Quando Eddie Van Halen morreu a 6 de Outubro de 2020, o mundo perdeu uma lenda. Celebramos a vida do homem... Eddie Van Halen: a vida e os tempos de um deus da guitarra

Quando Eddie Van Halen morreu a 6 de Outubro de 2020, o mundo perdeu uma lenda. Celebramos a vida do homem que mudou o rock’n’roll para sempre…

Van Halen em 1980

Os padrinhos do heavy metal estavam a começar a sentir a idade. 1978 deveria ser um ano de celebração para os Black Sabbath – o 10º aniversário –, mas, na realidade, o grupo estava a desintegrar-se. «A diversão de estar numa banda de rock estava a diminuir para mim», admitiu Ozzy Osbourne mais tarde. «Acho que o coração das pessoas já não estava naquilo.»

Ozzy tinha feito uma pausa em Sabbath no Outono de 77, oficialmente para passar um tempo com o seu pai Jack, que estava a morrer de cancro. Quando a NME entrevistou o vocalista em Novembro de 1977, Ozzy parecia não estar com vontade de voltar à unidade – «só quero uma vida simples durante um tempo», insistiu – e quando os Sabbath tocaram “War Pigs” e “Junior’s Eyes” no “Look! Hear!” da BBC em Janeiro de 1978, o antigo vocalista dos Fleetwood Mac, Dave Walker, ficou encarregado de fazer lip-syncing das vozes de Ozzy.

Portanto, foi uma surpresa quando Ozzy voltou à banda antes da partida de Birmingham para Toronto, para gravarem o oitavo álbum de estúdio “Never Say Die!”. Embora velhas tensões surgissem ocasionalmente durante as sessões de estúdio – «estávamos todos f*didos com drogas e álcool», recordou Ozzy –, os quatro músicos estavam entusiasmados com a perspectiva de se regressar ao Reino Unido para a digressão do 10º aniversário em Maio.

Os Sabbath tinham escolhido AC/DC como banda de suporte na sua última série de concertos europeus, e lutaram para se igualarem aos australianos ao vivo em termos de energia. Portanto, Ozzy instruiu a agência dos Sabbath para se encontrar «uma banda de bar de LA» para abrir o concerto todas as noites nas datas de regresso a casa. Por sorte, a editora americana Warners tinha exactamente essa banda nos seus contactos.

O nome Van Halen não significava nada para os membros de Sabbath. Portanto, por curiosidade, antes do tempo em palco agendado para a noite de abertura da digressão no Sheffield City Hall, a 16 de Maio, Ozzy e os companheiros (Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward) saíram do camarim para verem o final do concerto da banda californiana. Chegaram ao lado do palco quando o guitarrista do grupo, Eddie Van Halen, de 23 anos, atirou a segunda faixa do álbum de estreia de título homónimo recentemente lançado.

“Eruption” não estava originalmente na lista de músicas que Van Halen tinha escrito para aparecer na sua estreia. O produtor Ted Templeman saiu da cabine de controlo do Sunset Sound Recorders para tomar um café quando ouviu pela primeira vez Eddie Van Halen a tocar o instrumental de 102 segundos entre os takes. «O que é isso?», perguntou Ted. «Ah, nada», foi a resposta. «É apenas algo para aquecer.» «Vamos ouvir outra vez», disse o produtor. «Temos de gravar isso. Imediatamente.»

Eddie Van Halen tinha vindo a aprimorar a sua apresentação solo em palco em clubes de Hollywood durante a maior parte de uns três anos. Frequentemente, tocava o instrumental de inspiração clássica de costas para o público, para que ninguém pudesse ver exactamente o que ele estava a fazer. A técnica secreta que o guitarrista estava a proteger envolvia o uso de ambas as mãos no braço da guitarra para tocar notas à velocidade da luz. Van Halen diria mais tarde que teve a ideia enquanto via Jimmy Page, dos Led Zeppelin, a tocar o solo de “Heartbreaker” com uma mão durante um concerto no The Forum, em Inglewood, Califórnia, em Agosto de 1971. «É como ter um sexto dedo na mão esquerda», disse à Guitar World. «Em vez de picking, atacas uma nota na escala. Ninguém estava a fazer mais do que apenas um alongamento e uma nota rápida. Então, comecei a brincar…»

Van Halen nunca alegou ter inventado a técnica de tapping, mas vê-lo executar “Eruption” de perto, antes de atacar com uma atualização arrogante de “You Really Got Me” dos The Kinks, deixou os membros de Black Sabbath boquiabertos de espanto enquanto marchavam de volta ao camarim.

