Rodeado pelo poder europeu, russo e médio-oriental, o Azerbaijão não é, de todo, um dos países dos quais nos lembramos no que ao metal... [Cena Metal] Azerbaijão: cultura caucasiana

Rodeado pelo poder europeu, russo e médio-oriental, o Azerbaijão não é, de todo, um dos países dos quais nos lembramos no que ao metal diz respeito. Assim, a Metal Hammer Portugal foi à procura de duas bandas activas que, em breves palavras, falam um pouco do seu país e da sonoridade que praticam. Antes vale a pena referir que o Azerbaijão é um país com evidentes rupturas culturais em relação à região vizinha mais conservadora do universo muçulmano. «A primeira ópera musical no Cáucaso realizou-se no Azerbaijão e chamava-se “Leyli e Majnun”», conta Farid Mayilov, multi-instrumentista dos atmosféricos Zommm. De facto, este foi o primeiro país muçulmano, depois do Egipto, a ter óperas, teatros e universidades modernas. «O Azerbaijão tem mente-aberta para esse tipo de arte moderna, com certeza», reconhece Asim Rahimov, baterista da banda metalcore Silence Lies Fear, sendo que «conhecimento e desporto são muito comuns» na sua nação.

A primeira ópera musical no Cáucaso realizou-se no Azerbaijão.

Farid Mayilov (Zommm)

Território antigamente incluído na URSS, o Azerbaijão conquistou a sua independência em 1991 aquando do colapso do gigantesco bloco soviético. A eterna questão, que muito se testemunha em vídeos do YouTube produzidos por turistas que viajam pelos países da ex-URSS, é: vive-se melhor agora ou antes? Sabendo de antemão que estas duas bandas são constituídas por jovens, tanto Mayilov como Rahimov apenas ecoam aquilo que lhes é passado pelos mais velhos. «Não há pensamentos positivos, em todas as regiões há vantagens e desvantagens», refere o membro de Zommm, deixando no ar uma ideia muito ambígua e até generalista. Já o constituinte de Silence Lies Fear diz-se «ao largo da política», tendo, ainda assim, «a certeza de que todas as pessoas têm pensamentos diferentes sobre isso». «Talvez os mais velhos digam que ser parte de algo grande era melhor, e os jovens dirão que ser independente é óptimo. A minha opinião é a de que onde quer que estejas, tens de permanecer fiel e criar música!» Os dois músicos acabam por ter um ponto de convergência, como remata Mayilov: «O nosso país é multirreligioso e a política não é do nosso interesse.»

Onde quer que estejas, tens de permanecer fiel e criar música!

Asim Rahimov (Silence Lies Fear)

Da cena metal no Azerbaijão pouco, ou nada, se sabe e ambas as bandas dificilmente abrem o jogo, parecendo que é um panorama separado dentro de si mesmo e com muito trabalho pela frente para fazer crescer a camaradagem. Por exemplo, numa conversa via Facebook anterior à entrevista, os Silence Lies Fear referiram à Metal Hammer Portugal que não estavam ligados à cena metal do seu país, pelo que talvez não fossem a banda indicada para tal. «Não posso dizer que estamos ligados à sociedade.» Prosseguimos na mesma. Todavia, Rahimov confirma que «a cena metal no Azerbaijão está a crescer» e tem «a certeza de que há novas bandas no activo».

A Cultura clássica que se foi modernizando está impregnada nas pessoas, mas a pergunta obrigatória é sempre: como é que o metal ali chegou? A Europa e a chegada dos hábitos norte-americanos com a queda da URSS fizeram das suas: «Principalmente, crescemos com o metal dos EUA e da Europa; por isso, somos mais influenciados por essa cultura», esclarece o baterista dos Silence Lies Fear. «Anossa sociedade é mais influenciada por géneros musicais nativos, como mugham. O metal no nosso país ainda não é tão popular quanto queremos.» Com um metalcore/death metal melódico polvilhado por arranjos electrónicos, piano e inclusão de vozes femininas, Rahimov diz-se influenciado por bandas como In Flames, Dark Tranquillity, Insomnium, Eluveitie ou Light This City. Do lado dos Zommm, que praticam uma fusão de metal atmosférico com shoegaze, Mayilov fala em nomes como Alcest, Linkin Park, Deafheaven ou Hans Zimmer, apenas para mencionar alguns.

Já que os Zommm são uma banda tão atmosférica e dreamy, mas às vezes também áspera, quisemos saber mais profundamente quais as emoções que o duo pretende transmitir: «Compartilhamos as nossas visões no mundo dos sentimentos e nos pensamentos das nossas vidas. Tentamos transmitir compreensão mútua e amor aos nossos ouvintes, e lembrá-los de que não estão sozinhos, embora sozinhos.» Pragmáticos no lançamento de singles (em 2018 foram quatro), há ainda um EP intitulado “Reality Is an Illusion”. Mayilov dá novidades: «Lançámos o single “Dissapointed” que pertence ao próximo álbum, no qual estamos a trabalhar. Compusemos mais de 200 músicas, mas apagámo-las porque sentimos que foram escritas por causa dos nossos ouvintes e não por causa do primeiro EP. Portanto, não nos apressamos porque não queremos lançar nada. Mas em breve ouvirão um álbum completo composto por umas 12 músicas.»

Quanto aos Silence Lies Fear, estes já vão com três discos desde a fundação em 2008, sendo “Shadows of the Wasteland” (2018) o mais recente. «Espero que os ouvintes gostem de todas as nossas coisas, mas provavelmente o último [álbum] é o mais progressivo e interessante», confia Rahimov. «Tentamos sempre dar o nosso melhor ao compor e organizar a nossa música. Infelizmente não somos uma banda grande, por isso não estamos a promover o nosso material. Apesar disso, chegámos a estar em terceiro lugar no top japonês, e isso era um dos nossos objectivos com este álbum!»