Hoje, dia 14 de Junho de 2019, pelas 19 horas, acontece na FNAC Colombo a apresentação de “Sexta-Feira 13”, dos nacionais Black Cross, uma... Black Cross: Sexta-Feira 13
Rui Subtil, Filipe Bombas e João Ramos

Hoje, dia 14 de Junho de 2019, pelas 19 horas, acontece na FNAC Colombo a apresentação de “Sexta-Feira 13”, dos nacionais Black Cross, uma reedição da demo de 1986 acompanhada por um livro da autoria de Luís Neto, que dá-nos a conhecer a história nunca antes contada daquela que é considerada a primeira banda portuguesa de black metal. As 180 páginas da obra contam o curto, mas intenso, percurso do colectivo do Barreiro através de documentos da época e com base em entrevistas aos membros e associados da banda, incluindo ainda um vasto conjunto de fotografias.

A Metal Hammer Portugal esteve à conversa com o baterista Filipe “Bombas” e com o autor Luís Neto. A edição do novo formato de “Sexta-Feira 13” é levada a cabo em parceria entre a Universal Tongue e a Sinais.

As pessoas não esqueceram os Black Cross.

Filipe “Bombas”

Como tem sido esta experiência de recordar a carreira dos Black Cross para levá-la não só ao livro mas também ao documentário “Heavy Metal Portugal”, de João Mendes?
Filipe “Bombas”: Não esperávamos ter uma aceitação tão grande quase 33 anos depois. A primeira edição do livro, segundo me disseram na editora, esgotou logo após uma hora. Ficamos satisfeitíssimos e depois, desde aí, tem havido procura constante, perguntas e interesse. As pessoas não esqueceram os Black Cross e continuam a querer saber daquilo que fazemos.

Como foi para ti ler sobre a tua própria história?
Filipe “Bombas”: Há vários testemunhos e cada pessoa, que lá foi dizendo alguma coisa, foi juntando algo do qual não me lembrava. Por exemplo, lembro-me de quando o Subtil [vocalista] fez aquele famoso mosh e aleijou-se numa perna devido à pulseira de três quilos de pregos que tinha, como o Kerry King. Saltou e aleijou-se. Eu tenho esse ponto de vista enquanto baterista, mas depois há o ponto de vista do baixista ou do guitarrista, ou de uma pessoa que viu, e isto tem vários desfechos. A história acaba por ser interessante porque completa-se e foi isso que o Luís Neto conseguiu fazer, ao pegar em todos os testemunhos e contar uma história mais completa que nem eu conhecia na totalidade.

Alguns de nós já não se vestem da mesma maneira [risos].

Filipe “Bombas”

Como foi o reencontro com os restantes membros da banda?
Filipe “Bombas”: Foi estranho. Alguns de nós já não se vestem da mesma maneira. [risos] Mas é sempre bom porque foi algo muito intenso que nós acreditávamos mesmo e é bom recordar histórias e amigos.

Na altura o que é que vos inspirou para trazerem o black metal até Portugal? Era uma sonoridade com a qual tinham muito contacto na altura?
Filipe “Bombas”: Não. Comecei a ouvir o heavy metal generalizado, com Black Sabbath, Led Zeppelin, Judas Priest… Antes até de aparecerem os Iron Maiden. Lembro-me de ter comprado o primeiro disco e de achar que aquilo não era bem metal e que era um bocado estranho [“Iron Maiden”, 1980], mas ao segundo disco [“Killers”, 1981] já estava melhor. Como tal, fui evoluindo e acompanhando o heavy metal desde o início, basicamente. Quando começámos, queríamos ter uma banda de heavy metal e tínhamos duas influências: gostávamos de cabedais, de picos e dessas coisas todas. Judas Priest eram os mestres desse visual, e depois tínhamos os Black Sabbath com aqueles temas pesados e a cruz. Foram essas as maiores influências para nós. Se nós tivéssemos aparecido nos anos 70, se calhar tínhamos sido apenas uma banda de heavy metal e nada mais. Naquela altura, nos anos 80, em que estavam a acontecer estas ramificações dentro do heavy metal, foi-nos dada a ramificação do black metal, o que nós achámos que até nos vestia muito bem. Foi isso que aconteceu.

Filipe Bombas

Trinta anos depois, como é que o vosso disco “Sexta-Feira 13” se encaixa na actualidade do metal em Portugal?
Filipe “Bombas”: Acho que o “Sexta-Feira 13” é um hit. A gravação é muito antiga e com os problemas todos que daí advinham. Nem toda a gente conseguia ter dinheiro para ir a um estúdio e muito menos conseguir que no estúdio nos ajudassem. Havia um grande abismo para conseguirmos falar com os técnicos daquela altura e hoje, felizmente, já não é assim. Tenho a certeza que se o “Sexta-Feira 13” fosse interpretado com a tecnologia e com os conhecimentos de hoje sairia com outra consistência.

Levávamos umas mioleiras e sangue para o palco mas íamos comprá-las ao talho [risos].

Filipe “Bombas”

Sentes que há interesse dos mais jovens em conhecer o trabalho de Black Cross?
Filipe “Bombas”: Creio que sim, até porque, não havendo telemóveis conforme há hoje, criou-se um certo mito à nossa volta. Encontro alguns rapazes que são filhos de amigos meus que andaram comigo na escola ou que foram meus companheiros, e sou quase o Tio Bombas. Querem saber o que é que se passava porque não existem muitos registos. Também já houve quem me dissesse que nós matávamos galinhas em palco e respondi que não chegámos a tanto. Não fizemos mal a animal nenhum. Levávamos umas mioleiras e sangue para o palco mas íamos comprá-las ao talho. [risos] Tudo dentro da lei.

