Devido às circunstâncias, “Roots” não era o álbum que os Bonfire planeavam lançar, mas aquele que tiveram de lançar. Bonfire “Roots”

Editora: AFM Records
Data de lançamento: 26.02.2021
Género: heavy metal / hard rock
Nota: 3/5

Devido às circunstâncias, “Roots” não era o álbum que os Bonfire planeavam lançar, mas aquele que tiveram de lançar.

Não é novidade nenhuma que o ano de 2020 foi extremamente demolidor para o sector musical. Se antigamente as bandas faziam uma tour para promover um álbum, nos tempos que correm o processo inverteu-se por completo, visto que é nas actuações ao vivo onde se encontra a maior fonte de rendimento do negócio musical. Impossibilitadas de darem concertos, muitas foram as bandas que tiveram de se reinventar de forma a contornar toda esta situação pandémica, que consequentemente teve no sector musical um dos seus principias alvos.

No lote das bandas mais abaladas estão os Bonfire. Os veteranos germânicos, formados nos 80s, nunca se conseguiram afirmar em grande escala, estando por isso obrigados a lançar álbuns regularmente e a promovê-los em tour de forma a sobreviverem. 2020 parecia ser um ano bastante ativo para os Bonfire, com a edição de “Fistful of Fire” em Março e consequente tour. No entanto, com a pandemia a chegar à Europa em força precisamente nesse mês, todos os planos da banda alemã foram por água abaixo. Uma coisa era certa, a banda não podia parar, mas também não fazia sentido lançar um novo álbum de originais visto que a interrupção dos concertos ia ser longa. Desta forma, a escolha recaiu em lançar uma compilação em que os clássicos da banda seriam regravados e apresentados com uma nova roupagem em formato semi-acústico. Esta foi, sem dúvida, a opção mais acertada.

“Roots” é assim um álbum extenso – ao todo são 24 faixas que nos levam por uma viagem sonora ao longo dos 35 anos de carreira dos Bonfire. Na sua abordagem acústica, a banda apresenta-se com uma sonoridade bastante polida e com uma comunhão instrumental que consegue captar as particularidades harmónicas de uma performance ao vivo, mas em contexto de estúdio, fazendo até por vezes lembrar o mítico “Acoustica” dos Scorpions, gravado no velhinho Convento do Beato em Lisboa no ano de 2001.

Algo que também se revelou bastante interessante neste “Roots” foi a astúcia com que os Bonfire conseguiram disfarçar numa série de faixas vários tributos a bandas que, de certa forma, se apresentam como uma influência para o grupo de Ingolstadt.

“Starin’ Eyes” e “ Love Don’t Lie” prestam homenagem aos Led Zeppelin com os riffs de “Black Dog” e “Stairway to Heaven”, respetivamente, a soarem bem entranhados, “Comin’ Home” e “ Ready for Reaction” vão beber à NWOBHM com os riffs de “Fear of the Dark” e “Breaking the Law” a darem um ar de sua graça nas composições, enquanto “Under Blue Sky” pisca o olho a “Layla” de Derek and the Dominos.

No entanto, o álbum apresenta em quase toda a sua extensão uma dinâmica algo estagnada. O facto de apresentar mais de 20 faixas, quase todas elas em formato balada, também não ajuda a reduzir a sua monotonia, sendo que muitas das vezes se sente alguma falta de diversidade. Existem alguns momentos que se destacam, como é o caso das faixas “Piece of My Heart”, “Young Bloods” e “Wolfmen”, estas já a afastarem-se do formato acústico em prol de uma sonoridade mais agitada e épica com recurso a guitarras eclétricas estridentes e vocais com uma maior projecção.

Mas, bem vistas as coisas, e devido às circunstâncias, “Roots” não era o álbum que os Bonfire planeavam lançar, mas aquele que tiveram de lançar. Este é um registo que não se apresenta como uma progressão na carreira da banda, mas que surge como um remendo na procura de colmatar as dificuldades financeiras provocadas pela Covid-19, e só por isso já merecem todo o nosso respeito.