Os doomsters de Birmingham Black Sabbath iniciaram-se como Earth em 1968, antes de mudar de nome um ano depois, obtendo inspiração num filme de... Black Sabbath: 48 anos de “Master of Reality”

Os doomsters de Birmingham, Black Sabbath, iniciaram-se como Earth em 1968, antes de mudar de nome um ano depois, obtendo inspiração num filme de terror italiano com o mesmo nome. Em 1970, gravaram e lançaram os seus dois primeiros álbuns, “Black Sabbath” e “Paranoid”. No processo, não apenas se tornaram numa força comercial, mas efectivamente inventaram o heavy metal como o conhecemos.

«Os Black Sabbath eram muito diferentes de tudo o resto na época», insiste o baterista Bill Ward. «As nossas letras eram especialmente incomuns. Éramos mais sombrios e mórbidos do que qualquer outra banda. Todos nós viemos de meios difíceis, e isso reflectiu-se nas nossas composições.»

Após o sucesso global de “Paranoid”, Bill, juntamente com o vocalista Ozzy Osbourne, o guitarrista Tony Iommi e o baixista Geezer Butler, prepararam-se para o que viria a tornar-se num dos discos mais célebres e cruciais da sua carreira.

Como nos álbuns anteriores, os Sabbath trabalharam novamente com o produtor Rodger Bain e o futuro produtor dos Judas Priest, Tom Allom.

«Porquê mudar aquilo que funcionou antes? Nós conhecíamos e gostávamos do Rodger e do Tom. No entanto, acho que eles devem ter achado que éramos difíceis de se trabalhar com “Master Of Reality”. Anteriormente, não tínhamos a menor ideia do que fazer em estúdio e dependíamos muito deles. Mas [nessa altura] passávamos muito mais tempo juntos, entendíamos o que estava envolvido e opinávamos mais sobre como as coisas deveriam de ser feitas».

Esta não foi a única mudança nas sessões de gravação – que aconteceram nos Island Studios em Londres, de Fevereiro a Abril de 1971. Por exemplo, a banda agora tinha muito mais tempo à sua disposição.

«No primeiro álbum, tivemos dois dias para fazer tudo, e não muito mais tempo do que isso para terminar “Paranoid”. Mas agora podíamos aproveitar o tempo que tínhamos e experimentar coisas diferentes, e todos nós abraçámos essa oportunidade. O Tony tocou partes com a guitarra clássica, o baixo de Geezer foi praticamente duplicado em potência, eu utilizei bombos maiores e experimentei igualmente alguns overdubs. O Ozzy também esteve muito melhor.»

Foi também um disco em que a banda produziu um som mais pesado do que o habitual, com Tony e Geezer num tom mais baixo a criar o modelo musical do doom e do stoner.

«Acredito que “Master Of Reality” foi muito mais pesado do que qualquer outra coisa que tentámos antes. Tínhamos muito mais confiança e queríamos servir-nos dela correctamente. Nos dois álbuns anteriores, tínhamos tão pouco tempo que tudo o que podíamos fazer era gravar como uma banda ao vivo – era esse o nosso ponto forte, de qualquer das formas. Demos tantos concertos que ficámos muito apertados de tempo. No entanto, foi a primeira vez em que não tínhamos concertos marcados e poderíamos concentrar-nos em fazer deste disco um marco.»

Os Black Sabbath eram também capazes de manter os seus excessos e apetites controlados. A insanidade da indulgência ainda estava a alguns anos de os apanhar.

«Não vou fazer de conta de que não havia álcool e drogas por perto, porque estávamos a entrar nesse tipo de vida», admite Bill. «Mas naquela época ainda tínhamos controlo sobre esses hábitos. Eu podia beber e drogar-me no estúdio que isso não afectava a minha forma de tocar. Conseguia beber algo num pub e saber quando é que tinha que parar. Isso só se tornou um problema alguns anos depois. Gravar o terceiro disco foi bem mais importante do que abandonar as nossas cabeças.»

Liricamente, o álbum inspirou-se na guerra, religião e drogas. Quanto ao primeiro tema, “Children of the Grave” foi uma potente e poderosa declaração contra a guerra. Um sucessor surpreendente de “War Pigs”, do álbum “Paranoid”…

«É um workshop de música pesada. Mesmo quando tocámos esse tema na tour de reunião em 2013, o público ficou doido. Eu sei que é popular no Reino Unido, mas na América deixou realmente uma marca. Quando começámos a dar concertos nos Estados Unidos, foi justamente quando os corpos e as baixas da guerra do Vietnam começaram a regressar.»

«Tivemos muitos soldados veteranos que apareceram nos concertos em cadeiras de rodas e vieram para a frente do palco durante essa música – como fizeram para “War Pigs” – a agitar as bandeiras e a cantar. Isso contribuiu para um momento muito emocional e selvagem.»

Outro momento significativo do álbum veio com “After Forever”, que surpreendeu muitas pessoas ao falar abertamente sobre o cristianismo. Estariam estes Sabbath a distanciarem-se do ocultismo e da imagem satânica do passado? Bill acredita que as implicações desse tema são profundas no que respeita à visão da banda sobre a vida.

«O que fizemos com “After Forever” foi fazer perguntas relevantes sobre a validade do cristianismo, em particular o catolicismo. Estávamos a expressar as nossas preocupações internas, perguntando a todos se estavam preparados para aceitar o que estava a ser dito, sem questionar se estava certo ou errado.»

