Não são muitas as bandas com estatuto lendário que se podem dar ao luxo de dizer que, ao longo de toda a sua carreira,... Michael Gilbert (F&J): «Temo-nos sentido bem a tocar juntos como uma máquina bem-oleada.»

Não são muitas as bandas com estatuto lendário que se podem dar ao luxo de dizer que, ao longo de toda a sua carreira, nunca alteraram a essência do seu som de marca. Dessas poucas, uma das que mais se pode gabar dessa continuidade estilística é Flotsam & Jetsam (F&J), pioneiros do speed metal que, ao contrário de qualquer outra banda deste género, colocou as guitarras a acompanhar inteligentemente a viola-baixo, o que lhes valeu honrarias aquando dos primeiros dois discos. Doze álbuns passados sobre o de estreia (o incontornável “Doomsday for the Deceiver”, de 1986), os F&J regressam com “The End of Chaos” (Janeiro, 2019), seguramente o trabalho mais pesado da banda, mas que continua a trilhar o caminho do speed metal clássico. Assim, Michael Gilbert, guitarrista do quinteto clássico, fala sobre a nova proposta que, em termos gerais, é um passo em frente em relação a “Flotsam & Jetsam”, de 2016. Quem acha que fazer música pesada e relevante em 2019 é fácil, não parece ter bem ideia da dificuldade que isso comporta.

«Tivemos um período de dormência depois do “Cuatro”, no princípio dos anos 1990. Nessa altura, o metal desvaneceu um bocado. A nossa base de fãs mais hardcore ainda gostou do “Cuatro”, mas as coisas mudaram. Hoje, isso é mais do que consensual e as coisas não só voltaram aos velhos tempos como ainda ficaram melhores. Estes nossos dois últimos trabalhos são indiscutivelmente os dois melhores a seguir aos dois primeiros clássicos, e temo-nos sentido bem a tocar juntos como uma máquina bem-oleada. Depois, o A.K…. [Eric ‘A. K.’ Knutson, vocalista] Pá, que cabrão! [risos] A voz do gajo está cada vez melhor, parece uma máquina. O papel dele no novo disco é capaz de ser o melhor de sempre, tanto em termos de refrãos como de letras – ele é dedicadíssimo.»

Sem dúvida que a voz de Eric parece um bom vinho do Porto, algo que só melhora com a idade. No entanto, o estilo vocal desta banda manteve-se basicamente inalterado durante quase 40 anos. Sendo que os F&J são uns dos representantes máximos e inovadores do thrash, questionámos se teriam existido experiências da parte do vocalista, por exemplo: excertos vocais de death metal, de molde a progredir um pouco o género e até porque o novo álbum é realmente bastante pesado. «Letras e estilo death metal do tipo ‘uaaaaargh’? [risos]», imita a voz de death metal. «Não, nem por isso! Estou a brincar, entendi perfeitamente a pergunta. [risos] Embora não tivesse experimentado com os géneros mais agressivos, testou imensas coisas, muito porque tivemos bastante tempo para gravar o disco, visto que foi em casa, no Arizona. Nesse campo mais agressivo, ele não se sente muito confortável, o que faz sentido se tivermos em conta que se trata de um vocalista com formação clássica. Há partes no disco em que ele mete prego a fundo, com um som mais urrado e agressivo, mas ele é um vocalista propriamente dito, não desfazendo dos vocalistas de death metal, é completamente distinto entre teres formação e não. O A.K. é a nossa mascote, toda a gente reconhece os F&J graças à sua voz, logo não faria muito sentido mudar radicalmente o tom vocal.»

Se hoje em dia fôssemos forçados a eleger uma banda de speed metal sem pensar duas vezes, teria que ser esta se quiséssemos que o nosso trabalho fosse levado a sério. O novo disco mantém um ambiente old-school, verdade, mas a produção não poderia ser mais moderna, muito devido à magia do produtor Jacob Hansen, que já trabalhou com bandas de todos os estilos de metal, do heavy tradicional ao black. A voz pode não ter mudado significativamente, mas a produção atingiu um novo patamar com Jacob ao comando da mesa. «Na verdade, sim, o som melhorou bastante, mas também porque queríamos experimentar algo novo; tanto eu como o Steve [Conley, guitarra] e o Ken [Mary, bateria] temos os nossos estúdios, e o Ken é um produtor e engenheiro de som fantástico, mas o Jacob… O Jacob é um excelente músico, compositor e técnico de som. Foi bom gravarmos as cenas aqui no Arizona e enviá-las para ele tratar do disco, foi uma excelente adição à banda. Ele fez um trabalho magnífico.»

Não foi só a adição de Jacob Hansen que transformou o novo registo – afinal, Ken Mary estreou-se nos F&J com este álbum, o que se percebe nitidamente devido ao poderoso trabalho rítmico deste músico que já passou por nomes lendários como Accept, Alice Cooper ou Chastain. «Ele e o Steve já tinham uma boa relação e trabalharam, no passado, nos estúdios. Quando o Jason Bittner, o nosso antigo baterista, decidiu juntar-se aos Overkill, perguntámos ao Ken se estaria interessado em substituí-lo. Ele disse automaticamente que sim, que podia tentar para ver se resultava. Quando ele apareceu no nosso estúdio e tocou a primeira música connosco, percebi que era a pessoa perfeita para a posição. Nem sequer fizemos audição de outros bateristas, embora tivessem enviado vídeos, pois ele é o baterista que completa os F&J. Já tivemos sessões de audições em que nos juntávamos todos e tocávamos três ou quatro temas e percebíamos logo no primeiro que não iria resultar. Nós, músicos, somos picuinhas uns com os outros, às vezes torna-se difícil. [risos]»

Costumamos pensar que, sem Jason Newsted, o seminal “Doomsday for the Deceiver” pudesse ter sido um disco sólido, mas nunca a laje aguçada que é, claramente um dos melhores discos de estreia de speed/thrash metal de todos os tempos. À época, o disco revolucionou o panorama de tal forma que a própria Kerrang Magazine pontuou o disco com 6 estrelas… em 5. Nunca mais tal coisa voltou a acontecer. Como estarão as relações entre Newsted e F&J? «Da última vez que fiz anos, ele ligou-me e falámos. Mantenho contacto com ele e sei que ele ainda acompanha tudo o que sai de F&J. Ele é um tipo bastante inteligente, que tem uma compreensão muito madura do negócio da música. Mantemos contacto regular. Em última análise, senti uma ligação com ele quando trabalhámos no primeiro disco, pois ele ajudou a construir e a escrever os temas. Caso se voltasse a proporcionar, adorava trabalhar com ele novamente, pois é uma pessoa impecável, um criador de canções invulgar e um músico extremamente talentoso.»