“Mære” caminha ao lado do trauma, do delírio por algo bom que não acontece e da perda, criando-se todo um turbilhão... Harakiri for the Sky “Mære”

Editora: AOP Records
Data de lançamento: 19.02.2021
Género: post-black metal
Nota: 4/5

“Mære” caminha ao lado do trauma, do delírio por algo bom que não acontece e da perda, criando-se todo um turbilhão de sonhos esmigalhados por ódio e abominação tantas vezes auto-infligidos.

Considerados pioneiros do post-black metal, não podemos esquecer que muito do que ouvimos em Harakiri for the Sky é inspirado em bandas como Alcest, grupo francês que esteve sempre na vanguarda do chamado blackgaze, subgénero que, como o nome resume, une black metal e shoegaze. Ainda assim, este duo austríaco foi capaz de assinar uma sonoridade própria que originou um nicho que é cada vez mais amplo ao aliar black metal e post-rock em doses majestosas. Lírica e conceptualmente, os Harakiri for the Sky fazem também parte da revolução que o black metal tem vivido na última década no aspecto em que bandas como esta, Blaze of Perdition e Gaerea abordam o existencialismo ao invés de primitivo ódio, caos e destruição.

Com 10 anos de carreira, os Harakiri for the Sky chegam ao quinto álbum intitulado “Mære”, uma entidade folclórica que, com malícia, assombra os humanos enquanto dormem e instala falta de ar e ansiedade no seu hospedeiro. Sabendo que a banda austríaca lida com tais problemas, incluindo suicídio, depressão e vício em drogas, este título assenta-lhes como uma luva.

Gravado durante a quarentena na consequência da pandemia que atacou em 2020, todos os conceitos de abandono inerentes à banda ganharam mais expressão – não podia ser doutra forma, os Harakiri for the Sky continuam devotos às maleitas da vida sentimental e emocional e expiam todas as suas agonias existenciais através de um metal melancólico e aflitivo.

Ao longo de mais de uma hora, “Mære” é um xaile envolvente fabricado num tear que expele linhas tão belas e coloridas como tortuosas e com tons de morte. Sim, é um paradoxo, mas é precisamente isso que os Harakiri for the Sky sempre fizeram. Por outras palavras, a melodia das guitarras proveniente de várias camadas, que se intrincam lindamente, originam uma falsa segurança, o que é muito utilizado quando falamos de metal depressivo. E se não fossem os berros desesperados de JJ, “Mære”, como outros discos da dupla, podia muito bem ser um trabalho num registo sonhador e positivista, uma dicotomia a que os adeptos deste tipo de sonoridade já estão habituados. Na verdade, a bela e melodiosa melancolia é a personificação da mortificação do corpo e da inquietude espiritual que incomoda permanentemente JJ na voz e MS nas guitarras.

Assentando-se num som que já é marca mais do que cravada em pedra, o resultado de cada novo lançamento diz-nos que os Harakiri for the Sky não têm inovado dentro daquilo que já são – e nem é preciso. Por mais homogéneos e longos que possam ser os seus discos, a realidade de quem é fã dita que cada música é uma experiência sensorial única, um rodopio de emoções pesarosas incessantes, uma tentativa inglória de se chegar à superfície cada vez mais longínqua e encerrada. “Mære”, como a própria banda sempre fez, caminha ao lado do trauma, do delírio por algo bom que não acontece e da perda, criando-se todo um turbilhão de sonhos esmigalhados por ódio e abominação tantas vezes auto-infligidos, tudo materializado e concretizado na gloriosa e atmosférica cover de “Song to Say Goodbye” (Placebo) que fecha o álbum.