelo nosso país, com enorme destaque para a última visita em 2018 numa Altice Arena esgotada e coroada por um alinhamento de músicas meticulosamente planeado para que banda e fãs pudessem imergir em ambientes de guerra, religião e fantasia.

Discutível? Claro. Tendencioso? Sou fã. Mais emocional do que objectivo? Talvez. Mas Iron Maiden é a minha maior banda de todos os tempos.