Oito bandas, oito passos que te levarão aos profundos poços, por vezes sem fundo, da depressão, do desespero, da inutilidade, mas também da raiva,... DSBM: 8 passos para a depressão

Oito bandas, oito passos que te levarão aos profundos poços, por vezes sem fundo, da depressão, do desespero, da inutilidade, mas também da raiva, da vontade de destruir, da misantropia. Entrar é fácil, sair é impossível. Eis o mundo macabro do depressive suicidal black metal.

-/-

Shining
«Sou bipolar e esquizofrénico e, infelizmente para mim, tenho que viver constantemente sob um stress enorme devido ao meu trabalho intenso», contava Niklas Kvarforth à extinta Ultraje Magazine em 2017. Fundador e mentor dos suecos Shining, Niklas é tido como pioneiro do black metal depressivo e suicida, algo sobre o qual também se pronunciou em 2017: «Primeiramente, é óbvio que desprezo o que a maioria das bandas fazem e nenhuma da sua música proclamada depressiva me diz algo, o que leva a arrepender-me ter cunhado o termo “suicide black metal” em 1996. Por outro lado, ao longo dos anos tenho visto pessoal completamente normal e estável a tocar em temas de loucura e comportamentos suicidas, e no fim acabaram, eles próprios, suicidas. Enoja-me ouvir bandas destas e faz-me querer perder contacto com o resto do mundo para evitar ser insultado por tamanha merda quase-intelectual e chorosa.»
Conhecido pelo seu lendário comportamento obsceno e violento, Niklas é uma força autodestrutiva tanto em palco como fora dele: automutilação, agressões, insultos, vómitos, masturbação – tem havido de tudo. Em Julho de 2006, o sueco havia desaparecido, correndo o rumor de que se teria suicidado. Em Agosto seguinte, os Shining anunciavam um novo vocalista que dava pelo nome de Ghoul, alguém que tinha sido expressamente requisitado por Kvarforth como um dos seus últimos desejos. A 3 de Fevereiro de 2007 realizava-se um concerto de Shining na cidade sueca de Halmstad e o público acabaria por descobrir que Ghoul se tratava verdadeiramente de Niklas, incarnando uma personagem decrépita que parecia ter retornado do mundo dos mortos. Escusado será dizer que tal espectáculo – que contou com a participação de Atilla Csihar (Mayhem), Maniac (ex-Mayhem, Skitliv) e Nattefrost (Carpathian Forest) – foi de uma natureza violenta à moda de Shining.
Outro momento memorável, desta vez fora de palco, é o trailer do álbum “Redefining Darkness” (2012), em que o sueco elabora uma performance decadente num quarto de banho. Completamente nu e dentro da banheira, Niklas está coberto de sangue, ou pelo menos de um líquido vermelho, que vai bebendo de uma caveira. Vê-se também “I wish you were here” escrito na parede e uma faca é, por momentos, vislumbrada na sua mão. Há música de fundo, murmúrios imperceptíveis e tosse agonizante, mas é a vertente sexual que surge com maior evidência ao observarmos Niklas a apalpar-se a si próprio, a manusear dildos e a envolver-se em sexo oral com uma genitália feminina artificial.

Inverno Eterno
Da banda mais influente a nível internacional, passamos para o plano interno com Inverno Eterno, grupo que durante os seus nove anos de existência deixou uma marca e um legado incontornável na cena depressiva dentro das nossas fronteiras com os álbuns “Póstumo” (2008) e o de título homónimo (2011). Cessaram actividades em 2014 e, no ano seguinte, o vocalista Nada prestava declarações à Ultraje Magazine sobre esse término: «A honestidade com que as coisas eram feitas requereu demasiada energia empregue e bastante tempo despendido, e tudo isso, pelo menos para mim, estava a ser excessivamente desgastante e esgotante.»
Três anos depois, a banda reunia-se para celebrar os 10 anos de “Póstumo” num concerto em Lisboa com Black Howling e Gaerea, para, segundo o artista, «fechar um capítulo de forma condigna, pois ao longo destes anos sentia sempre algo incompleto, por encerrar e ficar em paz». Nesse ano de 2018, Nada contava ainda como se sentia em relação à necessidade de se desligar: «Não sei qual a palavra que posso aplicar, pois dizer que tenho saudades não será o mais sensato para mim, tendo em conta onde fui dar – foi um período de tempo ao qual a maior surpresa foi continuar neste mundo. Cheguei ao estado em que nem a ideia de morrer me dava esperança de coisa alguma; aí começou, literalmente, a viagem ao inferno e lentamente o ponto de viragem. Algo tinha imperativamente que mudar, então afastei-me e desliguei-me de tudo. Teve de ser, não havia outra opção senão aquela. Escrevo isto de forma um pouco abreviada e, possivelmente, pouco ilustrativa ou explícita, porém, foi o âmago de todo o processo de mudança.»

