1989. Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos. Olhando para o Bloco de Leste, sentia-se no ar o aroma a democracia,... Candlemass “Tales of Creation”: o bom, o mau e a perdição

1989. Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos. Olhando para o Bloco de Leste, sentia-se no ar o aroma a democracia, confirmado em Novembro desse ano com a queda do muro de Berlim. Tratou-se de um ano electrizante a nível político e histórico, sempre marcado por acontecimentos que sucederam em cascata e à velocidade da luz: o princípio do fim do Apartheid, a Revolução de Veludo, os protestos em Tianamen, a queda do comunismo em quase todo o teatro de Leste… A acompanhar os rápidos desenvolvimentos políticos e sociais, o heavy metal rejuvenescia e evoluía mais, sempre de forma inaudita. Nesse ano, foram lançados 201 longas-durações originais, muitos dos quais são actualmente considerados clássicos, mas, olhando para trás, o mais impressionante em relação a 1989 foi o facto de terem nascido 67 novas bandas, sendo que 47 dessas eram (e algumas ainda são) praticantes de metal extremo: Dissection, Thorns, Unleashed, Immortal, Dark Tranquility, Comecon, Beherit, Edge Of Sanity, Sentenced e Vomitory são algumas delas. Foi um indicador geográfico (Escandinávia) de que tempos mais agressivos e rápidos estavam para vir. As alterações de paradigmas surgiam diariamente, parecendo que 1989 estava prenhe de 1990 e que este estava em fase final de gestação, tal era o ritmo alucinante a que tudo se desenrolava.

Aliás, quase tudo. Embora os subgéneros mais agressivos do heavy metal estivessem a dar passos significativos ao extremar e galvanizar cada vez mais a sua arte, um dos nomes mais respeitados internacionalmente nadava contra a corrente, pouco importado em participar em competições de sprint quando a sua especialidade de eleição era o endurance, mesmo depois de ter editado quatro discos de originais à razão de um por ano e principalmente depois de os seus dois últimos trabalhos terem deixado a comunidade metálica mundial assombrada. Falamos claramente de Candlemass e de “Tales Of Creation”, um magnum opus épico conceitual de proporções bíblicas, um exercício de megalomania soberana, um terreno que nem os próprios Candlemass alguma vez tinham pisado. No entanto, o vento da mudança também bafejaria a banda com importantes revoluções internas, tão na moda nesse final de década. “Tales Of Creation” foi o canto do cisne da época clássica dos Candlemass, um disco que ajudou os anos 1980 a terminarem em grande. Contudo, trata-se de um registo que já tinha sido maioritariamente composto antes do lançamento de “Epicus Doomicus Metallicus”, o que leva a questionar o porquê de ter sido o quarto álbum dos suecos e, mais ainda, se em 1989 a banda considerou que era o momento correcto para o lançar.

A história de “Tales Of Creation” foi contada em exclusivo à Metal Hammer Portugal por Lars Johansson, eterno guitarrista da powerhouse sueca que contou com a modesta participação do bem-regressado Johan Längquist [voz].

Johansson:«Depois de lançarmos “Nightfall”, as coisas começaram a compor-se para avançarmos com “Tales Of Creation”. Queríamos uma produção melhor, por isso fomos até ao Stockholm Recording. O Leif [N.R.: Edling, compositor principal e baixista da banda] tinha memorizado as canções ao longo dos anos, desde os Nemesis [N.R.: a banda que antecedeu o aparecimento dos Candlemass]; logo, ele decidiu qual seria a altura certa para o lançar. As canções do disco seguem um tema, mesmo o tema instrumental [“Into The Unfathomed Tower”], no qual me puseram a tocar que nem um doido varrido. [risos] Foi o Mats Lindfors que tratou da produção – lamentavelmente faleceu em 2017, foi uma perda terrível. Quanto a ser o quarto álbum, e como referi, o Leif escreveu “Epicus Doomicus Metallicus” na totalidade; depois, existiu nessa época um grande fluxo de criatividade e de músicas, e então surgiu o “Nightfall”; depois aconteceu o mesmo e surgiu o “Ancient Dreams”, até que chegámos à altura de gravar o “Tales Of Creation”. Não houve uma razão premeditada para o lançarmos em quarto lugar. Mas correu bem assim: acabou por ter uma produção mais moderna graças ao Mats e acabámos por andar em digressão um pouco mais.»