«Sentámo-nos a pensar: ‘Aquilo foi incrível…’», recordou Ozzy, «e depois terminou, e ficámos chocados demais para falar».

«Eu não sabia muito sobre Van Halen», admite Tony Iommi, «mas quando os ouvi pela primeira vez, foi do tipo: ‘Chiça!’ Eram tão enérgicos, eram excelentes músicos, tinham boas músicas, e nós pensámos: ‘Uau, porra, são realmente bons!’».

Quando a digressão chegou a Londres, Iommi chamou o seu bom amigo Brian May, dos Queen, para se juntar a ele em palco no Hammersmith Odeon, para assistirem à actuação do excepcional californiano.

«Vimos o Eddie Van Halen a fazer as suas cenas, e foi simplesmente glorioso», recordou Brian, «quase glorioso demais para compreender. Ver aquele gajo a brincar com uma guitarra, como se fosse um gatinho, apenas a correr e a ir a lugares jamais sonhados… Não havia nada de tão chocante desde Hendrix».

«O sítio estava lotado para Van Halen», recorda o redactor da Metal Hammer, Malcolm Dome, então jornalista da revista musical semanal Record Mirror. «Toda a gente queria vê-los porque já havia um verdadeiro burburinho à sua volta entre os conhecedores de metal, pessoas que regularmente compravam discos de rock importados. Foram definitivamente melhores do que Sabbath naquela noite – foram tão emocionantes, vibrantes e tão jovens que fizeram os Sabbath parecerem velhos. Soaram ao futuro.»

Desde tenra idade, Eddie Van Halen estava perfeitamente ciente da capacidade que a música tinha para cativar, encantar e deslumbrar. Enquanto criança, Eddie sentava-se extasiado enquanto o pai Jan, um músico profissional que se apresentava com distinção em bandas de jazz e orquestras, praticava clarinete na casa da família em Nijmegen, Holanda. Ocasionalmente, quando a mãe Eugenia, nascida na Indonésia, tinha de trabalhar em turnos nocturnos, Eddie e o irmão mais velho, Alex, eram despachados para os compromissos musicais de Jan – a mãe esperava que a presença deles conseguisse inibir a predileção do pai boémio pela bebida extensiva após os concertos. Na realidade, não deu em nada, apenas reforçou a ideia da dupla sobre a cena musical como uma utopia de espírito livre. Quando Edward tinha cinco anos e Alex tinha seis, Eugenia inscreveu-os em aulas de piano com um pianista russo que morava na zona. «Se vão seguir os passos do vosso pai», avisou a dupla, «é melhor serem respeitáveis».

Em Março de 1962, os Van Halen deixaram o apartamento na Rozemarijnstraat 59 e partiram num transatlântico com destino à América. Cartas de parentes na Califórnia acenderam os sonhos de Eugenia sobre um novo começo para a família. Os novos imigrantes chegaram a Pasadena no final daquele mês e fixaram residência num modesto apartamento de três quartos e uma casa-de-banho que dividiriam com duas outras famílias.

«Quando finalmente chegámos a Pasadena, foi difícil», disse Eddie a uma audiência no Museu Nacional de História Americana, em Washington DC, durante uma palestra em Fevereiro de 2015 realizada como parte da série “What It Means to be American”, do Smithsonian. «Morávamos num quarto, dormíamos numa cama. O meu pai tinha de andar cinco quilómetros para lavar louça [no Hospital Metodista de Arcádia] – ele era contínuo do Templo Maçónico, na Pacific Telephone, a minha mãe era criada doméstica… Costumávamos vasculhar o lixo à procura de metal, depois íamos à sucata e vendíamos o que encontrávamos.»

«Éramos dois párias que não falavam a língua e não sabiam o que estava a acontecer», disse, referindo-se a Alex e a si mesmo. «Então, tornámo-nos os melhores amigos e aprendemos a ficar juntos.»