Lifelover
Fundada em 2005, esta banda sueca cedo angariou muita fama no panorama depressivo, e ao longo de seis anos foram editados quatro álbuns de considerável preponderância no meio, sendo “Konkurs” (2008) muito possivelmente o mais badalado.
Inseridos na cena DSBM, os Lifelover viam-se como narcotic metal, muito à custa dos problemas mentais que muitos destes artistas enfrentam numa dura realidade, e não praticavam black metal de forma estrita, até porque na sua sonoridade eram incorporadas abordagens ao post-punk, dark ambient e rock alternativo.
Com origem nas mentes de Jonas Bergqvist e Kim Carlsson (Hypothermia), a banda terminou abruptamente em Setembro de 2011 quando o primeiro, com 25 anos, foi encontrado morto. Bergqvist, também conhecido por B, morreu durante o sono devido a uma overdose acidental provocada por medicamentos prescritos. Os Lifelover reunir-se-iam uma única vez depois de 2011, quando, em 2015, deram um concerto no Canadá para celebrarem os 10 anos da fundação.

Xasthur
Considerado o mais proeminente projecto DSBM oriundo dos EUA, Xasthur foi criado por Scott Conner aka Malefic em 1995. Inspirado musicalmente por nomes como Burzum, a estética e sonoridade podia ser igual à do restante black metal, mas destacava-se liricamente com temáticas que andavam à volta da escuridão, solidão, desespero e suicídio. A intenção de levar uma vida solitária e pouco dada às luzes da ribalta e da sociedade em geral é mostrada no documentário “One Man Metal” (Noisey, 2012) em que, para além de Scott Conner, participam também Jeff Whitehead (Leviathan) e Russel Menzies (Striborg).
Em 2010, o norte-americano anunciava que “Portal of Sorrow” seria o oitavo e último álbum de Xasthur, dedicando-se depois a um empreendimento acústico e folclórico que deu pelo nome de Nocturnal Poisoning. Todavia, cinco anos depois, Conner alterava o nome do projecto para a nomenclatura seminal Xasthur e escrevia no Facebook: «Trabalhei arduamente na construção de ambos os projectos, iniciando ambos do nada e de lado nenhum, mas estou a recuperar o que é meu. Xasthur não pertence aos hipsters gananciosos que ordenham o negócio do metal; pertence a mim (…)

Hypothermia
Antes de Lifelover, Kim Carlsson já tinha iniciado a sua negra viagem nas artes performativas sonoras com o gelado projecto Hypothermia.
Com mais de 118.000 likes no Facebook – algo que, à partida, se estranha a olho nu, especialmente se tivermos em conta o nicho que é o DSBM e a crueza que é o som de Hypothermia –, Kim foi, em tempos, conhecido pela sua performance autodestrutiva e sanguinária – as cicatrizes nos braços não enganam –, e é a mente de uma sonoridade repetitiva mas envolvente e hipnótica, como se pode verificar em “Skogens hjärta” (2010), uma demo de uma só faixa que se alonga até aos 68 minutos de duração. “Rakbladsvalsen” (2007) deverá ser considerada a obra-prima da fase mais directamente relacionada ao DSBM, tendo em conta que a banda evoluiu para uma sonoridade mais post-rock/metal, ainda que sempre muito crua, honesta, melancólica e soturna.
Numa das poucas aparições nas redes sociais, Kim partilhava em Julho de 2019 que estava a «recuperar de um colapso e a trabalhar numa cidade longe de casa».