“Nightfall” é considerado quase unanimemente não só o melhor álbum dos Candlemass, como também o melhor disco de doom metal de sempre. No entanto, não há dúvida de que os melhores momentos da dupla Messiah Marcolin/Leif Edling pertencem a “Tales Of Creation”: inspiração e desempenho musical sem paralelo, arranjos vocais sem paralelo, uma capa que resiste à erosão do tempo e uma atmosfera practicamente impossível de repetir fizeram do álbum o que ele é. Falamos de um tempo em que era comum uma banda já consagrada ir para um estúdio grande gravar durante vários meses, algo inconcebível hoje em dia. Certamente que, ao fim de dois meses de gravação (Junho e Julho de 1989) existiram tanto momentos divertidos como de tensão em estúdio.

Johansson: «Felizmente nunca existiram situações de tensão, mas tivemos muitos bons momentos em estúdio. Nessa altura, ensaiávamos imenso e depois íamos para estúdio. Nunca pregámos partidas e correu sempre tudo sem truques, sempre fomos muito relaxados durante as gravações. Quando queríamos, descansávamos; quando era hora de trabalhar, cada um de nós metia as mãos ao trabalho. Foram tempos muito divertidos, porque fazíamos as coisas ao nosso ritmo, sem pressas, aproveitávamos para esticar as tardes para concluir certas partes. Nunca fomos uma banda que entrava em estúdio cheia de pressa, nunca fomos de estar dentro do estúdio dia e noite. Ao fim de seis horas a gravar, deixas de ser produtivo. Gravávamos uma música, depois a seguinte, sempre assim. Na verdade, ainda o fazemos hoje em dia.»

Längquist: «Sim, é verdade. Gravamos uma música, aproveitamos o momento, aproveitamos para ouvir como ficou…»

Johansson: «Exacto, é a nossa forma de trabalhar. Nesses tempos, as bandas iam para estúdio e lá ficavam vários meses. Mas muitas delas aproveitavam o tempo em estúdio para criarem lá as músicas novas. Nós já as tínhamos todas prontas e ensaiadas. Entrávamos em estúdio e só limávamos arestas. Se me lembrava de algo bom para uma música, deixávamo-la em standby durante uns dias e passávamos a outra. Era e é a nossa forma de fazer as coisas.»

“Tales Of Creation” surpreende principalmente pela composição, pelas partes vocais e, claro, pela carga épica que o disco proporciona a cada instante. Contudo, uma das facetas mais admiráveis do álbum prende-se com o exercício de pretensiosismo que foi criar um disco conceitual que fala sobre a história da Criação. Fora isso, é o disco mais pesado dos Candlemass – se pensarmos bem, até a já referida instrumental “Into The Unfathomed Tower” é uma agressiva aula de metal rápido. Os Candlemass já eram um nome estabelecido na época, podiam dar-se a certos luxos, mas, ainda assim, foi uma jogada ousada e relativamente arriscada que poderia ter corrido mal ao tentar lançar um disco maior do que o Céu.

Johansson: «Bem, a “Into The Unfathomed Power” não é propriamente speed metal. É algo mais na linha do heavy metal premium clássico. Não acho que tivesse sido arriscado. Quando o Leif compôs a música não nos preocupámos com riscos alguns, até porque a música soava muito bem no seu todo. Hoje em dia, com o streaming e tudo o mais, podes pegar numa música e metê-la numa biblioteca e, por esse motivo, podes perder ou desaperceber-te do conceito de um disco: ouves a música três, ouves a música sete e não ouves o resto ou não o transportas para casa porque o ouviste no Spotify. Acho que, assim, é muito provável que percas o fio à meada da história que está no disco. Nunca nos preocupámos com isso. O Leif sabia a história que queria contar, gravámo-la à nossa maneira, ficámos muito satisfeitos com o resultado e é isso. É algo muito Candlemass, algo muito nosso. No fundo, não se trata de pretensão, apenas não podemos agradar a toda gente. Se ficarmos satisfeitos com a gravação e com a produção, temos fé de que os nossos fãs fiquem também.»

