Entrevista a Grunt. Grunt: obediência, ordem e intransigência
Foto: João Fitas

Sendo a banda mais controversa da cena metal portuguesa, desde o próprio som aos concertos sexualmente ultra-visuais, os Grunt concederam uma lufada de ar fresco a si mesmos com o novo álbum “Discipline”. Em 2021 afastam-se do gore/grindcore mais directo e aproximam-se de cadências mais death metal em comunhão com espantosos arranjos electrónicos e industriais, sem nos esquecermos dos majestosos solos de guitarra que destoam do género. A Metal Hammer Portugal conversou com um dos Boys, o vocalista G, sobre que disciplina é esta que o disco carrega, obscenidade, perversidade, cinema sci-fi meets blaxploitation e o mundo BDSM.

«Podemos rastejar por entre os poços de enxofre do vale de Sidim e absorver a miséria e degradação que ditaram a destruição dos meandros de Sodoma e Gomorra.»

Boy-G

Unindo-se os pontos entre a imagética da banda, a sessão fotográfica no meio de ruínas/pedras e o ambiente espacial/sci-fi da música, podemos dizer que o possível conceito de “Discipline” anda à volta de viagens espaciais/alienígenas em busca de novos planetas para se implementar a cultura BDSM ou estamos a exagerar completamente?
Os Grunt têm efectivamente essa particularidade, a de poderem rastejar por entre os poços de enxofre do vale de Sidim e absorver a miséria e degradação que ditaram a destruição dos meandros de Sodoma e Gomorra. Depois, recorrendo ao exercício surrealista de Breton, conceber e consolidar os retalhos numa epopeia musical de contraste escuro, visual e intempestivo.
Ou, por outro lado, não são poucas as vezes em que nos deixamos seduzir pela ambiência e estética mais moderna e futurista para assim se abandonar o tom argiloso, sujo e arrastado em busca de composições mais directas, que permitam uma assimilação mais imediata e menos metafórica.
Creio que é essa multiplicidade de contextos que nos tem estendido o tapete para a criação de músicas que não se confundem – cada uma goza de um ecossistema musical exclusivo e egoísta.

Que Disciplina é esta que o título do álbum carrega?
Acho que no título podemos enquadrar as duas dimensões essenciais preconizadas pela origem etimológica da palavra. A Disciplina como veículo pedagógico e o Discípulo que acolhe o conhecimento. Em segundo, o diacronismo Disciplina que carrega o sentido mais carnal – a obediência, ordem e intransigência. Creio que o título reúne ainda características fonéticas ímpares que resulta numa excelente representação do conjunto de canções que constituem o álbum.

Preferem a obscenidade ou a perversidade?
São duas terminologias que, no contexto dos Grunt, coexistem, complementam e por vezes até se fundem. No entanto, acho que neste disco nos afastamos definitivamente dos contornos obscenos que nos caracterizaram outrora. Como apreciadores de vários estilos de poesia, quisemos injectar mais credibilidade e relevância literária ao conteúdo do álbum, mas, para isso, sentimos que não poderíamos continuar ancorados em geisers de urina e enemas subreptícios. No “Codex Bizarre” [álbum de 2015] já tínhamos limitado bastante e no “Discipline” a obscenidade assumiu um protagonismo bem mais subtil e refinado.

Discipline” afasta-se da cena gore/grindcore com temas mais longos, mais cadenciados e menos urgentes, sendo tudo mais atmosférico e direccionado ao death metal, sem esquecer todos aqueles arranjos electrónicos e industriais que proporcionam uma robustez e cor incríveis ao álbum. Esta viragem, mais adulta e madura, foi espontânea ou pensada previamente para que os Grunt pudessem surpreender novamente como já tinham feito antes?
Resulta definitivamente de um amadurecimento, mas sobretudo de uma necessidade artística. O disco não foi planeado em termos de composição – não foram estabelecidas regras e rótulos, portanto a composição aconteceu de forma espontânea e natural. Este é com toda a certeza o álbum mais honesto e transparente em que alguma vez participei, por nunca ter sentido a necessidade de estabelecer um template musical como base. Para este sentimento de liberdade criativa também muito contribuíram os nossos seguidores, que sempre demonstraram mais interesse pelo lado atípico e imprevisível do que propriamente pelo lado conservador e elitista dos rótulos aos quais nos associam.

