A história de “Chaos AD”, dos Sepultura – o álbum que transformou quatro metaleiros brasileiros em estrelas globais. Sepultura: Como “Chaos AD” mudou o jogo para o metal dos 1990s

A história de “Chaos AD”, dos Sepultura – o álbum que transformou quatro metaleiros brasileiros em estrelas globais.

Há momentos na história que definem bandas – e há álbuns que definem momentos. Em 1993, os Sepultura estavam prontos, dispostos e certamente capazes a darem o salto do estatuto de culto para o destaque na cena metal.

O caminho até “Chaos AD” foi estável. Os Sepultura rebentaram no Brasil com “Beneath the Remains”, de 1989. O terceiro álbum marcou o ponto em que obtiveram reconhecimento internacional – os Sepultura fizeram a sua estreia ao vivo no Reino Unido naquele ano, no The Marquee em Londres, abrindo para Sodom – e, em 1991, a banda deu mais um passo em frente com “Arise”.

«Foi a primeira vez que gravámos fora do Brasil», recorda o guitarrista Andreas Kisser. «Fomos para a Florida e trabalhámos com o produtor Scott Burns. Foi uma verdadeira experiência de aprendizagem, mas não ficámos nada felizes com a mistura. Então, pegámos no Andy Wallace para remisturá-lo. Demos-lhe uma faixa para ver o que podia fazer e ficámos tão impressionados que ficou com o álbum inteiro.»

Esta foi uma decisão crucial para os Sepultura, porque se “Arise” estabeleceu o rápido crescimento da estatura de culto, então o que teriam de fazer com o próximo álbum seria definitivamente dar o que teria de ser um passo significativo se quisessem destacar-se da nova geração de thrashers. E a escolha do produtor foi um factor-chave.

«Todos sentimos que o Andy era a pessoa certa», diz Max Cavalera, o então guitarrista/vocalista da banda (o resto da formação era composta pela secção rítmica do baixista Paulo Jr. e do baterista Igor Cavalera). «Éramos fãs do que ele tinha feito antes [de Alice In Chains a Run DMC e Slayer], e pareceu ser pessoa certa para este projecto. Todos concordaram com isso – nós mesmos, a editora [Roadrunner] e a gestão [Gloria Bujnowski, que mais tarde se casaria com Max]. Sabíamos o quão importante este álbum seria para os Sepultura, tinha de estar tudo certo.»

Foi Wallace quem decidiu que a banda deveria mudar-se para o celebrado Rockfield Studios, em South Wales, para as sessões de gravação, dando-lhes uma perspectiva internacional mais ampla – algo que Kisser sente que se ajusta à nova atitude da banda.

«Tem de se perceber que passámos dois anos em digressão com o “Arise”. Foi a primeira vez que vimos o mundo e pudemos analisar e compreender como era ser-se brasileiro fora do país. Vimos o Brasil de um ângulo diferente – o que mudou a forma de como nos sentíamos. Mesmo com “Arise”, ainda estávamos a escrever letras que eram muito heavy metal, muito baseadas em fantasia. Mas agora começámos a tornar-nos mais sociais e políticos. Escrevemos sobre coisas que estavam a acontecer no nosso país – a pobreza, a repressão –, porque essas coisas tiveram impacto em nós. Musicalmente, também nos desenvolvemos. Aprendemos o que funcionava e o que não funcionava, a tocar muito ao vivo e a conhecer pessoas como o Ozzy. Tínhamos ido de miúdos para homens! O Andy ajudou muito. Aprendemos muito com ele durante o nosso tempo juntos, não apenas em termos de experiência de estúdio, mas ele também fez-nos pensar mais sobre como escrevemos as músicas.»

Os Sepultura passaram três ou quatro meses a trabalhar nas músicas de “Chaos AD”, com a banda inteira a mudar-se para Phoenix, Arizona. Todos sabiam que este seria o seu álbum mais desafiador e importante até então, e acreditavam que deveriam dar-lhe o máximo de atenção.

«Fomos para Phoenix como um grupo de pessoas», explica Kisser. «Até as nossas famílias foram connosco. Tivemos de mergulhar neste projecto, e ter todos e tudo o que precisávamos ajudou-nos a fazer exactamente isso.»

Do processo de composição surgiu um dos materiais mais fortes da história da banda – contundente, poderoso, desafiador, confrontador. Era Sepultura num novo patamar. E quando foram para Rockfield, não estavam apenas prontos, estavam focados e a vibrar de uma forma que nunca tinha sido óbvia.

Inevitavelmente, era Max Cavalera quem parecia ser o fulcro da banda, o homem com as ideias excêntricas e a visão para as perseguir. Por exemplo, havia a noção de se gravar num castelo!