Após um trabalho de tamanho envergadura, o futuro parecia promissor para os Candlemass: elogios rasgados de fãs e imprensa, digressões pela Europa e Estados Unidos ao lado de bandas como Slayer, King Diamond e Savatage, e, claro, raios de luz a anunciarem o início da última década do século e do milénio. Tudo isto fazia prever que os anos 1990 seriam tempos emocionantes para a banda e para a sua música. Pese tudo isto, a Lei de Murphy é inequívoca: “Se te parecer que está tudo a correr bem, então é porque te está a escapar alguma coisa.” E foi assim que “Tales Of Creation” marcou a saída de Messiah Marcolin, o lendário vocalista dos Candlemass, que, juntamente com Leif Edling, fez parte do duo dinâmico mais interessante do metal extremo nos anos 1980. Recentemente, Johansson afirmou que a última vez que Marcolin saiu dos Candlemass deveu-se a ele ser um «buraco negro de negatividade». Recorrendo uma vez mais ao sábio Murphy: “Se algo puder correr mal, correrá. E na altura menos oportuna.” O que teria levado exactamente Messiah a abandonar os Candlemass em 1991? Existe muita especulação em torno do assunto, mas também falta de consenso em relação à sua saída.

Johansson: «Deixa-me meter as coisas desta forma: não tenho qualquer problema com o Messiah, exceptuando musicalmente. Isso porque ele não se compromete. Ele quer fazer as coisas à sua maneira, e tudo bem com isso, mas, nesse caso, não pode trabalhar com uma banda. Por conseguinte, tivemos de tomar caminhos diferentes. No entanto, quando o vejo, cumprimento-o, falamos. Passou muita água por debaixo da ponte e não restou qualquer amargura ou raiva. Quando falamos sobre o Messiah, nunca sabemos aquilo com o que podemos contar. Sempre foi assim. Qualquer projecto que ele inicie nunca fica acabado. Mas tudo bem – se ele é assim tão perfeccionista e quer fazer as coisas à sua maneira, é livre de o fazer. Numa banda e em democracia, tens de ouvir os outros membros. Se eu for para estúdio e fizer tudo como quero, alguém na banda vai-me dizer: ‘Lars, não podes fazer isso assim, não resulta nesta música.’ Logo, ouço o que eles me dizem e pergunto se têm sugestões e o que posso fazer para melhorar a música. Tenho um espírito bastante aberto, sou tudo menos uma mente fechada. Entramos em estúdio como telas em branco, até que as cores começam a surgir. Nunca sabemos como é que vai ser o produto final, mas provavelmente será algo que nos deixará satisfeitos. Logo, com o Messiah, seria impossível trabalhar com esse tipo de sistema. Ele sempre quis fazer as coisas à sua maneira. Quando o Leif escreve as músicas, eu ouço o que ele está a fazer. Com as partes vocais, tem tudo a ver com as letras, com a entoação, com…»

Längquist: «Com o espírito de tudo o que é relativo à banda!»

Johansson: «Sim, com esse espírito. Se o Leif aparecia com algo diferente, bastaria tentar algo diferente. Os problemas apareceram quando ele queria fazer as coisas exclusivamente à sua maneira. Quero dizer, não é assim que trabalhamos.»

A digressão de “Tales Of Creation” foi, talvez, um dos últimos grandes acontecimentos dignos de memória na época de transição dos anos 1980 para os 1990.  Após “Ancient Dreams” ter recebido notas menos positivas, ainda assim a banda manteve uma fiel legião de seguidores que os recebia nas salas de concertos a cada noite. Muitas boas memórias ficaram dessa digressão, sendo talvez a mais famosa a guerra de bolas de neve em que participaram os exércitos de King Diamond, Savatage e Candlemass na Alemanha, em Outubro de 1989. Assim como essa recordação, outras mais deverão ter ficado na memória dos Candlemass, principalmente numa época em que tudo era muito mais natural e livre das histerias de 2019.

Johansson: «Pfff… Foi noutros tempos… [risos] E erámos muito mais novos e alucinados, diga-se de passagem. No entanto, estávamos extremamente felizes e sérios com o “Tales Of Creation” e com a digressão. Nessa altura, por outro lado, gastámos muito mais dinheiro do que conseguiríamos ganhar. Depois, as coisas com o Messiah correram mal, nem tudo foi bom. Éramos a banda conhecida por mudar de vocalista a cada 2 ou 3 anos. [risos] Por fim, aqui o Johan juntou-se a nós outra vez e as coisas voltaram à velha forma, voltaram a ser um full circle, até agora.»