O evangelho segundo a vocalista dos Nightwish, Floor Jansen. Floor Jansen: «A maneira como as coisas estão agora não é a maneira como as coisas são para a vida»

O evangelho segundo a vocalista dos Nightwish, Floor Jansen.

Foto: Tina Korhonen

Já passaram oito anos desde que Floor Jansen se juntou aos Nightwish, e neste período o seu já considerável estrelato cresceu ainda mais. Na actualidade, continua a ser uma das mulheres mais reconhecidas do metal: um talento supremo e personalidade fascinante que ajudou os Nightwish nos seus anos de maior sucesso. Uma carreira improvável para alguém que originalmente queria ser bióloga e conviver com uma carrada de animais…

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Nunca fui uma criança parada
«O meu pai era um homem ambicioso, portanto se houvesse uma oportunidade de negócio, um emprego melhor, ele mudava-se. Não esqueçamos que naquela altura não havia telemóveis, não dava para manter o contacto, por isso, se te mudasses, basicamente nunca mais verias [os amigos] novamente. Não sei o que é crescer num lugar e fazer amigos que manténs para a vida. Sou casada com um homem que teve isso. Ainda hoje, ele encontrou-se com um dos seus melhores amigos desde a escola primária – agora temos filhos, eles têm filhos da mesma idade e esse tipo de coisas. Acho que, para mim, isso é romântico. Mas talvez por me ter mudado tanto, foi-me fácil emigrar. Ainda sinto falta das pessoas, mas é fácil adaptar-me aos lugares e valorizar os amigos que duram.»

A única constante é a mudança
«A vida é flexível. Não gostaria de ensinar à minha filha que a maneira como as coisas estão agora é a maneira como as coisas são para a vida, porque não é. A vida mudará constantemente, e acho muito saudável que isso aconteça. Às vezes, as pessoas precisam de sair das suas zonas de conforto para se manter a energia a funcionar, para não se adormecer. A segurança é uma coisa muito forte na nossa natureza humana, mas, de onde estou, acho que é bom sair-se dessa zona de conforto.»

Queria ser bióloga
«Era o meu amor pela natureza. Não é algo que tenha surgido quando entrei para Nightwish, tenho isso desde criança. Sinto-me fortemente ligada à natureza e ao bem-estar de tudo à minha volta, que vive e que respira, incluindo plantas e árvores e, claro, animais. Não compreendia mesmo o que um biólogo faz – eu só queria trabalhar com a natureza, fazer parte dela e entendê-la melhor.»

Os The Gathering mudaram a música
«Foram uma mudança. Apareceram na rádio com a “Strange Machines” do álbum “Mandylion”. A modos que iniciaram [um movimento] na Holanda e por aí fora. Acontece que [os After Forever] começaram na mesma altura que os Within Temptation. Os Nightwish já existiam, mas só se estavam a começar a expandir internacionalmente nessa altura. Mas, para mim, a ideia de que poderia cantar numa banda de metal nunca me ocorreu antes dos The Gathering.»

Não foi difícil tornar-me vegetariana
«Foi-me muito fácil desistir de comer carne – um pensamento mais aprofundado sobre o que está a acontecer aos animais que têm de ser produzidos em massa para se alimentar esta raça humana. Não é justo para eles. Não sou contra comer outros animais, mas não gosto da maneira como os mantemos ou das coisas que temos de fazer artificialmente para que não haja surtos de doenças em massa.»

Mesmo assim, caça é muito porreira
«Desde que me mudei para a Suécia e que moro basicamente na floresta, aprendi muito sobre caça, que ainda é um assunto muito difícil para muitas pessoas, especialmente para as que não estão próximas da natureza. Quanto mais te aproximas da natureza, mais parte dela te tornas, e na natureza outros animais caçam. Na Suécia, por exemplo, caçam para preservar a espécie. Tem tudo de ser feito com uma morte rápida, sem sofrimento – é muito importante que não sofram. As pessoas que o fazem têm um grande amor e respeito pela natureza e pelos animais. E fico feliz por participar nisso – descobri que sou boa atiradora! Embora nunca fosse realmente para a floresta e caçar…»