«Era o Chepstow Castle», diz o vocalista. «Parámos por lá a caminho do Rockfield e pareceu-me que a atmosfera e a acústica do lugar seriam óptimas para gravar a percussão da música “Kaiowas”. Não sabia como o faríamos, mas contei ao Andy Wallace a minha ideia e deixei-o resolver todos os detalhes técnicos – e ele assim o fez! O som da música é incrível. Acho que as pessoas que trabalham no castelo ficaram um pouco surpresas com o facto de uma banda de rock querer gravar lá, mas concordaram.»

“Kaiowas” era apenas uma das surpresas neste álbum, com outra a ser “Biotech Is Godzilla”, que viu os Sepultura a colaborar com Jello Biafra de Dead Kennedys, um ícone do movimento punk.

«Já conhecíamos o Jello», recorda Cavalera. «Ele era um dos nossos heróis, e pensámos que seria incrível trabalhar com alguém como ele. Perguntei-lhe se gostaria de surgir com algumas ideias para músicas. E o que aconteceu foi que o Jello me enviou isso numa cassete. Havia músicas diferentes, e eu escolhi “Biotech Is Godzilla”, porque o título parecia perfeito – assim que ouvi, achei que aquilo era muito à Jello Biafra. Quem mais teria inventado algo assim? Então usámos aquilo. E se ouvirem a versão no “Chaos AD”, conseguem ouvir o Jello a berrar a certa altura.»

«Sacámos aquilo da cassete que ele me mandou. Mas quando o Jello ouviu, contactou-me e disse: ‘Por que é que usaste aquele bocado da cassete? Não era suposto ter ido parar ao disco. Devias ter-me pedido para fazer uma coisa a sério – eu teria pensado numa coisa a sério para ti!’ Mas não acho que importe; o que o Jello Biafra fez na cassete funcionou muito bem. Talvez tenha sido a espontaneidade, mas duvido que ele pudesse ter aparecido com algo melhor para nós.»

Um ponto de destaque neste álbum passa pela escolha surpresa da banda para uma cover: “The Hunt”, de New Model Army. Exactamente por que foi escolhido leva a um desentendimento entre Max Cavalera e Andreas Kisser. «Foi ideia minha», insiste Cavalera. «Já gostava da banda há um tempo e pensei que devíamos tentar algo tão diferente como aquilo. Não houve nenhum motivo específico para escolhermos “The Hunt” – foi uma boa escolha para nós.»

«Na altura, todos gostávamos de New Model Army, não era apenas o Max», devolve Kisser. «Todos – até mesmo a nossa equipa – os ouviam. O Justin Sullivan veio ver-nos tocar em Liverpool, e o baterista deles [Rob Heaton] visitou-nos no Brasil. Também parecia uma música interessante para fazermos, simplesmente porque era diferente. Poderíamos ter feito uma música dos Black Sabbath ou dos Motörhead, mas isso, de certa forma, não seria um desafio.»

Portanto, pagas e vês no que dá – foi Max ou a banda em geral que tomou a decisão? Mas não foi a única cover que a banda fez durante as sessões.

«Também fizemos “Symptom of the Universe” de Black Sabbath», revela Kisser. «Não era para o álbum, mas para o álbum de tributo aos Sabbath, “Nativity In Black” [lançado em 94]. Estranhamente, os próprios Sabbath estavam num estúdio bem próximo de nós [a gravar o álbum “Cross Purposes”, de 1994], e um dia decidimos ir visitá-los – queríamos mesmo conhecê-los. Mas quando lá chegamos, eles não estavam em lado nenhum. Mas saímos com um monte de palhetas de guitarra que eu, hum, roubei do estúdio!»

«Queríamos mesmo ter o Tony Iommi como convidado na nossa versão de “Symptom of the Universe”», diz Kisser. «Tínhamos um plano para ele tocar o solo acústico no final da faixa. Mas ele simplesmente não estava disponível, então, no fim, eu mesmo o fiz – e não acho que tenha feito um mau trabalho!»

Mas “Symptom…” nunca foi planeada para este álbum. E enquanto isso, de volta ao Rockfield, a banda tinha um pequeno dilema…

«Não tínhamos um título para o álbum», relembra Max Cavalera. «Tínhamos deixado isso para o último minuto, e ainda assim nada nos veio à cabeça. Chegou-se a um ponto em que a editora [Roadrunner] estava a preparar o artwork e ainda não tínhamos a menor ideia de como intitular o álbum. Eventualmente, disseram-me que, a menos que eu descobrisse algo praticamente de imediato, eles tomariam a decisão do título por mim – e chamar-lhe-iam “Refuse/Resist” [a primeira música do álbum]! Nunca teria funcionado. Estava errado para título de um álbum. “Caos AD” resumiu tudo.»

«Ao mesmo tempo, havia uma verdadeira confusão com o título “Chaos AD”», acrescenta Kisser. «As pessoas pensaram mesmo que era o título de “Refuse/Resist [o termo ‘Chaos AD’ aparece nas letras]. Não tenho a certeza de onde o Max originalmente tirou o título. Acho que também havia uma banda chamada Chaos AC… Tanto faz, parecia encaixar-se perfeitamente. O mundo estava num estado caótico naquela altura, e agora. Também vimos um grande motim prisional no Brasil e a maneira como a polícia reprimia as pessoas comuns nas ruas. Vimos o Brasil pela primeira vez como um estado policial. Como disse antes, abrimos os olhos ao ver o Brasil de fora, e ficámos alarmados com o caos.»

