Vinte e cinco anos após a sua dissolução original, concluímos que “Mourn The Southern Skies” valeu a pena a espera, principalmente quando por parte... Exhorder “Mourn The Southern Skies”

Editora: Nuclear Blast
Data de lançamento: 20.09.2019
Género: thrash/groove metal
Nota: 4/5

Seria pouco provável ouvirmos falar dos Exhorder depois dos magníficos “Slaughter In The Vatican” (1990) e “The Law” (1992), após os quais a banda encerrou actividades durante 25 anos. Pais do groove thrash metal, e ignorando subgéneros dentro deste subgénero,  atravessaram problemas internos que fizeram com que a banda se separasse em 1994, mas que  foram certamente ultrapassados em 2018, quando os vimos actuar no SWR Metalfest e posteriormente no Download Festival Madrid, onde relembraram a glória de outros tempos em ambos os concertos. Até porque os Exhorder são o tipo de banda que capitaliza como poucas ao vivo.

Nesses concertos, a promessa de um novo álbum não caiu em saco roto, e eis que 2019 dá as boas-vindas a “Mourn The Southern Skies”, um trabalho contagiante e plenamente adequado aos dias de hoje, mas sem nunca perder os ingredientes que fizeram dos Exhorder o que sempre foram. Tudo começa com a explosiva “My Time”, uma afirmação de vitalidade e de know-how de uma banda que sabe o que faz. Soa um pouco a Pantera? Pois soa, não fossem os Exhorder uma influência dos texanos, principalmente no que toca às vozes.

O som de “Mourn The Southern Skies” é tipicamente americano, impossível de mimetizar, uma marca de água geográfica instantaneamente reconhecível devido ao seu tom amplo, violento e bastante alto, mesmo à americana, à grande e (perdoem a chalaça) à francesa. As guitarras e os solos de Vinnie LaBella continuam a marcar pontos no campo do peso e do puro caos – quando LaBella entra em despiques de solos com Marzi Montazeri, então é impossível não tecermos um esgar de agrado em relação ao que ouvimos. A seguinte “Asunder” tira o pé do acelerador, mas carrega no da negritude e prime o botão de turbo do peso. “Let no man put asunder, I’m gonna love you ‘till you’re six feet under”, lamenta Kyle Thomas de forma fúnebre e tenebrosa, certamente resquícios da sua passagem pelos seminais doomsters Trouble. Já o trabalho de bateria de Sasha Horn (que, entre outras bandas, fez parte dos nossos brilhantes Ava Inferi, ao lado Rune Eriksen e Carmen Simões) oferece aos Exhorder uma noção de actualidade muito necessária. De facto, a escolha de outro baterista talvez tivesse prejudicado o trabalho.

A terceira “Hallowed Sound” inicia com blast-beats, mas é falso alarme, pois a banda repete a fórmula da faixa anterior: menos velocidade e muito mais peso. Contudo, começamos a aperceber-nos da diferença que faz ter Montazeri a bordo, o que confere à banda mais técnica. Nela, Thomas afirma-se como um dos legítimos pioneiros que auxiliou a cimentar a cena do southern metal norte-americano, com declarações como “no hurricane can keep us down”. Segue-se-lhe “Beware The Wolf” e, como o nome indica, a velocidade e o peso reinam como se fosse 1990. Mas é “Yesterday’s Bones” que nos apresenta uma banda plenamente capaz, madura, incrivelmente melódica, o que a faz variar do habitual gimmick de música rápida/música lenta, tratando-se de uma faixa lenta, de facto, mas com arranjos de guitarra e uma dose de melodia incaracterística dos Exhorder. É, certamente, um dos temas mais fortes do novo trabalho, se não mesmo o mais forte, pois apresenta-nos uma banda que não tem medo de sair da sua bolha e explorar um pouco mais, oferecendo assim algo inesperado.

“All She Wrote” volta a meter o groove e o peso em modo principal, com um riff forte o suficiente para abater um quarteirão. Nas notas finais, ouve-se um pouco mais de experimentalismo proveniente da introdução do Hammond B-3, que pinta o trabalho com uma cor um pouco mais sinistra. Mas nem tudo é novidade, felizmente, pois podemos ouvir os Exhorder de “Slaughter In The Vatican” em “Ripping Flesh”, que leva a taça de Música Mais Animalesca de “Mourn The Southern Skies”, tal é o caos, a velocidade absurda dos riffs e a injecção de adrenalina a que somos submetidos. É bom constatar que os Exhorder não se esqueceram de onde vieram.

Por fim, o tema-título faz-nos voltar a pensar que as temporadas que Kyle Thomas passou à frente dos Trouble dão frutos anos depois, desta feita nos Exhorder. Nela, Kyle canta, de forma propriamente dita – logo nos momentos iniciais, e acompanhado de uma melodia acústica memorável, o vocalista parece chorar a perda de alguém próximo, de um familiar ou amigo, nota-se no luto da sua voz. Ao longo da música, a sua voz é o instrumento mais importante, já que lhe oferece tons variados, do doom metal ao stoner, passando pelo blues de uns Led Zeppelin. Se “Hallowed Sound” nos fez levantar o sobrolho, “a faixa homónima faz-nos desejar que a música continue por pelo menos mais meia hora, tempo esse em que temos expectativas de ouvir instrumentos como harmónicas e banjos tocados por velhotes de charuto na boca e copo de Bourbon pousado na mesa à sua frente. Uma música que transmita tudo isto, bem como os sons finais de um curso de água e do chilreio de pássaros,  não pode ser chamada de nada menos do que excelente. Produzido por Jens Bogren, já tantas vezes referido pela Metal Hammer Portugal devido aos seus trabalhos passados (Amon Amarth, Arch Enemy, Be’lakor, Dark Tranquility, etc.), não se poderia esperar um trabalho abaixo de perfeito, sempre com a tal amplitude sonora norte-americana vital para a caracterização do som dos Exhorder. Vinte e cinco anos após a sua dissolução original, concluímos que “Mourn The Southern Skies” valeu a pena a espera, principalmente quando por parte de uma banda da qual não estávamos à espera.