Os Berzerker Legion foram fundados em 2016 pelos guitarristas Tomas Elofsson, dos Hypocrisy, e Alwin Zuur, dos Asphyx. Com o objectivo comum de criar... Berzerker Legion: Legião do death metal melódico

Os Berzerker Legion foram fundados em 2016 pelos guitarristas Tomas Elofsson, dos Hypocrisy, e Alwin Zuur, dos Asphyx. Com o objectivo comum de criar death metal beligerante, foram recrutados músicos extraídos de nomes bem sólidos da cena metal mundial, como James Stewart (Vader, bateria), Jonny Pettersson (Wombbath, vocais) e Fredrik Isaksson (Dark Funeral, baixo). Com a legião completa e o disco de estreia “Obliterate The Weak” a protagonizar uma das primeiras grandes surpresas de 2020, a Metal Hammer Portugal não resistiu a trocar algumas palavras com Alwin Zuur.

Devo começar por dizer-te que fiquei surpreendido ao ouvir Berzerker Legion. Sendo a banda o resultado da visão partilhada entre ti e o Tomas, para além do facto de vocês serem pessoas muito ocupadas, dirias que foi um desafio encontrar outros músicos dispostos a trabalhar as tuas ideias e a levar a banda um passo em frente?

Foi um pouco desafiante. Eu e o Tomas já nos tínhamos encontrado por diversas vezes. Já tocámos juntos com Hypocrisy e estávamos constantemente a falar de música, o que nos levou a perceber que ambos gostávamos do mesmo estilo de death metal. Foi daquelas situações em que estás a beber uma cerveja e dizes ‘devíamos de fazer algo juntos’ [risos]. Durante muitos anos não aconteceu nada (creio que começamos a trocar riffs por volta de 2015), mas depois quando já tínhamos um par de temas criados percebemos que tínhamos ali algo bom, pelo que ficamos motivados para compor mais músicas e lançar um álbum. Foi só aí que começamos a pensar em outros membros para completar a banda, e uma vez que tocamos em bandas conhecidas temos o prazer de conhecer muitas pessoas. Como eu vivo na Holanda e o Tomas na Suécia, quisemos criar uma banda europeia. O material criado pelo Tomas exige muita velocidade na bateria, algo que não está ao alcance de um baterista qualquer. O Tomas conhecia o James [Stewart] dos Vader e sabia que era alguém capaz de dominar o duplo bombo, e felizmente aceitou o desafio.

Quando começaram a trabalhar nas músicas, já sabiam que tinham este nível de criatividade algures aí à espera de se materializar? É que estamos a falar de uma sonoridade death metal com vida própria, com todas essas harmonias e até uma atmosfera que sai das guitarras, e em que a voz não é só gritar por gritar mas parece que vem da alma…

Eu e o Tomas somos pessoas com maneiras diferentes de compor música. Falando por mim, sou muito fã das bandas que fizeram parte da cena inicial de Gotemburgo. Se ouvires os primeiros discos de At The Gates ou In Flames vais perceber essa ligação aos primeiros anos da década de 1990. Sou músico há muito tempo mas acredito que com os Berzerker Legion evoluí bastante enquanto compositor. Fiz parte de uma banda chamada Escutcheon que editou dois álbuns, em que o primeiro saiu em 2002. O segundo álbum, lançado em 2009, contém muitas ideias da minha autoria, em que já utilizava essas harmonias que referes. Contudo, com os Berzerker Legion sinto que tornei-me melhor. São temas mais directos e primitivos, como “A World In Despair” ou “Of Blood And Ash”, onde podes ouvir influências de At The Gates mas melhor trabalhadas. Foi como se procurássemos trazer a primeira metade dos anos 90 para os tempos actuais. Contudo, não componho com o propósito de fazer a minha música soar death metal ou apresentar uma determinada influência. Componho, sim, com o coração, e se no coração sentes que o que fazes é bom, então significa que é bom. Creio que todos fizemos um bom trabalho e que o som que apresentamos é algo que já não se ouvia há alguns anos na cena metal.

Mostraste estas novas ideias aos teus colegas dos Asphyx? Como foi o feedback?

Claro! Tenho muitos amigos a quem mostrei o meu trabalho. É uma sonoridade completamente diferente de Asphyx, como é óbvio, e se trabalhasse nas músicas de Berzerker Legion (onde toco guitarra) seguindo o que faço nos Asphyx com o baixo, seria aborrecido. Mas é completamente diferente e foi algo propositado, porque se tocas em duas bandas com estilos semelhantes, não acho que isso vá trazer algo de novo. Mostrei-lhe as músicas e ficaram surpreendidos, especialmente com a produção. O Martin [van Drunen, vocalista dos Asphyx] não é propriamente do tipo melódico mas ficou realmente surpreso com o que ouviu e achou que soava profissional. O Tomas também mostrou o disco ao Peter Tägtgren [Hypocrisy] e disse-nos que era um disco profissional, com muito groove, e que é um álbum esmagador!

