Espanto em modo de aplauso ou perplexidade incapacitante. Igorrr “Spirituality And Distortion”

Editora: Metal Blade Records
Data de lançamento: 27.03.2020
Género: metal / breakcore / barroco
Nota: 4/5

Espanto em modo de aplauso ou perplexidade incapacitante.

Sofres de ataques de epilepsia? Sofres de conservadorismo agudo? Então, cuidado. Mas podes ler o texto na mesma.

Único, imprevisível, louco, vanguardista. Quatro palavras que não são atiradas para o ar ao calhas quando se fala de Igorrr, projecto do francês Gautier Serre que mistura metal, breakcore, ópera, barroco, música dos balcãs e, agora com o novo “Spirituality And Distortion”, também sons orientais. Quem já ouviu sabe do que falamos, quem já assistiu a um concerto (Entremuralhas 2015, por exemplo) saberá ainda melhor.

Mas vamos por partes que isto pode tornar-se longo e, receosamente, mais confuso do que o previsto…

A inaugural “Downgrade Desert” detém imediatamente em si as influências orientais implementadas no disco, mas é também logo aqui que surge o metal extremo e a voz polivalente da operática Laure Le Prunenec e a robustez dos graves e berros de Laurent Lunoir, dois intérpretes que vão mantendo a sua posição ao longo das 14 faixas.

Em “Nervous Waltz”, como o título indica, somos convidados a dançar uma valsa com um conjunto de cordas que se transforma em algo moderno com a bateria a marcar o ritmo, mas eis que acontece o esperado inesperado: metal e breakcore esquartejam efusivamente a elegância (ultrapassada) da valsa. Mais à frente, em “Hollow Tree”, ouve-se o som do cravo auxiliado por uma percussão algo complexa e em contratempo, enquanto Laure Le Prunenec executa uma performance sofrida, como um pranto.

“Camel Dancefloor” volta a chamar ao disco as influências orientais e abre caminho à participação da incontestável voz de George ‘Corpsegrinder’ Fisher (Cannibal Corpse) que, depois de apoiado por uns riffs ortodoxos de death metal, vê-se sobreposto a arranjos em 8bits – ai que os conservadores até se mandam ao ar! Mas ei! Igorrr não é para mentes fechadas.

Como também é de esperar, para quem já ouviu discos anteriores, no meio de todo este turbilhão de emoções e cores sonoras, que às vezes não duram mais do que uns meros segundos até sermos pontapeados por outro qualquer arranjo/estilo, “Musette Maximum” combina o acordeão festivo de uma tasca francesa com a pujança violenta de um pedal-duplo e de uma guitarra death metal.

Com os seus 7 minutos de duração a destoar da média de 3-4 por tema, “Himalaya Massive Ritual”, sempre com uma estrutura e direcção variada, é a representação da ala épica do álbum com muitos coros, e “Lost in Introspection” podia muito bem fazer parte da banda-sonora de um filme de época apetrechado de maneirismos modernos, ouvindo-se até uns breves teclados à Dimmu Borgir. Já em “Barocco Satani”, é como se o metal casasse com o barroco, mas em vez de irem em lua-de-mel vão para um filme de terror ao som de guinchos de violino à Hitchcock.

Para finalizar em beleza, “Kung Fu Chèvre” encerra o álbum de forma festiva e tresloucada com uma abordagem à música balcânica, misturando-se metal, breakcore e cabras a balir, que deixará qualquer Emir Kusturica ou Goran Bregović banzados de espanto em modo de aplauso ou perplexidade incapacitante, algo que se aplica igualmente a quem se cruzar com Igorrr e este “Spirituality And Distortion”.