Ter um insecto com o meu nome foi inesperado
«Foi estranho! [risos] É especial! É mais uma ligação à natureza – mas sim, fantástico, uma verdadeira honra. Agora existe um pequeno insecto [Tmesisternus floorjansenae] com apenas um centímetro que tem parte do meu nome, só porque o biólogo gosta muito da minha música. Foi exactamente assim que aconteceu! [risos]»

Provavelmente, a minha filha tem metal no ADN
«Mas gostamos da música na sua diversidade, portanto ela tem crescido com todos os tipos de cenas. Para ela, “Old McDonald Had A Farm” ainda é muito mais popular do que metal. Tens de começar pelos clássicos!»

E se ela quiser ser música, estaremos lá
«Tememos esse dia porque conhecemos as dificuldades [o marido de Floor é Hannes van Dahl, baterista dos Sabaton]. Mas se ela tiver talento para isso, só precisa de ir e fazê-lo e acreditar em si. Permanecer, mesmo quando as coisas estiverem a ficar difíceis. É bom que a mãe e o pai tenham alguma experiência nisso, mas ela tem de se defender se quiser realmente fazer isto.»

Ser famosa é estranho
«Mudámo-nos para uma zona muito remota na Suécia, e na verdade não dissemos nada a ninguém sobre nós. Achamos que devem ter sido os proprietários anteriores que disseram às pessoas da zona quem éramos, porque pensávamos que tínhamos lá chegado anonimamente! O camião que nos ajudou a mudar esvaziou e foi embora, e depois um tractor veio até à propriedade. Um tipo apareceu e disse: ‘Ei, sou um dos vizinhos – soubemos que a vocalista dos Nightwish e o baterista dos Sabaton acabaram de se mudar, então pensei em vir, dizer olá e apresentar-me!’ Portanto, era óbvio que toda a gente sabia, mas talvez isso nos tenha proporcionado um bom começo porque são pessoas muito porreiras e damo-nos muito bem.»

Participei num programa holandês chamado Best Voices
«É um programa sobre as melhores vozes da Holanda, pessoas que já fizeram carreira. As pessoas são postas numa ilha e tocam a música uns dos outros. Cada voz vinha com uma lista de músicas favoritas e os outros escolhiam uma das que iriam cantar ao seu próprio estilo – e tínhamos todos estilos muito diferentes! Havia uma voz de ópera com quem fiz “Phantom of the Opera”, havia uma voz pop, um cantautor, um tipo meio holandês / meio latino-americano que faz reggaeton, um tipo do rock que eu conhecia… Era uma mistura selvagem de pessoas, todas com diferentes estilos de música. Foi um desafio para mim, mas achei que era uma grande oportunidade e dar aos holandeses uma visão do meu mundo sem os assustar. E realmente funcionou! A maneira como a Holanda me considera mudou e portas foram definitivamente abertas.»

Algumas perguntas em entrevistas conseguem incomodar-me
«O que me chateia em entrevistas é quando tenho de responder a uma pergunta que já foi parcialmente respondida pela pessoa que está a entrevistar. Uma pergunta feita do tipo ‘deves estar a sentir que…’ e depois vem uma suposição. ‘Consigo imaginar que foi difícil escrever este álbum…’ Ok, então a pergunta é…? Assumir emoções e assumir coisas… Estou farta que [os entrevistadores] me orientem na direcção da resposta…»

Não sei ao certo por que é que os Nightwish se ligam a tantas pessoas
«Deve haver algo na atmosfera da música que vai para além da complexidade ou do género. Há algo que liga as pessoas à banda, e continua. Ainda estamos a crescer! Acho que a composição é muito, muito boa, mesmo quando é complexa. Acho que as pessoas têm a mente aberta para isso – só porque a rádio pensa que tem de alimentar o público com músicas de três minutos, isso não significa que toda a gente no mundo não consiga lidar com mais. Talvez as pessoas achem revigorante quando se vai um pouco para além disso. As pessoas conseguem sentir naturalmente quando é boa música. Mas ainda assim tudo tem de funcionar. As estrelas têm de estar alinhadas, e depois há trabalho árduo e um grande amor pelo que fazemos.»

Consultar artigo original em inglês.