Quando finalmente se terminou, a banda sabia que tinha alcançado algo importante …

«Tudo sobre o álbum estava certo», diz Max. «As músicas estavam certas, a produção foi excelente e a mistura deu-lhe realmente força. Tínhamos feito o disco de que precisávamos para nos estabelecermos. Todos sabíamos que não podíamos ter feito melhor.»

Mas será que os Sepultura perceberam o quão bem-sucedidos seriam?

«Esperas que sim, claro, mas isso é tudo o que podes fazer», continua Cavalera. «Não importa o quão bom achas que um álbum é – no final das contas, a decisão não é tua. Depende dos fãs. Mas sabíamos que tínhamos crescido como banda e não havia como voltar atrás.»

O álbum foi lançado com grande alarido em Setembro de 1993. A Roadrunner Records não poupou despesas no lançamento, reservando o mencionado Chepstow Castle para uma festa massiva, para a qual vários nomes importantes da imprensa e da indústria foram convidados num banquete do estilo medieval. E os fãs reagiram com igual entusiasmo. O álbum vendeu rapidamente, ultrapassando as marcas das vendas anteriores em todo o mundo. Na América, “Chaos AD” alcançou a posição número 32 na Billboard Charts – um grande sucesso. Por fim, alcançaria a marca de ouro nos Estados Unidos, vendendo mais de meio milhão de cópias – embora demorasse sete anos para aí chegar. No Reino Unido, o álbum também alcançou o estatuto de ouro, vendendo mais de 100.000 cópias.

Para a banda, foi uma reivindicação de tudo por que lutaram e a realização de ambições que devem ter parecido sonhos longínquos naqueles anos de luta no Brasil. «Para mim, existe uma ligação entre “Arise”, “Chaos AD” e “Roots”», diz Kisser. «Demos um grande salto com o “Chaos AD” e tornámo-nos uma banda internacional. Continua a ser o nosso álbum mais vendido, e acho que se perguntarem aos nossos fãs, oito em cada dez diriam que este é o seu álbum favorito. Ainda tocamos muitas das músicas ao vivo, e tocaremos sempre.»

«Acho que provámos um ponto importante a nós mesmos, tanto quanto qualquer outra coisa», continua Cavalera. «Nunca tivemos dúvidas sobre a nossa capacidade, mas ter a hipótese de trabalhar com Andy Wallace, Jello Biafra e também Evan Seinfeld dos Biohazard [que co-escreveu a música “Slave New World”] permitiu-nos chegar a um novo nível. Olho para aqueles tempos e acredito mesmo que foram os melhores que tivemos em Sepultura. Estávamos em sintonia, e a digressão subsequente em 94-95 foi a melhor que tivemos. A onda e o espírito eram simplesmente incríveis.»

A digressão do “Chaos AD” viu os Sepultura tornarem-se a primeira banda latina a tocar no festival Donington Monsters of Rock em 1994 (juntando-se a bandas como Aerosmith e Pantera). Também se abriram novos caminhos com o primeiro vídeo do álbum, “Territory”, que foi filmado em Israel.

No entanto, por mais estranho que possa parecer, isto também marcou o início do fim da banda como os fãs a conheciam e adoravam naquela época. Em 1994, Max Cavalera casou-se com a agente dos Sepultura, Gloria Bujnowski, e embarcou também num projecto paralelo com Alex Newport, dos Fudge Tunnel, chamado Nailbomb. Estes dois eventos teriam repercussões massivas no campo aparentemente inexpugnável dos Sepultura. Mas tudo isso estava no futuro. Nesse período, a banda conseguia efectivamente reinventar o metal extremo para o período pós-grunge.

«Nunca foi a nossa intenção», diz Cavalera. «Mas suponho que isso foi uma das coisas que aconteceu com o “Chaos AD”. Estávamos realmente a levar o metal para os anos 90. Toda a cena tribal tornou-se parte do nosso som, e foi algo que desenvolveríamos ainda mais no nosso próximo álbum [“Roots”, de 1996], e encontrámos uma verdadeira coesão de estilo e som que nunca tinha existido antes. Muitas vezes, as pessoas perguntam-me se estou orgulhoso deste álbum. Claro! Abriu muitas portas para todos nós.»

Décadas atrás, parecia que os Sepultura tinham realmente surgido com uma obra-prima. O passar do tempo apenas acentuou o seu impacto. O que “Reign in Blood” foi para os Slayer e o que “Master of Puppets” se tornou para os Metallica, “Chaos AD” tem a mesma relação com Sepultura. Pode haver elogio maior?

Consultar artigo original em inglês.