Quem segue God Dethroned há muitos anos – digamos, pelo menos, há 15-20 anos –, está ciente das diferentes fases da banda, desde os... Henri Sattler (God Dethroned): «As pessoas transformam-se em porcos quando se escondem atrás da religião»

«Continuo a ser um fanático contra a religião.»

Henri Sattler (God Dethroned)

Quem segue God Dethroned há muitos anos – digamos, pelo menos, há 15-20 anos –, está ciente das diferentes fases da banda, desde os conceitos satânicos aos temas da Primeira Guerra Mundial. Assim, terminada que está a trilogia sobre esse conflito bélico, a banda teve de engendrar novos planos conceptuais. Por outras palavras, os holandeses regressam às temáticas antigas antirreligiosas com a novidade “Illuminati”. «Sinceramente, foi um grande alívio poder voltar ao lado negro», responde Henri Sattler (voz, guitarra). «Escrever três álbuns conceptuais sobre a Primeira Guerra Mundial foi um grande desafio, porque, para além de dispararem uns contra os outros nas trincheiras, não havia muito a acontecer durante a guerra. Entretanto, muitos fãs começaram a pedir que voltássemos aos nossos temas mais antigos, como religião e tópicos do oculto. Desta vez, adicionámos os Illuminati às nossas músicas.»

De facto, este novo trabalho não é apenas antirreligioso per se, pois lida com várias religiões, maçons e teorias da conspiração, fazendo com que o pesquisador nato que habita no interior de Henri Sattler dê ar de si. «Faço sempre pesquisa antes de começar a escrever as letras. Também não quero escrever exactamente da mesma maneira que outras pessoas, por isso tento encontrar formas originais para abordar as minhas letras. Portanto, quando acho que sei o suficiente sobre o assunto, tento criar uma história fictícia.» E desta vez, até escreveu versos sobre uma pintura: «A música “Broken Halo” é a minha interpretação da obra “O Jardim das Delícias Terrenas”, de Hieronymus Bosch. A pintura representa o clero a cometer actos sexuais e a ser enviado para o inferno por isso. Fiz a minha própria versão explícita dessa história.»

Mesmo que as letras voltem aos tempos em que o holandês escrevia contra a religião com afinco, pode crer-se que, agora, a sua visão seja diferente e mais refinada, principalmente porque envelhecemos e vemos o mundo com outros olhos. Mas haverá assim tantas discrepâncias entre os três primeiros discos e o novo?«Pouco mudou desde então», diz-nos peremptoriamente. «Os meus sentimentos em relação à religião não mudaram. Basicamente, continuo a ser um fanático contra a religião por causa do abuso de poder e, especialmente, do abuso sexual que está a acontecer entre membros da igreja. A hipocrisia dessas pessoas é chocante e parece que nunca acaba. Não sou contra quem acredita, porque isso é uma coisa pessoal, mas todas as regras e regulamentos que acompanham a religião são estúpidas, principalmente porque as pessoas transformam-se em porcos quando se escondem atrás da religião.»

Musicalmente, “Illuminati” é o álbum mais melódico de God Dethroned até à data. Após corroborar a nossa perspectiva, até podemos apontar os conceitos líricos e estéticos como principal razão para isso, mas Henri escolhe a labuta de cariz caseiro como grande vitória. «Gravámos o álbum na minha própria casa, assim como o anterior, e isso traz muitos benefícios, como a inexistência da pressão do tempo. Portanto, fomos capazes de experimentar muitas coisas. Conseguimos adicionar muitas camadas à música, o que se revela após várias audições do álbum. Descobrem-se mais e mais detalhes. Acho que é por isso que o álbum resultou tão bem.» Neste disco até há teclados em todas as composições, mas o músico acalma as possíveis hostes mais duras: «Não se preocupem, God Dethroned ainda é uma banda orientada à guitarra, e os teclados estão lá para elevar a atmosfera. Basicamente, como bandas como Hypocrisy estão a fazer. Também experimentámos muito nas vozes. Combinámos coros e berros com voz limpa ao mesmo tempo. Isso também acrescentou muito à variedade das músicas.»

Ainda neste tópico, em 30 anos de carreira, Henri e todos os membros que passaram por God Dethroned devem ter composto e gravado música das mais variadas formas – sendo que num estúdio alugado ou em casa sejam as situações mais comuns. O press-release da Metal Blade Records refere que o holandês trabalhou principalmente em casa, sem a pressão de se gastar dinheiro e contar horas. Henri viu nisso uma excelente oportunidade, e estar no controlo total dos próprios métodos e criações é uma parte muito importante em God Dethroned. «Sim, é isso», atira. «Precisávamos de uma tonelada de dinheiro para os vídeos deste álbum. Portanto, economizar dinheiro que iria para um estúdio foi muito útil, mas o principal motivo é trabalhar ao próprio ritmo, sem stress. Quando se está num estúdio há pouco tempo disponível, e, por exemplo, o responsável diz-me para gravar vozes às 10 da manhã. Não me apetece gravar vozes às 10 da manhã! [risos] Então, em casa, começo às 10 da noite e paro às 2 da madrugada, quando a minha voz já está quente e tenho a serenidade da noite à minha volta.»

“Illuminati” tem data de lançamento a 7 de Fevereiro de 2020. Lê a nossa análise AQUI.