No final de Outubro, os Moonspell deram arranque a uma enorme digressão dividida em 50 concertos que percorrem toda a Europa (estivemos presentes no... Fernando Ribeiro (Moonspell): «Nós, como metaleiros, devíamos combater o racismo.»

No final de Outubro, os Moonspell deram arranque a uma enorme digressão dividida em 50 concertos que percorrem toda a Europa (estivemos presentes no concerto do Porto), e a Metal Hammer Portugal falou com o vocalista Fernando Ribeiro horas antes de subir ao palco do Simm City, em Viena (Áustria), referindo que as ilações que retira do tempo passado na estrada e no palco são «muitas e difíceis de resumir».


«A tour está só a metade e esta parte é que é complicada», comenta. «É aqui que as pessoas começam a ter “cabin fever” [termo para designar a claustrofobia], como se costuma dizer. Se viram aquele filme, “A Cabana do Medo”, é mais ou menos esse sentimento. É muita gente no autocarro, muitas mentes para gerir – pois nem toda a gente tem a preparação e a stamina que, por exemplo, os Moonspell têm -, mas devo dizer que independentemente disso, é completa e absolutamente normal numa digressão. Tal como eu pensava no princípio, isto é uma prova de superação e penso que tem ido em crescendo. Houve dias muito complicados aos quais nós somos alheios, com fronteiras, polícias, políticas, racismos, refugiados, por aí fora… É o estado do mundo, ou pelo menos do nosso velho continente, mas o mais importante a dizer é que a irmandade com os Rotting Christ e uma amizade nova com os Silver Dust está de pedra e cal; que em 50 concertos temos já 16 esgotados e provavelmente metade da digressão vai estar esgotada graças ao esforço e ao talento dos Moonspell e dos Rotting Christ, como é óbvio. Os concertos têm sido maravilhosos, a banda está muito oleada (não é só o desgaste mas também a forma que fica apurada)… Há uma teoria mais ou menos pseudocientífica que diz que um ser humano leva 21 dias a adaptar-se a qualquer situação mais extrema. Guerra, abandono, por exemplo… Isto é só uma metáfora, as pessoas que entendam bem, e acho que esses 21 dias passaram, portanto estamos aqui de pedra e cal e com um ânimo muito bom para enfrentar o que falta, pois agora o relógio também começa a contar ao contrário.»

Na estrada, o racismo transporta-se dos televisores e da Internet para se materializar em algo que o músico vê com os próprios olhos: «Uma coisa é estar em Portugal a mandar bitaites na Internet e a votar na Iniciativa Liberal e no Chega. Outra coisa é vir aqui para a estrada e passar por fronteiras onde há até hotéis abandonados cheios de seres humanos, refugiados de guerra, guerras essas muitas vezes provocadas e não evitadas pela própria Comunidade Europeia, e ver nisso uma realidade completamente diferente. O racismo está aí e acho que o devíamos combater. Nós, como metaleiros, devíamos combater onde nós podemos combater melhor o racismo, que é dentro da música extrema, dentro do black metal. Há espaço, infelizmente, para essas teorias de tudo o que seja xenofobia, racismo e tudo o que seja -ismos, que são sempre perigosos e hoje em dia estão cá para durar. Têm que ser combatidos sem meias medidas, sem mal entendidos, politicamente, socialmente e musicalmente.»

«É um problema muito grave», prossegue, «e acho que deveríamos aproveitar a nossa música, a nossa mentalidade e as nossas oportunidades – que viajámos – para combater o estigma e não para o deixar ali a marinar numa área cinzenta.»

Os Moonspell estarão em digressão com os Rotting Christ e os Silver Dust até dia 15 de Dezembro, com o último concerto a ter lugar na Alemanha.