“Futha” é o exorcismo e a cura, um ritual liderado pelo poder feminino de outros tempos. Heilung “Futha”

Editora: Season Of Mist
Data de lançamento: 28.06.2019
Género: neofolk
Nota: 3.5/5

Enquanto “Ofnir” foi um álbum masculino, o novo “Futha” é a contraparte, o equilíbrio, o lado feminino – daí a proeminência das vozes femininas nele. Com letras oriundas da poesia islandesa, as mulheres sagradas cantam magias e oferecem as suas orações. Outra origem vem das runas inscritas em artefactos de guerra ou ornamento, sendo futha uma delas, encontrada numa bracelete que deve datar de 500-530 AC e que tem variantes decifradas como futh que tem a ver com a genitália feminina, levando-nos mais uma vez à imagem da mulher neste novo disco. Assim, evocam-se os poderes curativos e mágicos da mulher.

Com longas faixas (três delas ultrapassam os 10 minutos), os Heilung criam constantes transes hipnóticos essencialmente baseados nos vocais diversificados e na percussão folclórica simplista. Se há artigo discográfico que apresenta várias direcções vocais, então “Futha” é um deles ao descermos às profundezas com aplicações guturais (muitas vezes semelhantes ao canto difónico da Sibéria) e, consequentemente, ao subirmos aos salões dos deuses com versos cantados de forma mais aberta e alegre q.b.. A abordagem demoníaca será, porventura, a mais arrepiante, sendo encontrada logo na inaugural “Galgaldr”, na terceira “Othan” e na antepenúltima “Elivagar” que nos pode relembrar exorcismos. Porém, “Othan” acaba por ser bem terna com toda a conjugação entre a atmosfera traseira e as vozes frontais, o que se repete na seguinte “Traust”.

Num álbum maioritariamente enigmático devido a todas as suas orações, “Norupo” será a faixa mais amigável com a inclusão de instrumentos de sopro relacionados às flautas, mas também, e muito importante, devido à importância das vozes femininas cativantes.

E se até aqui muito de “Futha” podia soar a ritos mais ou menos pacíficos, as faixas “Vapnatak” e “Svanrand” criam cenários de guerra e sangue por causa dos gritos e urros – ainda assim, Maria Franz não perde o seu charme vocal, tão bem auxiliado por mais uma incursão àquilo que nos soa a canto difónico e que volta a seduzir-nos na penúltima “Elddansurin”, esta que imprime finalmente o rótulo neofolk devido à criação de sons produzidos por tecnologia moderna.

Para o fim ficam os 14 minutos de “Hamrer Hippyer”, uma espécie de resumo de todo o álbum ao ouvirmos praticamente todos os apetrechos anteriores numa só composição que tanto pretende assustar-nos como, por via hipnótica e festiva, expulsar todas as energias do corpo, sejam elas boas ou más, se nos imaginarmos a estrebuchar sem conseguirmos controlar os movimentos da cabeça, dos ombros, dos braços e das pernas. “Futha” é o exorcismo e a cura, um ritual liderado pelo poder feminino de outros tempos, de eras em que, como escrevem os Heilung, «a mulher não era degradada a uma máquina de parir e portadora da herdada culpa eterna».