Um trabalho ao qual não se pode chamar maduro, antes iluminado, criado por uma banda temporal, geográfica e esteticamente desparelhada. Bölzer “Lese Majesty”

Editora: Lightning & Sons
Data de lançamento: 15.11.2019
Género: atmospheric death/black metal
Nota: 4.5/5

Três anos volvidos sobre “Hero”, a obra-prima musical romântica dos tempos modernos, os suíços Bölzer continuam a abrir janelas e portas para arejarem o black metal, um género geralmente conservador e elitista, pouco dado a grandes inovações e ocultado das grandes massas. “Lese Majesty” é uma extensão natural de “Hero”, mas, desta vez, o dueto composto por Okoi Jones (guitarra, voz) e Fabian Wyrsch (percussão) abandona a evocação gloriosa de tempos passados e aponta a sua mira para o presente. Ou talvez para o futuro – neste caso em particular, é realmente difícil traçar coordenadas cronográficas. Como o próprio nome indica, “Lese Majesty” é uma afirmação ousada e violenta que se vale da genialidade, inspiração e desinteresse em tendências ou modas por parte dos dois argonautas já referidos.

Composto por três temas e um interlúdio, a principal característica de “Lese Majesty” atinge-nos nos 30 segundos decorridos de “A Shepherd In Wolven Skin” – mal a guitarra e a bateria unem esforços, percebemos imediatamente que estamos a ouvir Bölzer. Caso escutássemos os dois instrumentos a solo, a percepção seria a mesma. Poderá parecer senso comum, até porque bandas há que se afirmam apenas pelas guitarras (At The Gates, por exemplo), mas quantas conhecemos que denunciam automaticamente o seu nome apenas pelo trabalho de bateria? Exacto. No entanto, tanto a composição única e alienígena da guitarra de 10 cordas de Jones como os ritmos assíncronos e ricos (mas aparentemente simples) de Wyrsch não encontram pares.

A primeira faixa é uma salada de mil delícias em que todos os ingredientes parecem ter sido atirados aleatoriamente para dentro de uma taça, tamanha é a diversidade e complexidade sonora e na qual parece que tudo decorre ao mesmo tempo. Outra característica da marca Bölzer é a abastança de fonónimos e interjeições de Jones, ora cantadas (“Hmmm…”), ora afirmadas (“Ah!”, “Uh!”), e agora até a prosódia dos assobios do vocalista acrescentam mais conteúdo ao nome. A multiplicidade de ritmos e tempos de “A Shepherd In Wolven Skin” obriga-nos a premir e a premir uma vez mais o botão play – do solo épico e apoteótico aos 3m27s, passando pela voz límpida e cantada logo após e que dá o mote para uma descarga de black metal primário e ultra-agressivo, o primeiro tema de “Lese Majesty” não poderia conter mais Bölzer em si mesmo do que o faz. É um manifesto autoritário e assertivo que nos diz que chegaram os Bölzer.

Segue-se “Æstivation”, um interlúdio atmosférico de pouco mais de dois minutos que volta a contar com mais interjeições e uma breve declamação poética de Jones que soa a uma ode aos relâmpagos (“Oh lights, oh lights… Kiss me, for my heart be thyne…”), um tema tão próximo da banda. Após, inicia “Into The Temple Of Spears”, talvez o tema menos experimental e mais centrado no metal como o conhecemos do registo – as interjeições continuam, intervaladas pelas vozes graves/límpidas de Jones e que culminam em mais uma descarga de black metal a lembrar Immortal dos tempos de “Blizzard Beasts”, sempre com o ADN dos Bölzer a nortear o tema. Embora menos aventureira, “Into The Temple Of Spears” é uma faixa enorme e de uma violência que nos faz recordar o EP “Aura”. Será, certamente, o momento menos avant-garde de todo o registo e o que mais depressa agradará à legião de admiradores do black metal praticado pela banda. Curiosamente, e como já dito, embora se trate de um excelente tema, é talvez o menos interessante do registo exactamente pela sua natureza linear.

Claro que tudo teria de terminar de forma épica e (à falta de melhor termo) heróica, o que é plenamente conseguido com “Ave Fluvius! Danu Be Praised!”, mais uma referência já comum dos Bölzer aos elementos (fluvius ou rio, Água) e à mitologia (Danu, deusa-mãe gálica associada à Terra). O tema inicia de forma atmosférica e evolui para um plano de metal extremo clássico e grandioso com riffs épicos, mais vozes evocativas e interjeições de Jones, mais riffs épicos, sempre distintos, um trabalho de bateria diversificado e inconformado com a normalidade, mais riffs épicos… O último tema de “Lese Majesty” mimetiza (embora a uma escala infinitamente menor) a grandiosidade megalómana de “A Shepherd In Wolven Skin” sem com isso perder interesse ou relevância. Dito isto, em menos de trinta minutos os Bölzer conseguem criar mais emoção do que toda a discografia de algumas bandas com trinta anos de estrada.

Assim é “Lese Majesty” – um trabalho ao qual não se pode chamar maduro, antes iluminado, criado por uma banda temporal, geográfica e esteticamente desparelhada. De forma muito simples, os Bölzer estão cinquenta anos à nossa frente em todos os sentidos artísticos e, se calhar, nem se apercebem disso. Obrigatório.