Dødsferd
Com fundação em 2001, os gregos Dødsferd vão do black metal mais cru ao mais punk, mas também têm enveredo por ambiências depressivas, como se testemunhou através dos álbuns “Wastes of Life” (2015) e “Diseased Remnants of a Dying World” (2018), duas peças fundamentais do DSBM na década de 10 do Séc. XXI. «Dødsferd é o diário de toda a minha vida. A minha maior inspiração é a estupidez humana e o fracasso da humanidade. Com [esses] dois álbuns quis expressar novamente o meu ódio e nojo através de uma atmosfera mais depressiva», contou o mentor dos helénicos à Ultraje em 2018. Para o compositor é «como um funeral para o fim da humanidade»«este mundo está morto para mim», afirma, pois «não há futuro e podemos ver todos os dias como é que esses parasitas corrompidos evoluíram».
Sobre as relações com o rótulo DSBM, Nikos Spanakis aka Wrath comentou: «Nunca segui qualquer tipo de tendência, nem nunca vendi as minhas crenças para fazer parte das massas e ser apreciado por elas. Estes dois trabalhos são genuínos álbuns de Dødsferd não pertencem a lugar nenhum, nem mesmo à tendência do DSBM. Os meus verdadeiros seguidores sabem disso e respeitam.» «Este mundo deveria sufocar e afogar-se no sofrimento eterno», referiu ainda durante aquela entrevista.

Nocturnal Depression
Nome relevante da ala mais obscura do black metal francês, Nocturnal Depression tem deixado a sua pegada ruinosa por toda a Europa com uma sonoridade envolta em tristeza, mágoa e nostalgia com títulos e letras a fazerem sempre referência a sepulturas, pulsos cortados, solidão, suicídio e despedida.
Fundados em 2004 por Lord Lokhraed e Herr Suizid, somos expostos à particularidade de o primeiro conectar-se fisicamente à decadência da sua música devido à Ectrodactilia, uma deficiência/deformação manifestada na sua mão esquerda, e de o segundo nunca ter actuado ao vivo.
Ao longo da carreira, a banda nunca abandonou a inclinação óbvia ao DSBM mas foi evoluindo no que à produção dos seus discos diz respeito.

Ofdrykkja
Nascidos do caos em 2012, os Ofdrykkja são consumidos por uma dor aparentemente interminável e procuraram ventilar tal condição através da música. Décadas de dependência e doença mental foram esculpidas no primeiro álbum “A Life Worth Losing” (2014). Desesperados por escapar da agonia que era aquele estilo de vida destrutivo, compor música tornou-se uma terapia.
Detido pela polícia em 2014 devido a tumulto público, Drabbad passou três anos na prisão e a base para a maioria das músicas do segundo álbum “Irrfärd” (2017) foi escrita dentro dos muros da cadeia. Atingindo o fundo do poço, a banda estava pronta para encontrar uma saída do deserto escuro em que se perdeu. Após a gravação do álbum, o vocalista Pessimisten (ex-Apati), também conhecido por enfrentar dificuldades mentais e de dependência, deixou a Suécia para se aventurar numa jornada pessoal que o levou a conhecer o mundo durante três anos.
Segundo a editora Art Of Propaganda, Drabbad tem permanecido sóbrio e limpo desde aquela fatídica noite em 2014, Pessimisten conseguiu libertar-se da sua dependência alcoólica e Associated encontrou uma direcção fiável no seu caminho.
Depois de lançamentos associados a um DSBM urbano, narcótico e noctívago, os suecos modificaram o seu som para ambiências mais bucólicas e folclóricas em trabalhos como “Gryningsvisor” (2019).

-/-

Menções honrosas
– Apati
– Austere
– Happy Days
– Karg
– Lyrinx
– Mortifera
– Psychonaut 4
– Totalselfhatred
– Vanhelga
– Woods Of Desolation