A música serviria de escape para os irmãos. O sucesso dos The Beatles levou a uma invasão britânica na tabela de sucessos americana em meados dos anos 1960 e tendo ficado encantados com as melodias suaves dos The Dave Clark Five de Londres, os miúdos Van Halen formaram a sua primeira banda, The Broken Combs, com Eddie no piano e Alex no saxofone. Com tempo, Eddie começou a aprender bateria, enquanto Alex começou a tocar guitarra, mas cedo trocariam de instrumentos. «Ele conseguia tocar a “Wipeout” [o êxito instrumental dos Surfaris, de 1963] e eu não», recordou Eddie mais tarde. «Eu disse: ‘Ok, f*da-se. Vou tocar a tua guitarra.’ É esquecer o piano, não me quero sentar – quero estar em pé e ser maluco.»

«O meu irmão saía às 19h para curtir e ter sexo, e quando ele voltava às 3h, eu estava sentado no mesmo sítio, a tocar guitarra. Fiz isso durante anos.»

Em 1971, os irmãos Van Halen e o amigo adolescente Mark Stone formaram um power-trio chamado Genesis. Com Eddie nas vozes e na guitarra, Alex na bateria e Mark no baixo, o trio tocou versões nota por nota de músicas de Black Sabbath, Led Zeppelin e Cream. Ao descobrirem que uma banda de rock bastante conhecida chamada Genesis existia em Inglaterra, o trio de Pasadena tornou-se Mammoth. Em 1974, com certa relutância, recrutaram David Lee Roth, o pretensioso vocalista nascido no Indiana, anteriormente nos rivais locais Red Ball Jet. Os irmãos Van Halen estavam mais do que um pouco cautelosos com o vocalista exuberante, pavoneante e tagarela – «o Ed e eu não suportávamos o filho da p*ta», admitiu Alex sem rodeios –, mas David tinha o seu próprio equipamento, confiança suficiente para alimentar a rede nacional e um devotado séquito entre a população feminina de Pasadena na escola secundária – portanto, um casamento por conveniência foi firmado.

Quando Mark Stone foi substituído por Michael Anthony Sobolewski, nascido em Chicago, que mais tarde abandonaria o seu sobrenome polaco, foi David quem sugeriu que mudassem o nome para Van Halen e que enchessem as actuações com músicas mais acessíveis e menos técnicas para se seduzir o público dos clubes. «É muito impressionante», disse sobre o antigo repertório do grupo, «mas não dá para dançar».

A nova missão de Van Halen, insistiu David, seria fazer com que todos os dias parecessem uma noite de sábado. Vieram os sucessos de Aerosmith, ZZ Top, James Brown, David Bowie, Bad Company, Kiss e Queen. O renovado grupo conquistou rapidamente uma reputação como a banda para diversão mais escaldante da área, atraindo centenas de adolescentes para concertos tumultuosos no quintal… Até que, inevitavelmente, a polícia apareceu para interromper a festa. Enquanto David tinha um raciocínio rápido, boca grande, aparência de menino bonito e uma completa falta de vergonha, era o guitarrista tímido e sempre sorridente ao seu lado quem era a verdadeira estrela do grupo, como os pares rapidamente perceberam.

«O Eddie era bastante especial», recorda Mark Kendall, que mais tarde encontrou fama como guitarrista dos roqueiros de LA, Great White. «Eu olhava para a multidão e conseguia ver o guitarrista de todas as bandas que eu conhecia a vê-lo. O Eddie era o homem, o rei, isso era inquestionável.»

«Estávamos com ciúmes e tentávamos recuperar o atraso», recorda o futuro guitarrista dos Dokken, George Lynch, que então tocava na banda de Los Angeles, The Boyz. «Pensámos: ‘Oh pá… Este gajo vai mudar o mundo.’»

A notícia da crescente popularidade da banda chegou rapidamente à agente Catherine Hutchin, uma londrina vivaz que tratava de artistas locais como Yankee Rose e Sorcery. Sempre disposto a fazer contactos úteis, David Lee Roth convidou Catherine para ver a banda numa festa em casa do seu pai.

