Nesta entrevista clássica de 2006, Shawn “Clown” Crahan, dos Slipknot, convidou a Metal Hammer a ir a sua casa no Iowa para vislumbrar a... Shawn “Clown” Crahan: «A maioria não chega a matar, mas todos pensamos nisso»

Nesta entrevista clássica de 2006, Shawn “Clown” Crahan, dos Slipknot, convidou a Metal Hammer a ir a sua casa no Iowa para vislumbrar a sua arte e para falar sobre imundície, frustração e homicídio.

Os enlutados ainda estavam na casa mortuária quando Shawn Crahan desceu à cave da funerária, com uma câmara de vídeo na mão, para ver o que tinha acontecido ao corpo do pai. Perguntou ao funcionário se podia abrir o crematório e, depois de obter permissão, filmou-se a si mesmo a retirar as cinzas do pai com uma pá de neve de $4,99. Crahan espalhou a poeira pelo chão de pedra e filmou-se a vasculhar os restos mortais. Alguns dos ossos não estavam totalmente incinerados, portanto pegou em dois pedaços arredondados e examinou-os.

«Eram pedaços do crânio do meu pai, e do outro lado tinha uma impressão do seu cérebro que ficou depois de cozer», recorda Crahan, sentado na sua sala-de-estar em Johnston, Iowa, depois de exibir a filmagem perturbadora à Hammer. «Guardei um dos pedaços do crânio porque achei que ia servir para a minha arte. Não sei por que é que passei por aquilo, mas sei que tive de o fazer, e fez-me sentir muito bem estar lá a pegar-lhe e a soprar a poeira das minhas mãos. Eu estava do tipo: ‘Pá, isto é real como o c*ralho.’»

Depois de juntar as cinzas numa lata, que agora está na sua mesa de escritório, Crahan voltou para casa e editou a fita num vídeo assustador. De seguida, enviou-o para a Roadrunner Records, para ser incluído como filmagem bónus do DVD de 2006, “Voliminal: Inside the Nine”.

«Eu só queria que o meu pai vivesse para sempre porque vim dos tomates dele, e deu-me tanto», diz Crahan. «E dei resposta à minha confusão no processo. Vi a minha mãe a tentar rastejar para dentro do caixão com ele quando se estava despedir. Ele estava todo bombeado com fluido de embalsamamento, e eu apenas me sentei ali, a pensar: ‘Pai, em 30 minutos, vou libertar-te desta merda toda.’»

Poucas pessoas tiram as cinzas dos seus entes queridos de um forno ou usam fragmentos de ossos para projectos de arte, e, para alguns, essas acções podem parecer perversas, macabras e até mesmo sociopatas. Mas Crahan insiste que não é uma «merda esquisita. Não sou doente», diz. «Eu só quero saber. Tenho perguntas e preciso de encontrar respostas. Quero dizer, ele está morto. Já assimilei isso. Não vou trazê-lo de volta. Mas tenho de seguir em frente, e, para mim, isto é a coisa mais linda do DVD, porque consegui encerrar o assunto e agora está feito.»

O resto de “Voliminal” não é tão mórbido como o clip mencionado, mas é, sem dúvida, muito intenso. A primeira parte é um documentário de 90 minutos editado por Crahan que capta o caos e a insanidade de um ciclo de digressões durante três anos, que se seguiu ao lançamento de “Vol 3: The Subliminal Verses”, álbum dos Slipknot de 2004. Ao contrário da maioria dos DVDs de bandas – que fazem uma sanduíche de palhaçadas bem definidas entre concertos sonoramente puros –, “Voliminal” é todo ele edições chocantes e áudio distorcido. O segundo disco contém entrevistas confessionais com cada um dos nove membros da banda, bem como filmagens ao vivo e videoclipes mais convencionais de “The Subliminal Verses”.