Que razões apontas para o fim dos Black Cross?
Filipe “Bombas”: Muitas dificuldades de apoios de ordem familiar. Hoje, acho que se um filho que mostra interesse pela música chegar ao pé dos pais, eles dificilmente não lhe dão apoio. Antigamente não era assim. Se queríamos comprar um blusão de cabedal tínhamos que juntar o dinheiro para o comprar porque os pais eram contra; se queríamos umas calças de ganga rasgadas nos joelhos tínhamos que as esconder em vez de as pôr para lavar senão os nossos pais deitavam-nas fora quando viam aquilo roto. Depois chegámos à idade em que tínhamos que escolher a nossa vida profissional, e foi isso. Era, e ainda é, difícil conseguir um local de ensaios e uma bateria, e eu consegui isso, mas não conseguimos juntar as condições todas. Não foi o suficiente e decidimos acabar.


Senti que estava concluída a minha homenagem aos Black Cross.

Luís Neto

Como foi a experiência de passar para o papel as perspectivas dos vários intervenientes deste livro?
Luís Neto: Quando se pensou em algo mais do que um simples photobook que acompanhasse a reedição da demo, a ideia foi pegar nos mitos que acompanhavam o nome da banda. Posso adiantar que esses mitos, afinal de contas, não eram exagerados. Mas uma vez descortinados, deparámo-nos com outras aventuras, algumas hilariantes, e era impossível deixá-las de fora.
Foram dois anos de recolha em que entrevistei o trio mais do que uma vez. O Filipe [“Bombas”, baterista] é quem tem a memória mais viva, mas há histórias e pormenores que apenas os outros elementos poderiam contar na primeira pessoa. Isso valorizou muito a narrativa. Depois foi a pesquisa de materiais e dos outros intervenientes, como ex-membros, roadies, etc., que nos permitiram ter um quadro geral muito completo.
Enquanto experiência, acima de tudo, foi gratificante. Acredito que muitos que, como eu, estão na cena e aproveitam os seus tempos livres para fazer algo pelo metal – seja tocar, editar, fotografar ou escrever, mesmo que não haja compensação monetária -, o prazer de concluir algo é brutal. Senti também que estava concluída a minha homenagem aos Black Cross… Ou talvez não.

O que te levou a iniciar este desafio? Sentiste que a história dos Black Cross, acima de tudo, precisava de ser contada?
Luís Neto: Estudei na mesma escola secundária, embora em anos diferentes, que parte dos Black Cross e dos Ibéria. Conheci as primeiras bandas internacionais com a “Selva no Asfalto”, programa radiofónico realizado por João Ramos, o baixista de Black Cross. Em miúdo, estas entidades estavam enraizadas no meu imaginário metálico. A imagem de cabedal e correntes dos Black Cross e o termo Black Metal foram muito impactantes em mim. De tal forma que sempre fiquei ligado ao lado mais ‘evil’ do metal e no início dos 1990s estive muito dedicado ao black metal, especialmente pela zine que fiz e pela compilação “Teach Your Soul With Fire”, que acabou por ganhar algum estatuto no underground nacional e não só. Dediquei o primeiro volume dessa compilação aos Black Cross, mas sempre senti que podia expressar a minha homenagem de forma mais vincada.
Actualmente sobravam poucas evidências da passagem do grupo pelo nosso panorama, até que o Filipe e o Rui [Subtil, vocalista] começam a colocar algumas fotos de então no Facebbok. Eram memoráveis e pensei em fazer um photobook com elas. Apresentei a ideia aos meus amigos e editores Luís Sobral e Fernando Rebelo (que se preparava para lançar a reedição da demo), falámos com os elementos da banda e a coisa avançou. No entanto, durante o processo, as histórias vêm à tona, e sentimos que era uma boa oportunidade para edificar os célebres mitos do mosh com a pulseira de pregos e o vídeo da campanha contra a droga.

O que sentiste em relação à banda e aos seus membros assim que o livro ficou concluído? Ou seja, houve algo que tenha mudado na forma como os vias até então?
Luís Neto: Em 1986 eu tinha 14 anos. Os Black Cross eram muito mais velhos e não presenciei algumas das histórias que se contavam. Curiosamente, os célebres concertos nos Ferroviários decorreram a 400 metros da minha casa. Eu acabava de entrar no metal, muito por culpa deles, mas ainda não estava totalmente entrosado com os ciclos e os meios de comunicação que lhes eram próprios. Hoje já não os vejo como aqueles gajos quase adultos, mas num mesmo patamar de maturidade (ou falta dela). Acabei por conhecer melhor os dois membros com quem não mantive o contacto mais tarde. Percebi que as suas distintas personalidades explicam na perfeição as histórias de há 30 anos. A sua impulsividade, sentido de imagem, frontalidade e atitude provocatória estão ainda presentes neles e explicam muito do que se conta no livro.

A edição de 2019 de “Sexta-Feira 13” pode ser adquirida nesta ligação.

João Ramos, Rui Subtil e Filipe Bombas

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