Muitos atribuem o declínio da onda hair metal, que dominava a rádio e a MTV no final dos anos 1980, ao aparecimento de bandas... Faith No More: 30 anos de “The Real Thing”
Foto: Ebet Roberts\/Redferns

Muitos atribuem o declínio da onda hair metal, que dominava a rádio e a MTV no final dos anos 1980, ao aparecimento de bandas do movimento grunge, como Nirvana ou Soundgarden, mas um dos álbuns que influenciou inquestionavelmente toda uma nova geração a querer enveredar por sons alternativos em directa consequência da fusão entre estilos tão diversos como funk, rock, metal, synthpop e rap, foi o clássico seminal de Faith No More, “The Real Thing”, terceiro disco da banda oriunda de São Francisco, lançado a 20 de Junho de 1989.

Foi o primeiro disco do quinteto que representou não só uma viragem rumo a uma direcção mais experimental, mas também o primeiro que marcaria a estreia em estúdio daquela que viria a ser uma das maiores referências vocais da actualidade, Mike Patton, depois de vários problemas internos e altercações entre elementos da banda terem marcado a saída de Chuck Mosley, primeiro vocalista da banda com o qual gravaram os dois primeiros discos, “We Care a Lot” de 1985 e “Introduce Yourself” de 1987.

De acordo com declarações do baixista Billy Gould à revista Kerrang, Patton entrou para os Faith No More no momento em que a banda se sentia sem inspiração e com a percepção de que a sua criatividade estaria gasta. Patton foi convidado a fazer uma audição com os Faith No More após o guitarrista Jim Martin ter recebido uma cassete-demo dos Mr. Bungle por parte de Trey Spruance, guitarrista na altura da banda experimental da qual Patton fez parte durante vários anos. Em entrevista à Billboard, e relembrando a primeira vez que ouviu Mike Patton, o teclista Roddy Bottum afirmou: «O som deles não era nada do que eu ouvia, por isso quando a ideia [de fazer a audição] surgiu, lembro-me de perguntar ‘quem é este tipo?’. Lembro-me também de ouvir a cassete de Mr. Bungle e achar que ele tinha uma grande voz com um alcance doido!»

A maioria do material já tinha sido escrito depois da tour de suporte a “Introduce Yourself”, antes de Patton entrar para a banda, e o vocalista só viria a ter um papel mais activo na composição musical em “Angel Dust”, disco que se seguiria em 1992. Matt Wallace, produtor dos dois primeiros álbuns afirmou que trabalhar com Patton era como «tentar montar um touro ou conduzir uma moto de corridas». Ao início houve desentendimentos entre o produtor e Patton relativamente ao facto de não estarem a conseguir captar todo o alcance da voz do vocalista em pleno, mas Wallace afirmou também à Kerrang: «Não acredito que alguma vez tenha trabalhado com alguém capaz de cantar como o Patton, porque ele faz tudo parecer fácil. Se ouvirem bem, ele de facto está a fazer um grande trabalho de canto, fraseamento  e escrita de melodias vocais.»

Com a entrada de Patton, estava então consolidada a formação clássica da banda cujo primeiro álbum iria servir como um retrato da emergência de uma nova realidade cultural e artística que se vivenciou no final dos anos 1980. O crossover influente de estilos do disco manifestava-se em rendições de rock energético guiado por teclados, como era possível constatar em “From out of Nowhere”, “Falling to Pieces” e “Underwater Love”, na intersecção entre momentos de calma e tempestade em “Zombie Eaters” e “The Real Thing”, na presença de rock progressivo em “Woodpecker From Mars”, no piano blues de “Edge Of The World”, e até mesmo na vertente thrash metal através de “Surprise! You’re Dead”, música escrita originalmente por Jim Martin para a sua antiga banda Agents of Misfortune, da qual fez parte o falecido baixista de Metallica, Cliff Burton, grande amigo de infância de Martin.

No entanto, de todo o material presente no disco, foi o segundo single, o clássico “Epic” que fez com que a banda fosse catapultada para outros voos. O videoclipe já mítico da banda foi responsável pela entrada do disco na tabela Billboard 200, um ano após a sua saída. A música apresentava uma fusão contagiante entre rap, funk e metal, que era, por um lado, totalmente fora do convencional, mas, por outro, perfeitamente talhada para a reprodução incessante na rádio e na TV, tendo-se tornado numa das músicas mais rodadas da MTV.

“Epic” foi também responsável pelo início de uma rivalidade entre Mike Patton e Anthony Kiedis dos Red Hot Chili Peppers, que acusou o cantor de copiar o seu estilo. Kiedis chegou a afirmar: «O meu baterista vai raptá-lo [Patton], rapar o cabelo dele e cortar-lhe um dos pés para que ele seja forçado a encontrar um estilo só dele!»

Roddy Bottum respondeu ao caso a dizer: «Para mim, a nossa banda não soa nada a RHCP. Se estás a falar de cabelo comprido e de cantar rap sem t-shirt, aí consigo ver semelhanças, mas para além disso, não vejo mais nenhuma. Não falei com eles desde que isto tudo começou. Somos bons amigos da banda e gosto de pensar que nos estão a fazer isto… como um favor!» Já Mike Patton chegou mesmo a brincar várias vezes com o assunto, tendo falado sobre o tema pela última vez em 2001: «Acho que o Anthony, lá no fundo, sente que eu danço melhor do que ele. Acho que agito o meu rabo com mais estilo. Se ele parasse de mandar drogas era capaz de me superar. Talvez um dia tenhamos um duelo de breakdance.»

A tournée de apoio ao disco serviu de palco para a ridicularização do estilo de vida das bandas glam, pelo que os Faith No More não perdiam uma oportunidade para gozar com bandas que os acompanharam em digressão, como os Poison. Durante a tour foi também filmado o vídeo para “From out of Nowhere”, num espetáculo em que Mike Patton sofreu um acidente com uma garrafa de cerveja que se partiu na sua mão e lhe causou desde então dano irreparável nos tendões, o que fez que perdesse a sensibilidade no seu uso para sempre.

“The Real Thing” foi um dos discos mais bem-sucedidos da banda e, no final do seu ciclo de promoção em 1990, os Faith No More tornaram-se estrelas mundiais reconhecidas à conta do seu impacto. Desde as guitarras de orientação metal de Jim Martin, passando pelo estilo fluido da bateria de Mike Bordin, os teclados atmosféricos do jogador de equipa Roddy Bottum, o baixo funky de Billy Gould e a voz esquizofrénica de Mike Patton, a combinação destes cinco músicos com estilos que aparentavam ser totalmente díspares fez com que “The Real Thing” se tornasse numa verdadeira pedrada no charco no mundo do rock, alterando o seu rumo para sempre.

Jonathan Davis, dos Korn, afirmou: «O “The Real Thing” é o meu disco favorito de Faith No More. É quando o Mike Patton chegou à banda… Muitas das nossas influências vêm do “The Real Thing”.» Greg Puciato, ex-vocalista dos Dillinger Escape Plan, afirmou também que foi um dos discos que mudou a sua vida.

Por último, por ocasião dos 30 anos do disco, Billy Gould comentou: «Lembro-me como foi ensaiar, gravar e ir para a estrada com este disco. Foi durante uma altura excitante em que éramos jovens, focados e tínhamos uma abordagem determinada no que fazíamos. Olhando para trás, o que acho mais incrível é que tocávamos a música que tocávamos, naquele período de tempo, num mundo musical que já não existe. Sinto-me mesmo sortudo por ter vivido isso!»