Com “Born To Perish”, os Destruction quase que acertam no jackpot do thrash clássico com assinatura. Destruction “Born To Perish”

Editora: Nuclear Blast
Data de lançamento: 09.08.2019
Género: thrash metal
Nota: 4/5

Seja qual for o estilo musical que uma banda pratique, uma das suas maiores dificuldades é manter-se relevante: conseguir criar música inspirada, ultrapassar a qualidade do seu trabalho anterior e até, por vezes, mas mais pontualmente, lançar um álbum que faça o grupo voltar à luz da ribalta. Esta triarquia nunca é fácil de conseguir, mas, com “Born To Perish”, os Destruction quase que acertam no jackpot do thrash clássico com assinatura.

O ethos manteve-se em “Born To Perish”, com a estrutura clássica da agressividade do thrash alemão e a voz ímpar de Schmier a denunciarem de imediato o nome Destruction. No entanto, a adesão do baterista Randy Black (Annihilator, Primal Fear. W.A.S.P.) e do guitarrista Damir Eskić às fileiras germânicas acrescentam dois factores importantes à sonoridade clássica da banda: mais qualidade técnica e um som mais poderoso, respectivamente. Aliás, isso nota-se imediatamente no tema homónimo inicial, com uma entrada belicista de bateria que parece anunciar que o que aí vem é coisa séria. E é, sem margem para dúvidas. O trabalho de Black acrescenta uma precisão cirúrgica ao som de marca dos Destruction, conferindo-lhe também um bem-vindo zeitgeist, pois refresca a fórmula do thrash clássico sem com isso transfigurar a banda. Poderá parecer polémico dizer que Black é capaz de ser o melhor baterista dos Destruction desde Oliver Kaiser, mas a entrega do homem das baquetas é total e de uma sensibilidade musical que só os profissionais da primeira liga conseguiriam proporcionar. Porém, nem tudo são rosas. Por mais que o baterista faça um trabalho insano a todos os níveis, o som da batida atraiçoa-o quando soa a americano em vez de alemão – quem conhece o trabalho de bateristas como (o acima referido) Kaiser, Ventor (Kreator) ou Chris Witchunter (Sodom) sabe a diferença que o som e estilo de bateria do thrash alemão diferenciam de qualquer outro ponto: é mais agressivo, menos perfeccionista, mais cru e sentido.

Não obstante o fenomenal trabalho do novo baterista, é Eskić quem leva a taça com os seus solos perfeitos, tão adequados ao som tradicional dos Destruction: melódicos, plenos de técnica e vitalidade, daqueles que não nos deixam indiferentes. Contudo, Eskić sofre do mesmo sintoma de Black, pois faltam aos solos um pouco do caos primordial que desmascara qualquer banda alemã de thrash metal. Esse som transversal a todos os instrumentos e voz traduz-se mais por feeling do que por estilo, é algo de endémico, algo que só assiste a quem nasceu no meio dessa cultura. Uma boa forma de perceber isto será atentar aos traços distintos de bateria de discos como “Terrible Certainty” ou aos solos de discos como “Persecution Mania”.  A seguinte “Inspired By Death” faz-nos regressar aos anos dourados do thrash, mas sempre a lembrar a escola americana, coros incluídos. Não é um mau tema, de todo, mas também não é o mais memorável do registo. O mesmo não se passa com a terceira oferta, “Betrayal”, um projéctil de alta velocidade a fazer lembrar “Eternal Devastation”. Na verdade, “Born To Perish” faz recordar amiúde esse clássico em diversas ocasiões, seja através da velocidade descomprometida de temas como o anteriormente referido, seja através da intro acústica de “Butchered For Life”, algo similar à de “Curse The Gods”. Existem no disco temas que parecem fillers, mas que gradualmente se revelam coesos e de qualidade. “Rotten” não é um desses, mas um hit instantâneo, com um refrão a ajudar imenso (“Rotten, rotten to the core…”). Por sua vez, “Tyrants Of The Netherworld” poderia ter sido incluído em “The Antichrist” que não estragava em nada esse disco, com o seu thrash violento, rápido e impiedoso, e que criará muitos circle pits e crowdsurfing por esse mundo fora aquando da digressão de promoção a este disco. Neste tema, Eskić brilha de forma ímpar e então entendemos porque é que os Destruction adicionaram um novo guitarrista às suas fileiras. A final “Ratcatcher” termina de forma quase idêntica a um trabalho maduro e distinto entre os seus pares: com uma toada militarista e sem intenções de dar descanso ao ouvinte, com um viciante riff de guitarra de Michael “Mike” Sifringer, único integrante presente em todos os registos dos Destruction. Uma vez mais, a produção ficou a cargo de VO Pulver, amigo de longa data dos Destruction e que sabe bem o que a banda espera em termos de gravação: som agressivo, mas límpido – coisa que Pulver faz com mestria. Mesmo o baixo de Schmier é perfeitamente audível, com um nível de volume perfeito, e o trabalho de produção da bateria está imaculado, todos os pormenores elevados ao extremo. Junte-se ao sangue novo e á qualidade geral apresentada alguns toques vocais de Schmier a roçarem o death metal sem pudor, mas também sem comprometerem a essência thrash de sempre da banda, e é simples de perceber que “Born To Perish” é facilmente o melhor disco de Destruction desde “The Antichrist”. São trabalhos como este que ainda ajudam a fazer do género um estilo que vale a pena ouvir sem receio de ficarmos aborrecidos.

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