Formados em 1990, os Body Count são louvados pela arrojada direcção musical que quiseram tomar ao unir malhas de guitarra metal e vocais rap,... Vince Dennis: «Os Body Count fazem o que querem, não queremos saber»

«Honestamente penso que “Carnivore” é um dos melhores discos [de Body Count].»

Vince Dennis

Formados em 1990, os Body Count são louvados pela arrojada direcção musical que quiseram tomar ao unir malhas de guitarra metal e vocais rap, isto anos antes de Papa Roach e Linkin Park conquistarem as tabelas de assalto através de uma sonoridade semelhante que ficou conhecida como nu-metal e não apenas como rap-metal. Depois de um hiato que vigorou sensivelmente de 2006 a 2009, os Body Count de Ice-T e Ernie C têm vindo a experienciar bastante sucesso com álbuns de peso, como “Manslaughter”, “Bloodlust” e o novo “Carnivore”. Falámos com o baixista Vince Dennis que nos deu as suas primeiras impressões pessoais. «Tens o “Manslaughter” que foi basicamente o nosso “Beneath The Remains” dos Sepultura, tens o “Bloodlust” que foi basicamente o “Arise” dos Sepultura e tens o “Carnivore” que é basicamente o “Chaos A.D.” dos Sepultura. São todos bons discos, mas agora que o disco está feito podes olhar para o “Manslaughter” como o nosso “Kill ‘Em All” dos Metallica, podes olhar para o “Bloodlust” como o “Ride the Lightning” dos Metallica e agora podes olhar para o “Carnivore” como o nosso “Master of Puppets”. Todos bons discos, mas todo têm algo diferente e vão ser sempre melhores. Quero dizer, honestamente penso que “Carnivore” é um dos melhores discos.»

Com os três convidados especiais Riley Gale dos Power Trip, Jamey Jasta dos Hatebreed e Amy Lee dos Evanescence, é o último nome que mais se destaca neste trio pelas proporções comerciais de Evanescence e pela diferença sonora que o seu background representa, não tendo nenhuma relação óbvia ao metal mais duro, punk e hardcore como os outros dois colegas de profissão. Amy Lee surge na faixa “When I’m Gone”, um tema bastante emocional em que Ice-T se inspirou no homicídio de Nipsey Hussle. Vince Dennis conta como tudo se desenrolou. «Bem, para dizer a verdade, foi uma surpresa para mim. Pensei no Chino [Deftones] para uma música, Howard Jones [ex-Killswitch Engage], Alissa dos Arch Enemy – todas estas diferentes pessoas em mente para entrarem no disco, mas não estava a conseguir pôr ninguém em cima da mesa. Falei com um amigo e ele perguntou: ‘O que se está a passar?’ E eu: ‘Meu, não consigo arranjar ninguém para esta música.’ E ele: ‘Por que não tentar a Amy Lee dos Evanescence?’ E eu: ‘O quê? Faz isso, não interessa. Liga-lhe, vamos fazê-lo.’ Ele chegou até ela e ela ficou muito entusiasmada. E nota que eu nem sabia o que estava a acontecer, porque eu estava na Europa, não estava a fazer telefonemas, só conseguia chegar até ele [o amigo] por e-mail, e ele estava muito ocupado a filmar e tudo o mais. Portanto, a Amy mandou-me as suas partes. O Ice usa o seu SUV como A&R – sempre que uma música é enviada para o Ice, ele toca-a para as pessoas no set, porque há metaleiros no set. Não lhe disse que tinha uma música com a Amy Lee, só disse que estava em cima da mesa e ele precisava de saber o que estava a acontecer. Por isso mandei-lhe a música, ele mandou-me um SMS a dizer: ‘Vince, como é que conseguiste isto? Toda a gente no trabalho conhece a voz desta rapariga! Vamos fazê-lo!’ O resto é história. Acho que é uma música do caraças, ficou óptima. Quanto aos fãs de Body Count, acho que vão gostar porque os Body Count fazem o que querem, não queremos saber. Quero dizer, fazemos o que quer que seja, porque Body Count sempre foi uma banda que fez o que sempre quis. Podemos tocar com Guns ‘N’ Roses, Nine Inche Nails, Alice In Chains, Jane’s Addiction, Rolling Stones – tocamos com quem quer que seja. Não temos uma escolha certa, não nos podem pôr num caixote, por assim dizer. Foi do tipo: ‘Vamos fazer isto!’»

