Podem não ter alcançado o sucesso de pares como Carcass, mas Bolt Thrower é das bandas mais influentes de sempre no... Bolt Thrower: por que sentimos falta dos reis do underground
Foto: Sarah Bennett

Podem não ter alcançado o sucesso de pares como Carcass, mas Bolt Thrower é das bandas mais influentes de sempre no panorama death metal. Aliás, a coroa de reis do underground assenta-lhes muito bem – é tão fácil assim.

Fundados em 1986 pelo baixista Gavin Ward e pelo guitarrista Barry Thomson, a banda tinha toda a escola do punk, seja na música, na atitude ou na política. Mais: uniram forças precisamente num concerto de hardcore punk num bar em Coventry, Inglaterra.

Inicialmente encostados ao grindcore, o primeiro álbum “In Battle There Is No Law!” (1988) prova isso mesmo, o quarteto foi evoluindo até àquilo que os tornou famosos: death metal maioritariamente a mid-tempo sobre guerra. Claro, sobre guerra já se cantava desde sempre, mas ninguém como Bolt Thrower. Álbuns como “The IVth Crusade” (1992) e “…for Victory” (1994) soam a canhões que cospem destruidores engenhos explosivos e a passada é de tanques a meterem abaixo árvores e muros, havendo todo um alarmante ambiente de acção bélica, com um ricochete aqui e uma baioneta a perfurar carne ali.

Para além de terem defendido o metal extremo durante os anos 1990 como poucos fizeram (Pantera foi também uma das bandas-estandarte do género nessa década, mas em maior escala), os Bolt Thrower não só ofereceram uma nova abordagem ao death metal como se apresentavam como uma banda com uma mulher nas suas fileiras. Se na Alemanha encontramos Sabina Classen (vocalista dos Holy Moses), na Inglaterra deparamo-nos com a baixista Jo Bench, que integrou o colectivo em 1987.

Gavin, que fora baixista e depois passara para a guitarra ao lado de Barry, comentou: «Ela gostava da banda, conseguiu logo tocar algum material e aprendeu o alinhamento em sete dias. Foi assim. Ela conseguia fazer o que precisávamos.»

Numa entrevista em 2009, Jo confessou: «Toco baixo o mais básico possível. Não sou uma baixista técnica, maioritariamente sigo a guitarra, tornando tudo mais pesado, por assim dizer. Sou boa o suficiente para Bolt Thrower, e é isso.»

Quanto aos anos 1990, o vocalista Karl Willets disse: «No final dos anos 80 e início dos 90, o underground parecia importante. Os Bolt Thrower foram realmente pró-activos, a fazerem-se muitas digressões e a gravarem-se discos. Foi um verdadeiro pico de criatividade e toda a gente à nossa volta parecia estar no mesmo plano. Depois chegámos a meados dos anos 1990 e o death metal pareceu bater numa parede. A geração seguinte ouvia grunge em vez de metal extremo. Eu mesmo distraía-me com bandas como Soundgarden, e isso levou-me a um caminho diferente, longe da música extrema. Em parte, foi por isso que deixei Bolt Thrower em 1994. Mas a par disso, houve crossovers no rap, a banda-sonora de “Judgment Night” e assim por diante, e depois o black metal aconteceu. Todas essas coisas diluíram o que a cena tratava e distraíram as pessoas para outros caminhos e diferentes maneiras de se fazerem as coisas. De repente, a cena já não nos pertencia.»

Acto contínuo, Karl aprofunda as suas declarações, indo-se à tal escola do punk. «O aspecto sócio-político é muito importante. Foi muito forte no final dos anos 1980, no fim da era Thatcher e da ameaça nuclear, e é daí que vimos, a influência do punk político. Mas anos de conservadorismo e capitalismo global filtraram tudo isso e, de alguma forma, despolitizaram as pessoas. Perdemos esse ângulo na música. Quando as pessoas entram na música e há uma dimensão política, há muita paixão envolvida, e isso faltou no decorrer dos anos 1990.»

O agora vocalista dos Memoriam regressaria aos Bolt Thrower durante um curto período de tempo entre 1997-1998 e depois de vez entre 2004-2016.

Antes de encerrarem actividades em 2016 devido à morte do baterista Martin Kearns no ano anterior, os Bolt Thrower tinham oferecido o seu canto do cisne… em 2005. E que canto!

“Those Once Loyal” é um marco histórico na carreira da banda e mesmo no death metal mundial, o álbum perfeito para a época em que o metal extremo começava a ressurgir. O impacto da ressurreição da música extrema foi tão grande que bandas como At the Gates voltavam a reunir-se.

Ser o último álbum – que só se veio a confirmar 11 anos depois do seu lançamento – tornou-o ainda mais relevante e querido, com Simon Mengs, baterista dos Deserted Fear, a comprová-lo ao incluir três músicas desse disco num top 10 que fez em 2019. A saber: “Entrenched”, “The Killchain” e “When Cannons Fade”. Sobre a última, referiu: «Esta é provavelmente a música de Bolt Thrower que mais ouvi. Na minha opinião, o álbum “Those Once Loyal” contém as melodias mais cativantes sem ser baratucho, e a “When Cannons Fade” representa-o muito bem.»

Uma reunião está infinitamente longe de acontecer, e o mais próximo que temos é Memoriam, que, diga-se, faz muito bem o seu trabalho ao preencher a lacuna deixada pela banda-mãe. Onde quer que esteja Karl Willets, está o antifascista de Bolt Thrower.

“Mercenary”, “Honour Valour Pride” e “Those Once Loyal” ganham nova vida com uma reedição pela Metal Blade Records, que podes adquirir aqui.