Montar “Voliminal” foi uma experiência intensamente pessoal para Crahan, e, de acordo com a natureza íntima do DVD, convidou a Hammer para ir a sua casa, situada num subúrbio bucólico a cerca de 30 minutos do Aeroporto de Des Moines, para se ter um gostinho da sua realidade diária. Quando nos aproximamos da porta da frente, um miúdo louro de cabelos compridos com cara de anjo e com um pijama Thomas The Tank Engine brinca às escondidas através duma porta de vidro, depois ri e sai a correr. Por momentos perguntamo-nos se estamos no sítio certo. Depois, Crahan, de calças de ganga e uma camisola preta de mangas compridas, sai para nos cumprimentar.

«Normalmente não faço nada disto», começa, deixando-nos sentar e pondo sumo de uva num copo pontilhado com pequenos coelhos brancos. «Nem deixo ninguém entrar em minha casa. Sou uma pessoa privada.»

Andando-se pela casa de Crahan fica claro que há dois lados no homem que formou os Slipknot: o percussionista furioso e volátil que é obcecado pela dor e desconfiado da humanidade, e o homem de família que ajuda a manter uma casa arrumada e toma conta das crianças. O Grammy Award de Best Metal Performance que os Slipknot ganharam por “Before I Forget”, do álbum “Vol 3”, está no topo da peça central da sala-de-estar de Crahan – um piano de cauda que a esposa lhe ofereceu como prenda de aniversário. Durante as pausas da estrada, Crahan passa o máximo de tempo que pode a praticar e espera incorporar o que aprendeu no álbum seguinte dos Slipknot, “All Hope Is Gone”. O resto da sala também está decorada com bom gosto. Há um sofá branco, uma mesa central repousa sobre um tapete preto e branco estampado com círculos e ovais, uma cadeira de três pernas Philippe Starck e três grandes almofadas brancas em forma de ovo no chão. Nas paredes há vários posters de elefantes e uma impressão emoldurada de Paul Booth com um elefante com olhos humanos vazios e um pentagrama na ponta da tromba. É aqui que começamos a nossa jornada para o mundo bizarro e multifacetado de Clown.

O que passa com todos estes elefantes?
«A minha esposa adora elefantes e compara-me a um grande elefante macho.»

O Grammy parece elegante no piano. Quase se pensa que é a casa de Burt Bacharach ou algo assim.
«Tenho uma relação engraçada com o Grammy. Por um lado não significa uma merda e, por outro, significa que agora entrámos no clube. Agora podemos votar contra todas aquelas bandas de merda que andam por aí. De qualquer forma, parece-me que devia estar ali e tapa uma mancha.»

Conheces os teus vizinhos?
«Não falo com eles. Sou muito famoso por abrir a minha garagem e ficar lá a mandar vir.»

Não pareces ser uma pessoa sociável.
«Não gosto das pessoas porque não confio nelas. Poucas pessoas aprenderam através da sua própria inteligência como mandar porta fora a mentira, a trapaça e o roubo. A maioria não chega a matar, mas todos pensamos nisso dia-sim-dia-não por causa da nossa frustração. Basicamente, tenho muitos problemas sociais. Eu não saio. Eu não faço nada. A minha esposa está furiosa comigo por causa disso.»

De repente, o telemóvel de Crahan toca. É o agente a ligar para discutir um problema com a embalagem de “Voliminal”. Parece que o departamento de marketing da editora quer incluir um texto na parte traseira da caixa, o que irá interferir com o artwork de Crahan. A conversa começa bastante calma, mas, alguns minutos depois, Crahan levou o telefone para a cozinha e começou a berrar. «Não quero saber! Arranjem-se!», grita com insistência, desliga e volta para a sala a abanar a cabeça.

«Sou um defensor de como as coisas precisam de ser exactamente», diz. «Não vou lixar a porra da arte por outras coisas potenciais.»

Crahan está a investir profundamente em “Voliminal” por vários motivos. Além de ser o primeiro filme a sério, trabalhar no projecto ajudou-o a enfrentar um período particularmente difícil da sua vida. Desde que o pai morreu, em Outubro de 2005, está encarregado de cuidar da mãe, que sofre da doença de Alzheimer. Além disso, a esposa de Crahan continua a sofrer com a doença de Crohn, uma doença intestinal com risco de vida.