Em temas de um passado recente, os Body Count ofereceram-nos músicas orelhudas e cheias de groove melódico, como “This Is Why We Ride” e “No Lives Matter”. Contudo, quem ouvir o novo disco perceberá rapidamente que “Carnivore” foge desses territórios, apresentando-se mais rijo e cru, mais directo e mesmo na cara, mas tudo com uma produção exemplar e de topo. Em poucas palavras, Vince Dennis diz-nos quem são os Body Count e como vêem a precariedade social e cívica do mundo. «Basicamente, Body Count é uma banda que, como toda a gente sabe, foi formada em South Central, e basicamente era sobre contar como era viver em South Central e viver em Los Angeles, mas à medida que a banda cresceu tem sido sobre o que acontece nos Estados Unidos. Agora que a banda tem ficado maior, as pessoas compreendem que isto não está a acontecer só em South Central, não está a acontecer só nos Estados Unidos, não é só em Chicago, não é só em Nova Iorque – está tudo a acontecer no mundo inteiro. Tens polícias a morrer, polícias a matar outras pessoas, tens espancamentos – toda esta maluqueira não está a acontecer só nos Estados Unidos ou em South Central, está a acontecer no mundo todo. Viajo muito, vou a países diferentes, vejo as notícias, e digo: ‘Meu, está tudo maluco!’ Não importa onde estou, não é só nos Estado Unidos ou em LA ou em South Central, é em todo o lado. Basicamente, as letras do Ice-T dizem: ‘Ei meu, é isto que está mesmo a acontecer, quer ouças, quer não, porque isto está mesmo a acontecer.’»

“The Hate Is Real” fecha o álbum e é, para a Metal Hammer Portugal, uma das melhores composições deste registo, se não mesmo a melhor. Para além de a ala musical ser atraente, o título e o conceito das letras resumem tudo facilmente. Com esta música como fundo, perguntámos ao baixista se a mudança virá de um novo tipo de educação nas escolas ou se precisamos de algo utópico que nos ultrapassa enquanto meros mortais. «Basicamente, todo o ódio e essa cena toda começou com os nossos antepassados e os nossos ancestrais que nos ensinaram o ódio. Por isso toda a gente sabe odiar esta e aquela pessoa – é rico, é pobre, é preto, é branco, é castanho, é verde, é aquilo, não podes gostar dele, não sejas amigo dele. É algo que nunca… Não posso dizer que nunca será corrigido, mas sei que nunca será corrigido porque as pessoas ensinaram-nos isso quando crescemos e vemo-lo em todo o lado porque ninguém foi educado em condições. Não vai acontecer nas escolas, começa em casa, começa com as famílias mais do que na escola, porque podes aprender na escola mas depois vais para casa e a tua mãe, o teu pai, a tua avó, o teu avô vão dizer-te algo diferente.»

Body Count e Ice-T em particular sempre tiveram algo a dizer, sempre tiveram algo a ensinar sobre a vida nas ruas e nos bairros mais perigosos – o mundialmente famoso street knowledge. Sabendo que a banda tenta consciencializar e meter o dedo na ferida através da sua música, a Metal Hammer Portugal também quis descobrir como é que Vince Dennis se comporta na sua comunidade. «O que tento fazer pela minha comunidade, onde vivo, é ser bom e útil para toda a gente na minha vizinhança. Sorrir, não ficar furioso, não fazer nada… Estás a ver? É assim que é porque as pessoas são doidas nestes dias. [risos] Podes olhar para alguém de forma errada e levas um tiro. É tudo mais maluco agora, porque agora tens gente de todo o mundo a viver nos Estados Unidos, trazem a sua cultura. Está tudo maluco no mundo todo, mas tento ser agradável e amável para toda a gente.»

“Carnivore” é o título do novo álbum dos Body Count e tem data de lançamento a 6 de Março pela Century Media Records.