«Quando chegámos à casa, que ficava numa zona chique de Pasadena, havia carros estacionados em todos os lugares, e tivemos de estacionar bastante longe e caminhar com os nossos sapatos de plataforma», lembra Hutchin, agora Catherine Harris. «Conseguíamos ouvir a música da rua, à distância, e quando entrámos na festa foi uma loucura – loucura absoluta. A primeira coisa que me atingiu foi o Edward. Ele era inacreditável. Ele estava na brincadeira com os dedos nos trastes, o que ninguém fazia naquela altura, e fiquei absolutamente pasmada. O meu amigo e eu olhámos um para o outro e eu disse: ‘Oh. Meu. Deus. Este miúdo é um virtuoso.’ Eles eram apenas mais uma banda de rock até que o Edward se libertou. O David foi brilhante em palco, mas foi Edward quem realmente nos agarrou. Depois comecei a agendar-lhes concertos em Hollywood.»

Apesar de toda a habilidade de Eddie, foi a florescente reputação de George Lynch como guitarrista que atraiu a dupla dos Kiss, Paul Stanley e Gene Simmons, para ver a banda de Pasadena no clube Starwood de West Hollywood numa noite de 1976, quando o duo foi avisado de que a banda de Lynch, os The Boyz, era a cena rock mais escaldante de Hollywood. Por essa altura, os originais dos Van Halen – apresentando um som que rotularam como big rock – eclipsavam as covers dos seus concertos de alta energia, e, quando o quarteto subiu ao palco do Starwood naquela noite após a actuação dos The Boyz, Stanley e Simmons reconheceram um talento com potencial.

«Eu tinha ido ao Starwood na noite anterior com a Lita Ford e vi Van Halen e The Boyz», recorda Stanley. «Lembro-me de The Boyz fazerem uma cover da “Detroit Rock City” e pensei: ‘Pá, que grande música.’ E depois percebi que era minha! Mas Van Halen era simplesmente uma potência – o Eddie era algo de completamente diferente, e o Dave estava a caminho de se tornar o vocalista definitivo. Depois disso, o Gene apareceu e ofereceu-se para levá-los para estúdio, para fazerem uma maquete.»

Para surpresa de Simmons, no entanto, ao ouvir essa maquete, o agente dos Kiss, Bill Aucoin, decidiu passar Van Halen… Uma decisão que Paul Stanley confessou posteriormente ter sido mais para conter as ambições de Simmons do que fazer uma desfeita à banda californiana.

Na noite de 2 de Fevereiro de 1977, Ted Templeman assistiu à actuação de Van Halen perante uma multidão rendida no Starwood. Anteriormente membro da banda sunshine-pop Harpers Bizarre, Ted era agora um grande produtor (tendo trabalhado com Van Morrison, Little Feat e a banda californiana de hard rock Montrose) e executivo de A&R da Warner Bros. Regressou ao clube na noite seguinte com o presidente da empresa, Mo Ostin, a reboque, e insistiu que a Warners contratasse a banda na hora.

«Quando os Van Halen subiram ao palco, foi como se tivessem sido disparados de um canhão… Actuaram como se estivessem a tocar numa arena e não num pequeno clube de Hollywood», recordou Ted na sua autobiografia “A Platinum Producer’s Life In Music”. «Fora de portas, dei um encontrão com o Ed Van Halen. É estranho dizer isto, mas encontrá-lo foi quase como cair de pernas para o ar com uma miúda ao primeiro encontro. Fiquei tão deslumbrado. Nunca fiquei tão impressionado com um músico como fiquei com ele naquela noite. Quando penso naquela noite, não foi apenas uma coisa sobre ele que me agarrou. Era toda a sua personalidade. Este tipo, quando tocava, parecia completamente natural e nada afectado – ele era tão indiferente à sua grandeza. Aqui estava ele, a tocar a merda mais incrível, a agir como se não fosse mais desafiador do que estalar os dedos.»

Imediatamente, Ted marcou o quarteto para os estúdios Sunset Sound de Hollywood. Rolling Stones, Led Zeppelin e The Doors usaram a instalação no passado, e as sessões de maquete dos Van Halen provaram ser uma brisa, com o quarteto a gravar ao vivo, passando por 25 músicas numa questão de horas. Embora os irmãos perfeccionistas Van Halen tivessem algumas dúvidas sobre os resultados da sessão arranjada à pressa – «pusemos [a cassete] no rádio da minha carrinha e esperávamos ouvir Led Zeppelin», confessou Eddie mais tarde, «mas ficámos um bocado chocados com o que ouvimos, simplesmente não soava como queríamos» –, não estavam dispostos a questionar a autoridade de Ted. No final de Agosto, o grupo voltou ao estúdio com Ted para gravarem o primeiro álbum.

