Bebida, drogas e mensagens ao contrário: o que aconteceu quando os Judas Priest foram a tribunal acusados de colocar mensagens subliminares na sua música. Como um pacto de suicídio quase acabou com Judas Priest

Bebida, drogas e mensagens ao contrário: o que aconteceu quando os Judas Priest foram a tribunal acusados de colocar mensagens subliminares na sua música.

Em 1990, o metal enfrentou uma grande crise. Uma que poderia ter mudado a natureza da música como a conhecemos agora.

Tudo se concentrou num processo judicial com Judas Priest, processados devido às acções de dois fãs cinco anos antes. A 23 de Dezembro de 1985, James Vance, de 20 anos, e Raymond Belknap, de 18 anos, que moravam em Sparks, Nevada, foram até a um recreio de uma igreja local e dispararam neles próprios à queima-roupa com uma espingarda. Belknap morreu instantaneamente, enquanto Vance sobreviveu por mais três anos, morrendo devido às complicações provocadas pelos ferimentos.

Sim, foi trágico. Mas o que é que isso tinha a ver com Priest? Bem, foi dito que os dois jovens estavam a ouvir os discos de Priest no início daquele dia enquanto bebiam muito e fumavam marijuana. E foi essa combinação que acabou por levá-los ao pacto de suicídio.

As duas famílias alegaram posteriormente que os Priest tinham colocado mensagens subliminares em alguns pontos do álbum “Stained Class” de 1978, incitando os fãs – especificamente este par – a matarem-se. Algumas foram inseridas usando-se mensagens ao contrário. Dizia-se que isso era mais óbvio na música “Better By You, Better Than Me”, em que mensagens ocultas diziam aos fãs “let’s be dead” e “do it”. E esses incentivos, alegaram os advogados actuando em nome das famílias, eram directamente responsáveis pelas mortes.

Tanto a banda como a editora CBS foram nomeadas num caso civil, que foi a julgamento no Tribunal Distrital do Condado de Washoe a 16 de Julho de 1990.

«É um facto que se tocarem um discurso ao contrário, parte dele parecerá fazer sentido.»

Glenn Tipton

Eventualmente, o caso contra Priest e a editora foi indeferido. Mas se o veredicto tivesse sido outro, poderia ter aberto as portas a uma série de casos e provavelmente teria levado à proibição de um número considerável de álbuns e músicas de metal. Essa proibição podia até ter chegado ao ponto em que bandas de metal não seriam assinadas e podiam ter enfrentado problemas em tocar ao vivo. As ramificações podiam ter sido tão abrangentes que poderiam levar a música quase ao ponto de extinção.

Na altura, o guitarrista de Priest, Glenn Tipton, disse: «É um facto que se tocarem um discurso ao contrário, parte dele parecerá fazer sentido. Então, pedi permissão para ir a um estúdio e encontrar algumas falhas fonéticas perfeitamente inocentes. Os advogados não queriam fazer isso, mas eu insisti. Comprámos uma cópia do álbum “Stained Class” numa loja de discos local, fomos ao estúdio, gravámos em fita, entregámo-la e tocámo-la ao contrário. Imediatamente, encontrámos “hey ma, my chair’s broken” e “give me a peppermint” e “help me keep a job”.»

«Era como a Disneyworld», comentou Rob Halford no julgamento. «Não tínhamos ideia de como era uma mensagem subliminar – era apenas uma combinação de alguns sons estranhos de guitarra e a maneira como exalava as letras. Tive que cantar “Better By You, Better Than Me” no tribunal, ‘a capella’. Acho que foi quando o juiz pensou: ‘O que estou eu a fazer aqui? Nenhuma banda se esforça tanto para matar os seus fãs.’»

«Devastou-nos ouvir alguém dizer ao juiz e às câmaras que esta é uma banda que cria música que mata jovens.»

Rob Halford

«Devastou-nos ouvir alguém dizer ao juiz e às câmaras que esta é uma banda que cria música que mata jovens. Aceitamos que algumas pessoas não gostam de heavy metal, mas não podemos deixá-las convencer-nos de que é negativo e destrutivo. O heavy metal é um amigo que proporciona às pessoas um grande prazer e diversão, e ajuda-as em momentos difíceis.»

No final, o juiz concordou realmente que havia mensagens subliminares, mas estas eram «apenas discerníveis depois de a sua localização ser identificada e depois de os sons serem isolados e amplificados. Os sons não seriam conscientemente discerníveis para o ouvinte comum sob condições normais de audição».

Agora, todos estes anos depois, toda a área de mensagens subliminares e mensagens ao contrário oferece muito menos preocupação quando se trata de possíveis ameaças legais. Mas, durante um curto período naquele tribunal de Reno, as coisas pareceram muito perturbadoras para o nosso mundo.

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