Bombásticos e épicos, os sinfónicos Diabulus In Musica chegam neste Fevereiro de 2020 ao quinto álbum “Euphonic Entropy”. A Metal Hammer Portugal contactou a... Zuberoa Aznárez (Diabulus In Musica): «Música é a nossa paixão e uma parte muito importante das nossas vidas»

Bombásticos e épicos, os sinfónicos Diabulus In Musica chegam neste Fevereiro de 2020 ao quinto álbum “Euphonic Entropy”. A Metal Hammer Portugal contactou a vocalista Zuberoa Aznárez que nos falou sobre a experiência de ser mãe, a cultura basca e os filmes em que encaixaria as suas músicas.

«Acho que todos os sentimentos, situações e pensamentos que tivemos desde que somos pais se reflectem neste álbum.»

Zuberoa Aznárez

O press-release refere o nascimento do teu segundo filho com o Gorka (teclados, orquestrações). Que impacto sentes quando se trata de escrever novas músicas e letras com um ser humano novo à tua volta e que tem de ser acarinhado? Quão influenciados são pela existência de filhos em comparação com quando não eram pais?
Sermos pais é uma das coisas mais bonitas de se viver, mas também uma das mais difíceis, sobretudo quando se tem uma vida confortável a fazer o que se quer. O Gorka e eu estamos juntos há 17 anos e não tínhamos filhos até há quatro anos, o que significa que vivemos 13 anos sozinhos, a viver a nossa vida e a fazer música. Com o nosso primeiro filho, não estávamos realmente cientes da mudança. Eu estava grávida enquanto estávamos em digressão, e, quando o nosso filho nasceu, escrevemos e gravámos o nosso álbum anterior [“Dirge for the Archons”, 2016]. Não dormia muito, mas senti-me forte e correu tudo muito bem. Quando o nosso filho tinha um ano, fizemos uma digressão novamente e depois percebemos que não seria fácil. Não queríamos deixá-lo em casa, era muito pequeno, e, estando nós os dois fora, a melhor solução era levá-lo connosco. Pensámos sempre que seria bom que o nosso filho vivesse a nossa vida, mas isso significa levar outra pessoa connosco para cuidar dele enquanto estamos a tocar. Nem toda a gente entende isso, mas achamos que uma criança deve estar onde os seus pais estão, pelo menos quando são pequenos. Com o nosso segundo filho, ficou tudo mais complicado. Deve-se cuidar de ambos, e, quando um está a dormir, provavelmente o outro não está, por isso… foi difícil pensar em escrever um novo álbum. Trabalhamos no nosso estúdio em casa e as crianças estão aqui connosco, portanto não dá para ficarmos sentados a trabalhar durante horas como fazíamos antes de termos filhos. Tivemos que trabalhar separadamente, e, quando precisávamos de o fazer juntos, pedíamos ajuda às nossas famílias. Tenho de admitir que, realmente, sinto falta de me sentar no meu estúdio e concentrar-me no que estou a fazer sem olhar para o relógio a toda a hora. No entanto, como não tínhamos muito tempo, cada vez que entrávamos no estúdio, estávamos muito mais focados no que estávamos a fazer e a composição das músicas tornou-se um processo mágico, em que as coisas finalmente aconteceram sem problemas. Queríamos escrever um bom álbum e ficar 100% felizes com ele, então não pensámos num prazo, apenas trabalhámos com uma ideia clara do que queríamos alcançar. Fizemo-lo e estamos orgulhosos por termos conseguido compor este álbum porreiro. Acho que todos os sentimentos, situações e pensamentos que tivemos desde que somos pais se reflectem neste álbum. Para mim, é o mais pesado, mais variado e mais enérgico, tanto musical como liricamente. O título refere-se a como uma situação caótica se transforma em algo bonito, como as nossas vidas agora. A motivação é a chave, e provavelmente os nossos filhos deram-nos esse ‘extra’.

O álbum tem uma atmosfera majestosa devido às orquestrações, mas temos de mencionar “The Misfit’s Swing” como a faixa mais cativante por causa da sua orientação dançante e mensagem social. Também a podemos classificar como uma música sarcástica e irónica por causa da mistura entre o conceito das letras e a sonoridade. Quão importante é a música para libertar os teus desesperos e desejos interiores?
Sim, é sarcástica e segue a linha de “Ring Around…”, do nosso álbum anterior, mas com uma abordagem jazzy. Como somos adultos e pais, para nós, agora, os preconceitos são como uma atitude infantil. Fazemos música porque é a nossa paixão e uma parte muito importante das nossas vidas. Somos músicos, ouvimos músicas diferentes e pensamos que não devem haver barreiras ao criá-las. Géneros são apenas uma maneira de explicar alguns elementos, mas nunca devemos ser limitados por eles. Nem sempre estamos com o mesmo estado de espírito e nem sempre temos vontade de ouvir o mesmo tipo de música. O mesmo acontece quando escrevemos música – queremos ter essa ‘banda-sonora’ para os diferentes estados de espírito ou situações nas nossas vidas. Arte sempre significou expressão e, para nós, a melhor forma de nos expressarmos e comunicar é fazer música. Divertimo-nos a experimentar novos sons, é algo que sempre fizemos e que continuaremos a fazer enquanto a nossa imaginação nos permitir.