Parte de “Voliminal: Inside the Nine” é muito doloroso de se ver. É um reflexo da dor na tua vida pessoal?
«Sim, e é real. Não estou a tentar tornar isto pessoal, mas de que outra forma o vou fazer? Magoa muito. Mas também ajuda.»

Como assim?
«Há anos que sou consumido pelo meu sonho egoísta de ser uma estrela de rock. Bem, agora cuido da minha mãe, pá, e é muito mais real do que me enfiar no autocarro. E a minha esposa também luta todos os dias com a sua doença. Ela fez uma cirurgia. Teve 25 por cento de seu íleo inferior [a secção final do intestino delgado] removido e continua a sofrer. Quase morre uma vez por ano. Portanto, estou pronto para a qualquer momento receber um telefonema e dizer aos meus filhos que a minha esposa morreu. Este é o mundo em que temos de viver. E os meus filhos estão todos cientes disso. Estão na corda bamba. Portanto, sim, “Voliminal” foi muito terapêutico.»

Começaste a trabalhar no projecto em 2004 com o cinegrafista Bobby “Tongs” Arnenburger.
«O processo de pensamento foi este: filmar 500 fitas de 60 minutos, metê-las numa caixa, separá-las bastante e editá-las num filme três anos depois. Não é um DVD comum. É monótono, é nauseante. São as coisas que vês na estrada. Trata-se de documentar os minutos de um dia e perguntar: o que estás a fazer com esse tempo? Está a receber informação ou não? Não é normal, e se não gostas, não me importo.»

A maneira como editaste as imagens faz lembrar os filmes de Harmony Korine.
«Obrigado. Ele fez o “Gummo”, e esse é um dos melhores filmes já feitos. Quando aparecemos em Los Angeles, em 1998, para fazermos o primeiro álbum dos Slipknot com o Ross Robinson, ele fez-nos ver o filme antes de começarmos a gravar. Isso mudou a minha vida. Eu estava do tipo: ‘Compreendo isto. Adoro. Vou fazer um filme após o próximo álbum e quero que seja algo como “Gummo”.’ Adoro cenas que são ásperas, tristes e f*didas. Mas, por outro lado, não consigo passar pelo “The Texas Chainsaw Massacre” porque quando o Leatherface pendura aquela miúda no gancho, no início, quase desmaio. É tão real, não aguento.»

Então, o Clown não é fã de filmes slasher?
«Quando os Slipknot começaram, fiquei fascinado com vídeos de pessoas que cortavam o pénis com ferramentas para madeira – porque são muito afiadas – e depois cosiam ali mesmo. Nos nossos concertos, costumávamos mostrar vídeos de R. Budd Dwyer a matar-se. Mas o que acabou comigo foi uma fita de um traficante mexicano que apanhou um gajo a roubar, pregou-o e cortou-lhe a cabeça. Foi a última vez que vi algo assim.»

Periodicamente, Crahan coça a barba ou esfrega os olhos enquanto fala. Frequentemente, tosse. E às vezes levanta-se e anda pela sala. Mas sem importar onde está, posiciona-se de forma a poder vigiar pela janela da sala-de-estar e lança constantemente olhares pela sua propriedade como um guarda a olhar para ecrãs. A certa altura, uma carrinha encosta e Crahan fica atento como um cão de ataque. «Que porra é esta?! Sei que à minha casa não vêm», exclama. Dois minutos depois, o veículo afasta-se. «Bom. Está perdido ou merda assim.»

Crahan tem bons motivos para ser paranóico. Os Maggots, o nome carinhoso que a banda dá aos seus fãs mais zelosos, são um bando louco e persistente. Ao longo dos anos, vários fãs foram à sua casa para espiar. Certa altura, quatro tipos viajaram quase 500 milhas, desde Indiana, apenas para conhecerem os seus heróis. Lisonjeado, afugentou-os rapidamente. «Felizmente não tenho perseguidores porque sou casado e feliz, e não traio a minha esposa, portanto não tenho todo esse drama de merda que muitas pessoas têm.»