Simplificando, esse álbum, intitulado de forma pouco discutível “Van Halen”, é um dos maiores álbuns de hard rock da História. Da vibrante linha de baixo de Michael Anthony que introduz “Runnin’ with the Devil” passando pela deslumbrante “Eruption” e pela cover vigorosa de “You Really Got Me” (a escolha de Ted Templeman para garantir que os Van Halen, ao contrário dos seus antigos pupilos Montrose, garantiriam um single de sucesso) à efervescente “Ain’t Talkin’ ’bout Love” – uma música que Eddie compôs como piada para gozar com o punk rock –, à irresistível e cheia de harmonia “I’m the One” e “Feel Your Love Tonight”, à atrevida “Ice Cream Man” do bluesman John Brim e à roqueira apropriadamente intitulada “On Fire”, o álbum é a mais pura destilação de música rock californiana hedonista, livre e ensolarada já gravada em fita. Há carros velozes, noites intermináveis e imoralidade, cheerleaders, cheeseburgers e cocaína, Daisy Dukes e tops de biquíni, surf e rebelião adolescente, com todos os traços de dúvida e controlo erradicados.

Assim como The Beach Boys forneceram a banda-sonora para a adolescência americana na década de 1960 e os Eagles dominaram os anos 70 com a sua impressionante estreia, os Van Halen declararam corajosamente que os anos 80 seriam o seu recreio. E se David Lee Roth vendeu a uma nova geração um novo sonho americano, foi o virtuosismo de fazer cair o queixo de Eddie Van Halen que fez o álbum realmente ressoar com a sua música doce, escandalosamente lúdica, aparentemente sem esforço e totalmente electrizante a iluminar o céu. A partir do momento em que a agulha caiu sobre o álbum de Van Halen em aparelhagens de som por todo o mundo, cada guitarrista de quarto tinha um novo padrão de ouro com o qual ambicionar.

«O Edward tem um sentido de aventura», declarou David Lee Roth, sintetizando perfeitamente a mentalidade do guitarrista. «Ele mergulha de cabeça. Depois é que vemos se há água na piscina.»

«Lembro-me do lugar específico onde ouvi Eddie Van Halen pela primeira vez», disse o guitarrista dos Guns N’ Roses, Slash, em 2010. «Eu estava numa escola primária que costumávamos invadir depois das aulas, e costumávamos andar de skate e de bicicleta por lá. O [futuro baterista dos GN’R] Steve Adler, que tinha acabado de se tornar o meu melhor amigo naquela altura, disse: ‘Ei, ouve isto…’ Ele tinha um daqueles pequenos aparelhos de cassetes Panasonic e tocou a “Eruption” e a “You Really Got Me”, e foi do tipo… Uau! Além da pirotecnia da guitarra, a onda geral de Van Halen era muito enérgica e com um som muito novo, muito fresco. Tinha uma tonelada de atitude, era apenas in-your-face. Assim que o disco foi lançado… Era 1978, eu tinha 13 anos e ainda não tinha pegado na guitarra… Aquilo marcou o fim do rock como o conhecíamos. Tudo o que aconteceu até àquele momento mudou completamente.»

«Atentem às minhas palavras», escreveu Charles M. Young da revista Rolling Stone na sua crítica ao álbum, «em três anos, os Van Halen vão ser grandes, auto-indulgentes e nojentos, e seguirão os Deep Purple e os Led Zeppelin no falhanço. Entretanto, provavelmente serão uma grande cena… Edward Van Halen dominou a arte da guitarra solo/ritmo na tradição de Jimmy Page e Joe Walsh – vários riffs neste álbum bateram qualquer coisa que os Aerosmith tenham inventado nos últimos anos».

Quando o álbum foi lançado, o quarteto começou a correr por aí, misturando datas como cabeças-de-cartaz no Japão e na Europa continental com concertos de suporte e aparições em festivais. Quando se juntaram à digressão de “Never Say Die!” na América, os promotores deviam realmente ter contratado um investigador criminal para desenhar os contornos a giz à volta de Ozzy, Tony, Geezer e Bill todas as noites – os Sabbath estavam a ser absolutamente assassinados.

