Com o novo trabalho “On Light and Wrath”, os lisboetas Enchantya iniciam uma jornada de auto-descoberta onde atingem um estado de perfeita harmonia e... Enchantya: conto de fadas negro (entrevista c/ Rute Fevereiro)
Fotografia: Diana Fernandes

Com o novo trabalho “On Light and Wrath”, os lisboetas Enchantya iniciam uma jornada de auto-descoberta onde atingem um estado de perfeita harmonia e dão um passo importantíssimo rumo à busca pela iluminação sonora. Com uma renovação levada a cabo desde a formação da banda até à própria sonoridade, os Enchantya apresentam-se em grande forma no seu segundo disco, revelando uma nova e intensa palete de cores melódicas que complementam as suas raízes góticas, abrindo de igual forma as portas ao prog. A vocalista Rute Fevereiro fala sobre um renascimento: «No início de 2016, a banda voltou ao seu estado inicial, ou seja, fiquei sozinha e decidi continuar este projecto com novas pessoas. Então, em muito pouco tempo, fiz audições e a banda ficou completa». Para auxiliar Rute Fevereiro neste capítulo, os Enchantya davam as boas-vindas a Pedro Antunes nos teclados, Bruno Santos e Fernando Campos nas guitarras, o baixo ficava à responsabilidade de Fernando Barroso e Bruno Guilherme assumia o kit de bateria. Para a vocalista, «ter sangue fresco na banda e ter pessoas que ambicionavam e amavam fazer o mesmo tipo de música que eu, e melhor ainda, levarem essa criatividade para além do que imaginámos, foi o que fez crescer Enchantya e chegar à gravação do álbum “On Light And Wrath”».

Enchantya – The Beginning

O sucessor de “Dark Rising”, de 2012, assinala a estreia da banda pelo selo finlandês Inverse Records, uma entidade que, para Rute Fevereiro, atenderá mais facilmente ao desejo da banda em internacionalizar-se. «As editoras deste género têm vindo a crescer imenso em Portugal, mas nesta fase actual sentimos que uma editora do Norte da Europa poderia responder melhor ao tipo de objectivos que temos para este álbum, nomeadamente a facilidade de marcar concertos além-fronteiras para promover a banda.» Também a Inverse Records percebeu que “On Light and Wrath” não só apresenta o conjunto de composições mais pesadas do colectivo português até à data como é também um dos lançamentos mais robustos que o metal gótico ofereceu em tempos recentes. A vocalista admite que o objectivo é construir temas que acrescentem algo de entusiasmante nas suas prestações ao vivo, antevendo por isso a necessidade de apresentar composições heterogéneas e com muita variedade. «Não podemos ser acusados de ser enfadonhos ou de tocar temas [muito] parecidos, pois são muito diversificados», comenta. «Tudo resultou de um processo onde se apresentaram músicas em esboço e todos trabalharam para melhorar os temas em si. Fazemos muito trabalho de casa e isso é empolgante e dá resultados.» Com uma abordagem mais próxima ao metal progressivo, Rute Fevereiro diz-nos sentir que faltavam «mais riffs pesados em Enchantya», bem como a «presença de um teclista», para assim preencher um vazio que se fazia notar «na parte mais sinfónica e emocional da identidade de Enchantya». Este complemento à sonoridade da banda será extendido aos palcos através do recurso às tecnologias: «[Levar este álbum aos palcos] não é complicado, uma vez que tocamos com backing tracks que têm os coros, orquestrações, violinos e até mesmo partes cantadas da participação do Tear, dos Desire, no tema “Once Upon A Lie”.» A tecnologia não era tão acessível em 1995, quando Rute Fevereiro fundava a banda 100% feminina Black Widows. Rute fala-nos sobre a forma como acompanhou a evolução na cena metal nacional: «Esta pergunta leva-me a pensar não tanto no metal em si mas a nível musical, com o uso caseiro de software de gravação e edição de músicas, e o uso da Internet para facilitar a comunicação e trabalho de composição entre músicos de sítios longínquos, assim como a promoção das bandas nas redes sociais. Nos anos 90 e inícios de 2000, as bandas esperavam pelos ensaios para comporem em conjunto ou para partilharem ideias, e divulgavam-se os concertos nas fanzines em papel ou cartazes, para além da rádio. Hoje em dia há uma vantagem enorme em trabalhar mais rapidamente com recurso a esses softwares, [havendo também lugar à] partilha de ideias entre elementos de banda ainda que não ensaiem semanalmente. As coisas avançam muito mais depressa, mesmo ao nível de promoção. Está tudo à distância de um clique. Isto foi sem dúvida uma evolução que afectou o metal em Portugal e os resultados estão à vista na forma célere como somos informados da existência de concertos e dos álbuns que são lançados.»

Para a segunda metade de 2019, os Enchantya prometem agendar novos concertos e iniciar as gravações de um videoclipe. Há igualmente planos para compor o sucessor de “On Light and Wrath”, esperando desta vez evitar o interregno de sete anos que separou o disco de estreia da nova proposta dos lisboetas.