Em 2019, o death metal não jaz morto, mas apodrece – é esta a sensação que os Coffins transmitem com “Beyond The Circular Demise”,... Coffins “Beyond The Circular Demise”

Editora: Relapse Records
Data de lançamento: 20.09.2019
Género: death metal
Nota: 4/5

Os Coffins estão de regresso ao formato nobre e, desta vez, talvez nobre seja mesmo o termo mais apropriado. Portadores da moléstia que é o death metal norte-americano cru, impiedoso e fustigante do princípio dos anos 1990 e com a curadoria de bandas como Baphomet, Incantation, Obituary, Rottrevore e Autopsy, entre muitos outros, estes naturais de Tóquio apostam no revivalismo de um som de nicho com uma atitude de nacho. Ao seu quinto trabalho, e passados vinte anos, a banda consegue aperfeiçoar o seu caminho com “Beyond The Circular Demise”, trabalho que, tivesse sido lançado entre 1990 e 1992, teria feito dos Coffins lendas de culto do género.

“Beyond The Circular Demise” é um disco muito mais estudado e estruturado do que qualquer outro da carreira dos Coffins, até porque se trata do seu registo que demorou mais tempo a concluir. O resultado salta à vista de forma imediata: os riffs são tão densos que certamente possuem um horizonte de eventos, um ponto desde o qual não é possível regressar, tal é a força gravitacional que nos puxa na sua direcção; por seu lado, a voz cavernosa de Jun Tokita faz-nos recordar com nostalgia um tempo em que tudo era mais simples e puro, sem artifícios, e o sentimento geral que a banda transmite é o de old-school a correr nas veias.

“Terminate By Own Prophecy”, a primeira oferta do disco, traduz-se por uma amálgama retorcida de riffs doentios, mas muito orelhudos, talvez graças à inspiração lenta e algo grind que conseguiram embutir na faixa. Lembram-se dos Unleashed entre 1990 e 1993? 0% solos, 100% riffs, todos eles épicos. O death metal tem esta particularidade quase única – pode permanecer na memória futura sem solos, contrapondo com malhas imortais. Convenhamos que este não é propriamente o caso dos Coffins, que apresentam riffs dignos de nota, mas muito distantes de lendários, e até alguns solos que impressionam, malhas que só poderiam vir do território norte-americano. No entanto, os japoneses também não querem ser os novos Unleashed (muito longe disso, até), e as suas malhas e solos fazem muito bem o serviço a que se prestam.

“Forgotten Cemetery” traz-nos memórias dos já referidos Baphomet, tal é a similaridade das estruturas rítmicas, o solo tresloucado inicial e até os trejeitos clássicos (os “bleargh!” típicos desta escola) do death metal norte-americano. Depois, conseguem criar ambientes absolutamente sinistros com o fantástico trabalho de baixo de Masafumi Atake, que partilha ainda os deveres de vocalista. Começamos a perceber por que motivo os Coffins demoraram tanto tempo a concluir este quinto trabalho, que se encontra infestado de mudanças de ritmos, aparentemente (mas erradamente) simples e detentor de um som contagiante e doentio.

“Impuritious Minds” é mais uma máquina do tempo que nos transporta até ao início dos 1990 (como, aliás, todas as outras músicas o fazem), com um riff principal que mais parece um estouro de mamutes desgovernados que atropela tudo à sua passagem: lento, certo e fatal. Com quase sete minutos de duração, o que os Coffins fazem é a arte de entreter sem defraudar o público com uma recriação histórica da época de platina do death metal. Também “Hour Of Execution” presta homenagem aos clássicos americanos, desta feita com um cheirinho de Repulsion pelo meio, sempre com um andamento que fascina por ser tão propositadamente old-school. “Insane”, a faixa seguinte, mantém a endurance dos temas anteriores, mas com um jogo de guitarras groovy a meio – a forma encontrada pelos Coffins para destoar de tudo o que já conhecemos.

“Gateways To Dystopia” encerra “Beyond The Circular Demise” com chave de ouro, um tema em que o trabalho de bateria brilha mais do que anteriormente e o peso esmagador das guitarras e do pedal duplo, aliado a uma produção geral francamente crua (no bom sentido), nos fazem suspirar e dizer frases como “antes é que era…”. Claro que a arte, perfeitamente adequada ao conceito da banda, teria de caber a Chris Moyen (Incantation, Amorphis, Archgoat, etc.) por tudo o que isso implica, até porque já é a sexta capa que o francês realiza para os japoneses. Em 2019, o death metal não jaz morto, mas apodrece – é esta a sensação que os Coffins transmitem com “Beyond The Circular Demise”, um trabalho robusto e que presta vassalagem ao que de melhor se fez no género durante a sua infância. Quem não passou por esses tempos poderá estranhar a crueza, a orgânica e a rudimentaridade da coisa; quem os viveu no seu pleno, sabe que está perante uma pequena jóia.