De volta a Los Angeles na primeira semana de Dezembro de 1978, com a sua primeira digressão mundial concluída, a banda recebeu um convite para uma festa da sua editora. A Warners queria presentear o quarteto com discos de platina, já que o álbum de estreia tinha acumulado vendas de dois milhões de cópias apenas nos EUA. Realizada na Body Shop em Sunset Boulevard, o único clube de strip-tease totalmente a nu de Los Angeles, a festa foi um evento adequadamente estridente. No dia seguinte, entretanto, os Van Halen estavam de volta ao Sunset Sound com Ted Templeman, para trabalharem no segundo álbum.

A cada lançamento – “Van Halen II” (1979), “Women and Children First” (1980), “Fair Warning” (1981), “Diver Down” (1982) –, os Van Halen cresceram em confiança e estatura, assumindo o manto de America’s Greatest Guitar Band. Em 1983, o quarteto entrou para o Guinness Book of Records depois de garantir o maior honorário de todos os tempos por uma actuação, quando o co-fundador da Apple Computers, Steve Wozniak, lhes pagou 1,5 milhões de dólares para encabeçarem o Heavy Metal Day do festival americano de 1983 acima de Ozzy, Judas Priest, Scorpions e Mötley Crüe.

«Foi o dia em que a new wave morreu», disse o vocalista dos Crüe, Vince Neil, «e o rock’n’roll assumiu o controlo». Embora Eddie tenha rejeitado de alguma forma a ideia dos Van Halen serem rotulados como uma banda de heavy metal – «para mim, heavy metal é apenas rock’n’roll, é uma sensação lançada em alto volume» –, a sua influência sobre as três gerações seguintes de músicos metal é indiscutível. Através da sua técnica livre, desinibida e desrespeitosa de limites, outros músicos ouviram o som da libertação – e a sua influência seria ouvida na execução de todos, de Dimebag Darrell a Adam D. (Killswitch Engage).

«Ele foi para a nossa geração o que Hendrix foi para a sua», comentou o super-fã Dimebag. «Ele toca a “Eruption” e tu pensas: ‘Merda, nunca ouvi uma guitarra soar assim na minha vida!’»

«Na hierarquia da guitarra em que Jimi Hendrix é Deus, Eddie era Jesus Cristo, a Segunda Vinda», diz Zakk Wylde, que se juntou a Eddie em palco no funeral de Dimebag em 2004 para brindarem ao antigo guitarrista dos Pantera. «O Ed explodiu em menos de 10 anos após a morte do Jimi, mas soava a uma nova era. Era como se viesse de outro planeta.»

Com o perfil dos Van Halen a crescer incomensuravelmente devido à cobertura da televisão nacional pela sua aparição no festival dos EUA, o álbum de 1984 do quarteto gerou o primeiro single nº 1 nos EUA, “Jump”, e esteve cinco semanas no segundo lugar na Billboard – viria a tornar-se o segundo álbum dos Van Halen a ter 10 milhões de vendas. Ironicamente, o álbum que os manteve fora do primeiro lugar foi “Thriller”, de Michael Jackson, que apresentava as habilidades de guitarra emprestadas por um certo guitarrista holandês no single “Beat It”.

Mesmo as festas mais agitadas devem diminuir um dia, e as primeiras quebras no mundo VH surgiram com a saída de David Lee Roth em 1985. Encorajado pelo sucesso do seu EP de estreia a solo, “Crazy from the Heat”, David classificou o guitarrista como um «ditador» quando saiu da banda. «Ninguém quer saber dos Van Halen sem o David Lee Roth», desdenhou.

Rotulando David como «palhaço», Eddie Van Halen respondeu nos termos mais cortantes. «O problema com Roth é que ele esqueceu-se de quem escreveu as músicas», observou. «Fui eu. E são o coração da nossa música. Nunca escutei as suas palavras. Eu não queria saber sobre o que ele estava a cantar.»

