Ouvir esta trinca de composições é como contemplar o cair da neve, a chuva sobre as florestas numa obsidiana noite e... Ellende “Triebe”

Editora: AOP Records
Data de lançamento: 22.01.2021
Género: post-black metal
Nota: 4.5/5

Ouvir esta trinca de composições é como contemplar o cair da neve, a chuva sobre as florestas numa obsidiana noite e entender o vento a roçar as suas asas em árvores tão antigas quanto o pensamento – é compreender as subtilezas, os enigmas, as magnificências e os amargos da vida.

“Triebe” é um trabalho que exibe uma sonoridade elegante, singela e desbravadora, em que o rústico e o sofisticado coexistem como se fossem uma ode em belas palavras e refinadas conjecturas à simplicidade. Nele, Ellende explora a sua personalidade musical rica, repleta de relevos e de texturas e ambiências – tudo com muito esmero e com uma profundidade que é sua assinatura rotineira já exposta em trabalhos anteriores. De forma racional e inspirada, ouvimos um trio de composições que condensam a arte da banda: inconstante, harmoniosa, complexa no seu minimalismo e furiosa, quando assim o humor das criações pede.

Chegando ao porto incerto de 2021 com uma miúda degustação que tem por objectivo atiçar os paladares auditivos acerca deste pergaminho musical, “Triebe” é um EP, um longo EP, dividido em três secções, sendo que duas faixas – “Weltenacht” e “Zwischen Sommer Und Herbst”– foram extraídas do EP “Weltennacht” (2014). Aqui, ambas foram atualizadas, recebendo um melhor polimento, além de ganharem novos adornos, detalhes acentuados e serenos floreios que surgem no seu decorrer, como fugas sonoras hipnóticas, subtis telas atmosféricas e arquitecturas melódicas que seguem sempre num crescendo até ao ápice ou até à imersão plena.

No sector das novidades temos a segunda parte de “Triebe”, cujo primeiro capítulo se encontra no supracitado registo musical de 2014. Baptizada obviamente de “Triebe II”, é nela que somos contemplados com todas as referências, camadas e entalhes que Lukas Gosch cria e sabiamente injecta nas suas composições. Serenas melodias inaugurais que se juntam a uma linha de bateria com acento jazzístico vão guiando a música por linhas bucólicas e atmosféricas até ao orgasmo explosivo comum ao post-black metal – aos cinco minutos, a tensão cede espaço ao paisagismo musical, com as guitarras a abrirem horizontes às teclas e a permitirem que estas actuem, criando-se afrescos e completando o sentimento da composição, uma espécie de melancolia contemplativa. As duas composições anteriormente citadas possuem os mesmo traços, embora estejam mais vivas, intensas e, como também já referido, com os seus detalhes e belezas devidamente grifados.

“Triebe” é mais uma pequena peça no mosaico musical que Ellende desenvolve desde 2011 – a razão criativa atingiu uma vez mais o seu pico de maturidade, e os contrastes de luz e escuridão ainda fazem parte da mesma, interagindo e completando-se. O post-black e os seus condimentos oriundos do post-punk seguem em comunhão com as manifestações atmosféricas tão íntimas à sonoridade da banda. O sentimento de raiva, a desolação e o não-conformismo ainda são os protagonistas desta arte, que tem em Lukas Gosch o seu genitor e artesão.

Ouvir esta trinca de composições é como contemplar o cair da neve, a chuva sobre as florestas numa obsidiana noite e entender o vento a roçar as suas asas em árvores tão antigas quanto o pensamento – é compreender as subtilezas, os enigmas, as magnificências e os amargos da vida. Como a vida, a música também está repleta de relevos, de prazeres e horrores. Que seja a música o antídoto, o abrigo ou que ao menos torne estes tempos mais breves e suportáveis.