Após várias merecidas audições, é certo que saímos com um espírito perfurado e, quiçá, renovado, mais aberto à escuridão que tantas vezes teimamos em... Black Cilice “Transfixion of Spirits”

Editora: Iron Bonehead Productions
Data de lançamento: 06.09.2019
Género: black metal
Nota: 4/5

Se com o terceiro LP “Mysteries” (2015), o projecto português Black Cilice tomou de assalto o underground black metal, com “Banished from Time” (2017) o passo dado em frente teve ainda mais significância através de um disco melancólico, triste, quase-depressivo de tempos a tempos e sempre sujo.

Dois anos depois, esta entidade enigmática continua firme e exploratória com a novidade “Transfixion of Spirits”, um LP que, de certa forma, segue as pisadas do seu antecessor sem esquecer a fúria de lançamentos ainda mais antigos. A idiossincrasia de Black Cilice é insaciável e daí é originado um corpo que aparenta ser monolítico, mas que, na realidade, não é. Embora a inaugural “Darkness and Fog” pareça ser uma composição formada de uma só pedra, o seu crescimento evidencia notórias camadas sonoras que se aplicam correctamente ao título e que vão de encontro à fusão entre “Banished from Time” e “Mysteries”.

As seguintes “Maze of Spirits” e “Outerbody Incarnation” abrem um novo portal em Black Cilice com as suas toadas melódicas que apenas são abafadas pela produção crua – e nem podia ser doutra forma quando falamos de uma banda como esta. Assim, os leads de guitarra, sempre densos e sem texturas cristalinas, propagam toda uma nova abordagem sónica e sensorial à qual podemos não estar habituados em lançamentos de Black Cilice. Porém, e por mais que haja uma energia melancólica, não podemos afirmar que se ouve e sente depressão, apenas uma postura de autoflagelação que encontra alívio na maneira como se emana a melodia fatalista. Por outro lado, a final “Revelations” regressa, em certa medida, ao início do álbum devido à crueldade e opressão sonora dos seus 11 minutos de duração.

Por mais suja que a produção seja – e é intencional –, “Transfixion of Spirits” é imensamente denso e atmosférico, cheio de camadas sonoras que se unem num só sem nunca se perder a individualidade de cada peça. Por outras palavras, e de forma quase poética, é um trabalho tão espesso e emocional que a ala rítmica que se ouve à retaguarda funciona como uma orquestra fúnebre.

“Transfixion of Spirits” não é um álbum para toda a gente. É para quem idolatra, compreende e segue o black metal profundo de perto; e isto é escrito sem qualquer pretensão elitista, pois a realidade do panorama da música extrema diz-nos que black metal é, e sempre será, um subgénero mal-amado por uns e incompreendido por outros.

Após várias merecidas audições, é certo que saímos com um espírito perfurado e, quiçá, renovado, mais aberto à escuridão que tantas vezes teimamos em aceitar que existe dentro de nós e que não pode ser aprisionada para sempre.