«Este é com toda a certeza o álbum mais honesto e transparente em que alguma vez participei, por nunca ter sentido a necessidade de estabelecer um template musical como base.»

Boy-G sobre “Discipline”

A virtuosidade das guitarras já se ouvia em “Codex Bizarre”, mas talvez agora, com “Discipline”, tenham elevado essa fasquia mais um pouco. Tendo-se em conta o historial grindcore e tudo o que sabemos sobre esse género, é quase incauto pensar-se em longos e majestosos solos. Dirias que é uma das grandes valias dos Grunt e uma das peças que melhor exalta e distingue o vosso som do resto neste panorama?
Pois, os solos de guitarra sempre foram um assunto algo tabu da música extrema – existem estéticas que são aceitáveis, outras que são censuradas, e o que é certo é que muita gente não os inclui nas suas estruturas musicais porque tem medo da retaliação por parte dos seguidores. Como denotamos essa tal flexibilidade musical – que mencionei acima – por parte dos seguidores de Grunt, achamos que seria pertinente conferir mais protagonismo aos solos. Nós somos todos grandes fãs de hard rock – Whitesnake, Rainbow, Dio e por aí fora – e confesso que a secção dos solos é o culminar dos grandes clássicos que nos causam arrepios. Com a entrada do Boy-S e da sua conhecida irreverência técnica, passámos a ser dois guitarristas a falar a mesma linguagem e a espicaçar as músicas com os elementos que mais nos dizem. Portanto, acho que seria incauto não quebrar essa regra e não espremer as capacidades técnicas individuais de cada um por mero fundamentalismo.

Se alguma vez escrevessem o guião para um filme que juntasse a cena sci-fi dos 50s e coisas do tipo blaxploitation dos 70s, qual seria, assim muito repentinamente, a sinopse e o enredo?
É uma fusão de duas correntes bastante distantes e diversas, mas imaginamos a nave C-57D do “Forbidden Planet” a aterrar em pleno Bronx, com a Princesa Altaira e o Robby the Robot a bordo. Quando vagueavam pelas ruas deste bairro nova iorquino, em missão de reconhecimento, são abordados subitamente pela Coffy, Shaft e pelo Blacula aos quais se unem para combater a direcção de uma rádio local, que através de aparentes inofensivas ondas hertzianas tem lobotomizado todos os ouvintes, fazendo alastrar uma indústria musical massificada e desprovida de personalidade.
Os nossos heróis são aprisionados no decorrer da narrativa, mas por sorte um estagiário da rádio decide conceder airplay ao “Discipline” de Grunt, funcionando como um antídoto à hipnose massificada previamente infligida, dando-se um apoteótico retorno à normalidade.

«O mundo BDSM requer um nível de isenção que te permita apreciar a cena como um pedaço de arte performativa protagonizada por dois indivíduos com objectivos íntimos delineados e de forma totalmente consensual.»

Boy-G

O porno está a um clique, mas a realidade é outra. Qual é a mentalidade que uma pessoa tem de ter para entrar e explorar o mundo real do BDSM?
Não são poucas as vezes em que temos sido mal interpretados. Actualmente, as pessoas apresentam uma tendência incrível para politizar toda e qualquer situação. Tudo está sujeito a um escrutínio surreal de parâmetros políticos impensáveis, e até o gesto mais íntimo é sujeito ao julgamento público. O mundo BDSM requer esse tal nível de isenção que te permita apreciar a cena como um pedaço de arte performativa protagonizada por dois indivíduos com objectivos íntimos delineados e de forma totalmente consensual. Assumo que, por vezes, o impacto visual é impressionante, mas também isso caracteriza a prática BDSM.

Lê a review a “Discipline” aqui.