Um álbum de vocais intocáveis, de um tecido maciço e resistente de blues rock, stoner rock, psicadélico tribalista, imagens folclóricas e elementos electrónicos pouco... Dätcha Mandala “Hara”

Editora: Mrs Red Sound
Data de lançamento: 05.06.2020
Género: blues rock / heavy rock
Nota: 4/5

Um álbum de vocais intocáveis, de um tecido maciço e resistente de blues rock, stoner rock, psicadélico tribalista, imagens folclóricas e elementos electrónicos pouco convencionais, de uma variedade flagrante e numa união bem acesa.

Bordeaux é onde podemos encontrar edifícios históricos neoclássicos, o tal do vinho tinto e Dätcha Mandala – que são uma espécie de neoclassicistas por si mesmos se conseguíssemos redireccionar o neoclassicismo para o blues rock. É aqui e com eles que o rock psicadélico e o experimental se encontram para se falar de heavy blues. Juntaram-se em 2009, juntaram a isto um EP homónimo em 2014, com tanta calma quanto a arte o exige aparece “Rokh” em 2017, e até este momento já estava aberto caminho a um corpo de som fuzzy, groovy, turvo e influente que lhes rendeu mais de quinhentos concertos antes do lançamento do primeiro álbum. “Hara”surge então três anos depois e, em comparação a trabalhos anteriores, demonstra o desenvolvimento da memória muscular necessária ao que inicialmente mostraram saber fazer e partiram daí.

“Hara” traz um aumento em quantidade e capacidade, com abordagens mais arrojadas na composição musical e nos detalhes da produção, com um interesse fortalecido para com ângulos de sonoridade mais pesados e nasty. É um concentrado de feeling e impulso intelectual da combinação entre o instinto francês de afinidade por tópicos políticos e reflexões sobre a existência e condição humana, inseridos numa estética amplamente americana e aparentemente despreocupada. Os Dätcha Mandala tratam ainda de estabelecer uma relação baseada em curiosidade para connosco. Ouvimo-los, não apenas porque as musicas estão para o ouvido que procura o espontâneo e o intenso, mas porque vamos querendo saber o que vem daí, qual é a reviravolta que a música vai dar e como é que lá vai chegar – e por isso, “Hara” chega-nos como um exemplo do experimental progressivo bem feito.

“Stick It Out” mostra-nos logo o ganho de peso, embora pela via mais padronizada de apresentação desta carga, em vias de estar colado ao noise rock, de vocais amplos e uma espessura sonora que vai continuar a fazer-se mostrar ao longo deste disco, mais do que se soube mostrar neste single. Directos ao final dos finais, “Pava” termina o álbum em dominância, cheio de sugestões doomish, a acabar num colapso total à Led Zeppelin ou uma força conjunta a favor da psicose. O padrão aqui é uma variedade brutal, com as medidas e as influências certas, sem demasiados filtros de selecção. Isto permite-lhes não serem demasiado nostálgicos, como costuma ser o caso de inúmeras bandas que procuram o renascimento do rock dos anos 1970. Aqui, eles fazem parte de uma geração nova dentro desta linhagem, no decorrer de um desenvolvimento saudável, e que tem algo de novo a dizer.

Para quem a existência de Dätcha Mandala não é terra nova, o blues não lhes é um nenhum estranho, e o blues continua aqui a ser o género musical que tem mais força. Faixas como “Mother God”, “Who You Are”, “Missing Blues” ou “On The Road” são músicas para viagens de carro no deserto. Com o balanço folk de uma harmónica nervosa, são sobretudo estas faixas que se enterram com mais vontade no blues da velha-escola e na atmosfera americana do rock ‘n’ roll, e por isso se utiliza o vernáculo típico de estradas longas, saudades de casa e de uma mulher que ficou para trás. “Who You Are” tem o acabamento em cera de algo tão clássico quanto “La Grange”, assim como “Eht Bup” tem a palpitação suavizada de “Descending”. O arquivo deles é enorme e o som de Dätcha Mandala é uma espécie de filho bastardo de todas estas influências.

Depois de “Missing Blues”, com toda a sua alma do sul, vem “Morning Song”, uma música que faria Paul McCartney amargamente impressionado e Bowie ouvi-la-ia em repeat. Daqui seguimos para “Sick Machine”, uma música com inclusões mais electrónicas e com maior orientação para a modernidade, que gera uma sensação subaquática na voz a misturar-se com uma presença quase fibrosa do baixo. Agora, tal como em “Rokh”, iremos encontrar novamente melodias de ascendência oriental que acrescentam profundidade e brilho às musicas, a crescer em conjunto com distorção e turbulência. O calor condensa-se na percussão tribalista, nos solos que serpenteiam estas faixas com um desenvolvimento repentino mas que se fazem sentir completamente naturais. Ganhamos a percepção de que nada do que chegou a este álbum chegou constrangido e a vontade artística caiu onde teve de cair.

Cederam-nos assim outro álbum de vocais intocáveis, de um tecido maciço e resistente de blues rock, stoner rock, psicadélico tribalista, imagens folclóricas e elementos electrónicos pouco convencionais, de uma variedade flagrante e numa união bem acesa, consequentes de mentes viradas para a ideia da desobediência do ser que faz questão de cultivar as vontades da criatividade. Fazem-no com vários pontos de referência e poucas barreiras, com medidas generosas de catchieness e hooks decisivos. Seguindo todas as directrizes indispensáveis para o sucesso de uma banda pertencente à subcultura do revivalismo dos 1970 americanos, conseguem afunila-las em prol de corpo muito próprio por via de uma atitude de conforto total na procura de sonoridades que lhes interesse explorar – e por isto devemos manter-nos atentos ao que são e poderão vir a ser os Dätcha Mandala.