Seja gutural, scream, screamo, growl, death growl, berros, grunhidos, chamar o Gregório com emoção, globalmente ainda não nos decidimos por uma terminologia específica para... É só berros e não se percebe nada!

Seja gutural, scream, screamo, growl, death growl, berros, grunhidos, chamar o Gregório com emoção, globalmente ainda não nos decidimos por uma terminologia específica para aquilo que eu e muitos outros vocalistas de metal extremo fazem, sendo que os termos usados tornam-se progressivamente menos lisonjeiros à medida que nos afastamos da subcultura metal. Scream é o termo de eleição de Melissa Cross, a maior guru deste estilo vocal e a primeira a sistematizar e optimizar o processo com base científica, salvadora de milhares de aparelhos vocais. No entanto, não concordo de todo com este termo, tendo em conta que na maioria dos estilos, quer o ar seja inalado ou exalado, não estamos efectivamente a gritar. Fisiologicamente, o que se passa no aparelho vocal de um vocalista de death metal durante um concerto é mais similar ao que se passa no aparelho vocal de um cantor de música folk mongol ou nórdica. É throat singing, cantar com a garganta, vulgo, canto gutural. Este último é o meu termo de eleição, não só por questões lógicas, mas também porque dá origem a toda uma panóplia de piadas de baixo nível que agradam às pessoas com sentido de humor entre os cinco e sete anos de idade, tipo eu, não só, mas inclusive.

Já era letrista vários anos antes de ser vocalista. Escrever letras está longe de ser um complemento à música que faço, sendo antes a pedra basilar que expõe claramente todas as emoções que quero transmitir. Infelizmente, tomei a péssima opção de carreira de escolher um estilo de vocal delivery em que, em geral, não se percebe ponta daquilo que estou a dizer, quer num palco, quer fora dele. No entanto, o gutural tem vantagens estéticas únicas e indissociáveis do estilo que fazem tudo valer a pena. Para mim, é a forma de expressão vocal superior no que toca a expressar raiva. Sendo que a música, enquanto forma de arte, tem como objectivo principal a expressão artística de sentimentos, é precisamente nesse sentido que fazemos o conhecido sacrifício a nível de percepção lírica, permitindo ao artista chegar a um estado de expressão emocional que se encontra além das limitações dos demais estilos, esteticamente falando. Ironicamente, e apesar de encher bem as medidas dos fãs do género, a melhor qualidade do gutural acaba por ser o seu principal defeito à escala comercial, sendo uma enorme barreira para a aceitação do género pelas massas – outro sacrifício necessário, ainda que menos custoso.

A dificuldade de percepção acaba por estar dependente de três grandes variáveis, sendo elas o/a vocalista, os fãs e o produtor. Há vocalistas cuja habilidade vocal, conhecimento linguístico (por exemplo, domínio da língua em que escrevem) e visão criativa lhes permitem ter uma performance mais articulada, sendo mais fáceis de entender. Nesse sentido, é inclusive perfeitamente possível percepcionar a diferença entre um Chris Barnes e um Randy Blythe, sendo que o segundo tem um estilo muito mais perceptível. A minha experiência pessoal também me ensinou que certos artistas e os seus respectivos maneirismos ficam mais fáceis de entender com o tempo, sendo que já não preciso de ler as letras de bandas como Amon Amarth ou Moonspell para entender os respectivos frontmen numa primeira audição. Ainda que raramente destacado quando se fala nestes assuntos, o papel do produtor de um álbum também tem o seu quê de influente, ainda que menos em comparação às restantes variáveis. O mais óbvio é talvez a função de guia no que toca a articulação. Em ambiente de estúdio, é incrivelmente útil ter um produtor que realce linhas vocais menos perceptíveis por falta de articulação que passam despercebidas ao vocalista, deixando ao artista a escolha entre manter a entrega vocal e sacrificar a percepção, tentar articular melhor sacrificando a sua visão criativa a nível sonoro, ou tentando chegar a um meio termo. E um bom vocalista toma o seu tempo para ponderar sobre estes assuntos antes de fechar qualquer barra.

Outros factores envolvem meter o vocalista à vontade, com opções como usar suporte de microfone ou não, garantir que o artista se consegue ouvir bem, ter bom ouvido para apontar erros a nível de tempos e métrica quando necessário, e fazer os possíveis para não afundar as tracks de voz na mistura ou cortar-lhes demasiadas dinâmicas com compressão, mediante as opções estéticas da banda. Na fase de captação, a qualidade do material também é imperativa, tal como para qualquer instrumento musical. Ainda que a habilidade do vocalista seja de longe o factor mais influente em cenário de estúdio, ao juntar todos estes factores garante-se não só a maior perceptibilidade possível da entrega vocal, mas também permite retirar o melhor da performance.

Considero que a invenção do gutural foi uma das invenções mais relevantes no que toca a manter o nosso estilo musical algo único e honesto, sendo que não há grande interesse por parte do monstro da indústria musical em criar bandas pré-fabricadas cujo departamento vocal seja principalmente neste registo. E por um lado (ou muitos), ainda bem! Podemos nunca passar em horário nobre nas rádios e nunca ter tido grande destaque na MTV para além do Headbanger’s Ball, mas felizmente, e sem desprimor para quem trabalha na rádio ou na televisão, esses meios já não são os juízes e carrascos do que é popular – muito menos a MTV que, segundo me consta, já perdeu o M há uns bons anos. A grande Era Digital abriu-nos a porta que nos permite chegar ao mundo inteiro sem sacrificar a nossa visão artística, apesar de ter o seu preço – vulgo, a dificuldade de sobressair entre o mar de informação, sendo que já não estamos tão limitados por caprichos externos.

Muito por causa do canto gutural, o metal extremo continua a não ser muito convidativo nem a conseguir agradar às massas, e provavelmente nunca o fará. Não obstante, mantém-se uma pérola musical com enorme potencial de evolução, um bastião da liberdade criativa e um factor emblemático do género musical que todos amamos – quem duvidar, que pergunte a qualquer pessoa fora do meio como canta um vocalista de metal e analisem se a resposta está mais próxima de Black Sabbath ou de Cannibal Corpse. Seja como for, é um prazer para mim poder contribuir para esta forma de arte em constante ascensão por intermédio da minha posição como frontman de Moonshade, e vivo extremamente curioso para saber o que o futuro trará.