Os Van Halen recrutaram prontamente o ex-vocalista dos Montrose, Sammy Hagar, para frontear a banda, e o novo quarteto alcançou o primeiro álbum nº 1 na América com “5150” (1986). Seguiram-se três álbuns consecutivos no topo das tabelas da Billboard, cada um a ser um pouco mais sofisticado e maduro do que o predecessor, embora a execução de Eddie permanecesse alegremente desenfreada. Sammy saiu em circunstâncias amargas após o álbum “Balance” de 1995 – «o “Balance” foi como arrancar dentes», contou, «as coisas tinham ficado muito disfuncionais por aquela altura» –, mas Eddie seguiu em frente, recrutando o vocalista dos Extreme, Gary Cherone, para o álbum de título confuso “III”. Embora o disco tenha recebido as piores críticas da carreira da banda – «o problema fundamental com este álbum são as músicas», declarou uma revista de rock do Reino Unido, «são uma merda» –, o guitarrista nunca perdeu a sua paixão pela música… ou o seu estilo de vida. No Japão, para promover o álbum “Sonic Brew” dos Black Label Society, Zakk Wylde encontrou Eddie em Tóquio, onde os Van Halen estavam agendados para tocarem três noites no histórico Budokan, e acabou a curtir com o seu herói até altas horas.

«Os Van Halen abriram com a “Unchained”, e o Ed estava simplesmente a dar tudo», recorda Zakk. «Depois veio ao meu quarto de hotel e estava a tocar a minha Les Paul, com o alvo, e a guitarra estava pendurada nos joelhos, como o Jimmy Page em 1975. Ele tocava todos os licks de Led Zeppelin que sabia, desde quando os Van Halen tocavam covers. Foi uma loucura, eu tinha Jesus Cristo no meu quarto a tocar licks do Jimmy Page na minha guitarra. Que noite.»

Aquela sensação infantil de maravilha intrínseca na forma de Eddie tocar desde a primeira vez que viu Jimmy Page em palco nunca pareceu desaparecer. «Tudo o que estamos a tentar é fazer regressar um pouco de entusiasmo ao rock’n’roll», disse, enquanto a estreia da sua banda em 1978 era distribuída pelas lojas de discos de todo o mundo. «Parece que muitas pessoas têm idade suficiente para serem nossos pais e soam assim, ou agem como tal. Parece que se esqueceram do que se trata o rock’n’roll.»

A morte de Eddie Van Halen a 6 de Outubro de 2020, após uma longa batalha contra o cancro, atingiu fortemente a comunidade rock, e homenagens chegaram de amigos e fãs. No Instagram, Slash partilhou uma única imagem a preto e branco de Eddie Van Halen com a sua guitarra Frankenstrat feita por ele mesmo e escreveu «RIP #EddieVanHalen». Adam Jones, dos Tool, partilhou três emojis de coração partido. Robb Flynn, dos Machine Head, apelidou Eddie de «the G.O.A.T. [Greatest Of All Time]», e acrescentou: «A minha mente está seriamente rebentada. Chorei. Ele foi um num bilião.»

Tendo Tony Iommi lutado contra o cancro nos últimos anos, a sua homenagem ao seu velho amigo carregava um nível adicional de pungência. «Estou arrasado ao saber a notícia do falecimento do meu querido amigo Eddie Van Halen», escreveu. «Ele travou uma longa e difícil batalha contra o cancro até ao fim. O Eddie era um tipo de pessoa muito especial, um grande amigo. Descansa em paz, meu querido amigo, até nos encontrarmos novamente.»

Numa das suas últimas grandes entrevistas, com a Music Radar, Van Halen foi questionado se tinha algum conselho para aspirantes a guitarristas. A sua resposta foi maravilhosamente simples. «A questão é que tens de amar o que estás a fazer», respondeu. «Não há regras. Tens o c*ralho de 12 notas… Faz o que quiseres com elas.»

«O Eddie recordou-nos que música é liberdade», diz Lzzy Hale dos Halestorm. «Ele inspirou-nos a sermos nós mesmos assumidamente quando se trata de técnica ou de como vemos a guitarra. As estrelas do rock não desaparecem, a sua magia é passada e vive para sempre através de todos nós. Acredito que não apenas esta geração, mas muitas gerações futuras serão influenciadas de alguma forma pelo legado de Eddie.»

Consultar artigo original em inglês.

Lê também: Quando Eddie Van Halen sacou o solo de “Beat It”.