Se o primeiro andar da casa de Crahan é bem organizado e sereno, a cave, onde os Slipknot escreveram e ensaiaram a maioria das músicas do terceiro álbum, “Iowa”, é um vórtice de más vibrações e artefactos estranhos. Num canto, perto de fileiras de camisolas antigas de bandas e um feto de porco siamês num frasco de formaldeído, está a cabeça de cabra que aparece na capa do CD. Parte da carne desfez-se do osso e um chifre está rachado e torto, mas ainda é reconhecível. «Gosto mais assim», diz Crahan, pegando nela e simulando sexo com a besta.

Contra uma parede adjacente estão várias outras pinturas de Crahan, algumas decoradas com imagens de grandes falos e actos sexuais que são ilegais em alguns Estados. Uma mostra o que parece ser uma mulher com orelhas de coelho a ter relações sexuais com uma engenhoca abstrata. «Oh, é a minha esposa a masturbar-se com o seu rosto de senhora mais velha e um Vicodin gigante», explica Crahan com tamanha naturalidade. «É muito impressionista. Tudo o que sempre quis fazer, ainda mais do que rock n’ roll, é pintar, porque sou um grande fã do impressionismo. Tudo o que aqueles gajos faziam era por vinho e pão. Não havia nenhum dinheiro para eles, e a merda deles ainda está a ser estudada.»

Com um brilho nos olhos, Crahan pega numa garrafa de minhocas gigantes, que comprou numa loja de isco, que andou a estudar avidamente no último mês. «Comecei com 17 e agora estou com 13 porque são canibais», diz. «Sento-me e vejo comerem-se umas às outras. Certa noite chateei-me a sério porque uma estava viva e a outra estava a tentar comê-la pela cabeça. Quase que a tirei e a esmaguei com um martelo, mas depois pensei: ‘Não, é isto que estou a fazer. Isto é mais importante do que meter a cadeirinha no carro e levar os meus filhos ao McDonald’s. Isto é real como o c*ralho.’»

Pareces bem ajustado com a tua família, e depois observas vermes gigantes devorarem-se e pintas imagens de sexo e morte.
«O que há de errado nisso? Sexo e morte são as duas partes mais importantes da vida. É disso que se trata tudo o resto. Adoro sexo, obviamente, e tentei matar-me em palco durante vários anos. Estou tão curvado e partido com as dores que tive de sair por causa do que mais odeio no mundo. Não sou suicida, mas tenho arrependimentos, e isto é tudo o que faz sentido na minha vida. Definitivamente, estaria morto sem isto.»

Dirias que és masoquista?
«Não, mas gosto de infligir dor em mim mesmo. Gosto de ficar muito bêbado e dar uma chapada na minha própria cara. Adoro a realidade entorpecida disso. Adoro quando a casca é separada da merda da alma e fica um bocado confusa. Gosto tanto que simplesmente não o faço. Não posso. Não bebo porque estou muito confuso e um pouco honesto demais.»

Já acreditaste no estereótipo do sexo, drogas e rock n’ roll?
«Ainda acredito. Adoro essa merda. Isso é rock n’ roll, pá. Quero passar e ver um porco a f*der outro porco. Se alguém quiser injectar uma agulha, eu vejo. Uma gaja desleixada quer comer um membro da equipa à minha frente – sim, pá. Achas que o vou negar por causa da moralidade? Vá lá. Sou humano. Observo e vejo-a um anos depois, quando ela me contar que tem hepatite. Tanto me faz, pá. O mundo está imundo, mas gosto de merda imunda. Se quiseres beber meia garrafa de Jäger e vomitar, estou lá com a câmara, pá. Estou lá com a câmara.»

Consultar artigo original em inglês.