“Otoi” também tem de ser referida, porque é a vossa primeira música em basco. Quão importante é ensinar os costumes / tradições / histórias ancestrais aos jovens bascos? É algo que realmente acontece?
Temos um problema político aqui e, infelizmente, algumas pessoas ainda relacionam política à cultura, quando são duas coisas separadas. Tivemos uma guerra civil seguida de uma ditadura que durou até 1974. É incrível ver como esses dois lados ainda estão vivos 40 anos depois. Um desses lados ainda acredita que a língua e a cultura locais são uma ameaça para a unidade de Espanha (o basco foi mesmo proibido no passado). Também sofremos com o terrorismo do nacionalismo radical basco na década de 1980, o que não ajudou em nada… O resultado na nossa região, Navarra, é que se chega ao norte e o basco ainda está vivo e faz parte da vida quotidiana e do mundo, enquanto no sul as pessoas não sentem a cultura basca como sua. Com tudo isso, a situação do idioma não tem sido fácil na nossa região. Às vezes depende do governo para que a situação melhore ou não, mas há sempre confrontos por causa disso. É muito triste que as pessoas ainda relacionem uma cultura milenar a algo que infelizmente ocorreu há 20 anos… Devemos pensar no tesouro que temos e tentar mantê-lo vivo pelas gerações seguintes, não importando se és de esquerda ou de direita – estamos apenas a falar de cultura! Mas algumas pessoas não entendem… Enfim, acho que agora o idioma está a crescer novamente. Pelo menos é uma língua co-oficial e agora temos a hipótese de pôr os nossos filhos em escolas onde apenas o basco é falado. Isso dá aos nossos filhos a possibilidade de crescerem bilingues, algo que realmente apreciamos, por isso escolhemos essa opção. Além disso, também temos a sorte de ainda preservar laços com as aldeias de onde as nossas famílias vêm, e aí muitas tradições ainda estão vivas. A família do Gorka, por exemplo, ainda fala o basco como idioma principal em casa. É excelente que os nossos filhos tenham tido a oportunidade de conhecer as bisavós e aprender com elas.

Se tivesses de escolher uma música do novo álbum que pudesse ser transformada em filme, qual escolherias e porquê? A nossa escolha pessoal seria “Our Last Gloomy Dance” por causa das estruturas, da sensação de valsa e daquela secção locus horrendus a meio.
Sim! Também escolheria essa! É uma das minhas favoritas e é um tipo de música que está presente em nós (“Encounter at Chrono’s Maze” no álbum “Argia”, “Ring Around…” em “Dirge for the Archons”), mas que não se adequa como um single normal. Portanto, nem toda a gente sabe que também fazemos este tipo de coisas. É muito característico de Diabulus In Musica. “Our Last Gloomy Dance” foi, de alguma forma, inspirada no universo de Tim Burton, por isso é uma música muito teatral que se pode encaixar num filme, mas também numa ópera ou teatro musical moderno. Pensei em “Llorona” ou em “Corpse Bride” quando a escrevi, e por isso soa sombria, romântica, mas divertida ao mesmo tempo. Gosto mesmo de escrever e cantar esse tipo de música, pois dá-me a oportunidade de desempenhar o papel de narradora e vocalista, e também consigo introduzir novas maneiras de cantar e de me expressar. De certeza que vou tentar manter essa linha aberta nos futuros lançamentos de Diabulus In Musica.

Se pudesses incluir uma música de Diabulus In Musica num filme ou peça que já existe, qual seria e porquê?
Qualquer um dos filmes de Tim Burton, porque as suas histórias dão-nos a oportunidade de brincar com elementos sombrios, fantásticos, engraçados, amorosos, misteriosos… Há um pouco de tudo, muitos humores diferentes, como na nossa música. Também nos poderíamos encaixar em qualquer filme épico, pois também gostamos de fazer coisas bombásticas / sinfónicas / épicas, mas acho que, provavelmente, estaríamos mais limitados pelo género em si. Tim Burton é mais ecléctico, como nós enquanto ouvintes e músicos, portanto acho que escolheria um [filme] dele ou algo parecido.

Lê a análise a “Euphonic Entropy” AQUI.