«Anteriormente, discutimos o lado mais obscuro dessa temática – e acho que os Sabbath, enquanto banda, foram sempre uma força obscura -, mas não descartámos o cristianismo; agora estávamos a mostrar a nossa própria confusão sobre o significado de tudo isto.»

Para o baterista, este foi um ponto de viragem na forma como os Sabbath pensavam não apenas na sua sonoridade mas também na vida em geral.

«Por esta altura já tínhamos visto muito do mundo, graças à nossa agenda agitada, e isso mudou-nos enquanto pessoas. É algo inevitável. Estávamos a tentar descobrir quem éramos e qual era o nosso papel neste mundo. Pessoalmente ainda estava a tentar conciliar tudo. Tinha apenas 23 anos e viria a demorar alguns anos para descobrir-me e sentir-me mais confortável com quem eu era.»

«Mas aquilo que estávamos a fazer com “Master of Reality” … estava a questionar tudo. Estávamos nessa fase da nossa vida. Compusemos com base naquilo que estava a acontecer à volta da banda. Os Black Sabbath tinham-se tornado observadores da vida, algo que continuaria a acontecer até ao fim da década. Talvez tivéssemos sido um pouco mais influenciados pela fantasia no passado, mas agora não era isso que acontecia.»

Tal é reflectido no título do álbum, algo que não aconteceu nos dois discos anteriores – e foi posteriormente confirmado pela maioria dos outros títulos dos discos de Sabbath com a formação clássica. Bill acredita que isso aconteceu para reflectir o facto de que os membros da banda estavam longe de ser as estrelas de rock bem sucedidas que muitos temiam que se tornassem.

«Foi o Geezer ou o Ozzy quem se lembrou disso. Não tenho a certeza qual deles foi. Mas era apenas uma forma de dizer a toda a gente que não tínhamos perdido o contacto com as nossas raízes, e ainda éramos quatro tipos com os pés bem assentes no chão. Ainda fazíamos muitas coisas juntos – inclusive beber.»

Bill ressalta que o sucesso – que já era considerável nesta fase – não modificou a atitude da banda.

«Continuávamos a ser uns tipos humildes saídos de Birmingham. Para ser honesto, nessa altura não tínhamos possibilidade de gastar o dinheiro que ganhávamos, porque parecia que só fazíamos tours. Mas todos nós ainda nos sentíamos completamente ligados ao nosso público. Tivemos essa importante relação com os fãs, porque éramos iguais a eles.»

O álbum abriria com uma das faixas mais célebres da carreira da banda – “Sweet Leaf”. O tema tem início com alguém a tossir, algo que a maioria das bandas teria cortado imediatamente por considerar que não seria profissional, mas não para os Black Sabbath. Bill ainda está muito orgulhoso da ideia e defende o conceito com firmeza.

«Sim, isso foi feito deliberadamente e foi totalmente apropriado para a música, porque fala sobre erva.»

Quem foi então que tossiu em estúdio? A maioria das pessoas acha que deve ter sido Ozzy. Alguns sugeriram um roadie. Ambos estão errados. Bill revela o culpado…

«Foi o Tony Iommi! Tinha acabado de dar uma grande passa num charro. Já estávamos a gravar e foi a maneira perfeita de dar início ao disco.»

“Master Of Reality” foi lançado em Julho de 1971 e tornou-se imediatamente num grande sucesso. Nos Estados Unidos, o álbum não só alcançou a posição número 8 nas tabelas, vendendo antecipadamente meio milhão de cópias (o álbum já vendeu mais de dois milhões), mas chegou também ao número 5 no Reino Unido. Em comparação, “Paranoid” alcançou o número 12 nos Estados Unidos e o número 4 na ilha de Sua Majestade. Com isto, os Black Sabbath provavam que o sucesso experienciado em 1970 não tinha sido apenas um golpe de sorte.

Os Sabbath levavam também a cabo a tour mais bem sucedida até aos dias de hoje, permanecendo na estrada por um período de 14 meses, incluindo uma jornada de 22 dias totalmente esgotada em todo o Reino Unido, na Primavera de 1972. Estavam claramente a alcançar novos picos de conquistas. Bill relembra o período de “Master of Reality” como o fim de uma era, assim como o nascimento da próxima fase.

«Vejo sempre os três primeiros álbuns como parte do mesmo período de tempo. Mas para mim, foi “Master of Reality” que definiu o quão bom nos tornámos. A banda tinha alcançado o auge com esse trabalho. Embora eu goste de todos esses discos, este é aquele em que acredito que nos encontrámos. É o nosso verdadeiro primeiro álbum de estúdio. Também marcou um ponto em que começámos a transformar-nos em algo diferente.»

Hoje, 48 anos depois, “Master of Reality” não se destaca só por ser um grande disco, inspirando também sucessivas gerações de músicos.

«Eu sei que as pessoas acham que os Sabbath inventaram o heavy metal com o nosso álbum de estreia – e isso é verdade até certo ponto», conclui Bill, «mas acredito que com “Master Of Reality” provámos o potencial e o poder da música. É também um disco que mostra que não tivemos medo de dar a conhecer o nosso lado mais vulnerável e sensível.»

Ler o artigo original em inglês.