Uma vez que têm muitos compromissos com as vossas outras bandas, podemos esperar ver Berzerker Legion na estrada?

Todos nós estamos bastante activos nas nossas outras bandas mas foi um assunto que já abordámos e todos queremos fazê-lo. Para nós isto não é só um projecto mas sim uma banda onde demos o litro para terminar este álbum. Temos uma excelente comunicação e estamos a analisar as nossas agendas de forma a encontrarmos datas compatíveis para levar Berzerker Legion aos palcos. Já temos um par de datas confirmadas, na Suécia e na Alemanha, o que já é alguma coisa. Para além disso, concordámos no início que tocar ao vivo é algo bom para a banda, de forma a promover o nosso trabalho e mostrar ao mundo que existimos. Então, foi decidido que se um de nós não estiver disponível para tocar num concerto, que o substituiremos por um músico convidado.

Dirias que existe alguém insubstituível na banda?

Só o Jonny [Pettersson], por ser o vocalista. No entanto, conheço muitos guitarristas que sabem tocar dez vezes melhor do que eu, pelo que se existir a oportunidade de tocar num festival e eu não estiver disponível, é do interesse da banda dar esse concerto na mesma para que possamos crescer, pelo que também sou substituível. Basicamente, queremos que pelo menos 80% da formação original esteja presente.

Consideras Berzerker Legion um supergrupo ou uma legião?

Ah, não! Não somos um supergrupo. [risos] Sou apenas um fã de metal que adora tocar este estilo musical. Não me vejo como um grande artista ou um músico conhecido, sou apenas eu. Com Berzerker Legion sou apenas eu a tocar guitarra. Claro que percebo que muitas pessoas possam rotular-nos como um supergrupo mas somos tipos comuns e humildes que gostam de tocar death metal. Somos apenas uma legião! [risos] Apesar de virmos de bandas conhecidas do meio, foi difícil de encontrar uma editora, pois embora tenhamos vindo de nomes com algum reconhecimento não deixamos de ser uma banda nova, com muitas provas para dar ao mundo. Não é garantido que se consiga automaticamente uma oferta da Nuclear Blast. Temos que começar por baixo. Enviei a promo a várias editoras e eventualmente a Listenable Records demonstrou interesse, que é uma editora com a qual sempre quis editar um disco. É uma excelente editora para se começar, com uma boa equipa, boa promoção e bons discos.

Sim, de facto foi a Listenable Records que me convenceu a fazer esta entrevista por telefone, pois é um método que preferimos reservar para nomes maiores da cena metal. Depois de ouvir o disco percebi a insistência e sabia que era algo que tinha mesmo de fazer.

Apesar de tudo, não é fácil para nós e não é por virmos de bandas mais conhecidas que as coisas nos aparecem à frente. Temos que trabalhar para isso e dar o nosso melhor.

Estás a fazer a tua parte e vejo coisas muito positivas a acontecerem aos Berzerker Legion.

Sou como um líder no grupo e procuro fazer o máximo possível pela banda. Posso dizer que isto tira-me muita energia e é até muito stressante [risos] mas estamos muito felizes. Como os meus colegas estão em tour fiquei eu responsável por todas as entrevistas. O metal é a minha vida e não consigo conceber a minha existência sem metal. Faz parte do trabalho, ainda que continue a ser apenas um hobby.

Quando começaste a compor com o Tomas, as vossas primeiras ideias resultaram de forma a poderem ser ouvidas neste disco ou foi preciso alguma adaptação até encontraram o som certo?

É engraçado referires isso porque eu e o Tomas somos como irmãos e quando falamos sobre iniciar esta banda e trocámos os primeiros riffs, sentimos logo que era aquilo. Sabíamos que estávamos a caminhar na mesma direcção. Eu componho algo e envio aos outros, o Tomas compõe algo e envia-nos, e um de nós vai ter sempre um comentário com o objectivo de melhorar a música. No meu caso, faço algumas alterações para deixar toda a gente contente e é assim o processo de composição da banda. Todas as nossas ideias funcionaram e gravámos até dois temas adicionais que não entraram porque seriam uns quinze minutos a mais Ficam para o próximo disco! [risos]

Já tens, então, algumas ideias para o próximo disco?

Por acaso até não. [risos] Depois de terminadas todas as entrevistas vou precisar de descansar um pouco, pois o meu trabalho com Berzerker Legion não é só a música; é a artwork, o layout, todas estas coisas. Preciso de organizar-me, voltar a compor e depois gravar, pois já são dois anos seguidos de trabalho com esta banda. Agora quero desfrutar deste primeiro lançamento e depois disso quero tentar encaixar concertos de Berzerker Legion nas nossas agendas. Tenho uma pergunta para ti. Já tens algum tema favorito?

Sim, claro! “I Am The Legion” e “Of Blood And Ash” são os meus temas preferidos.

Oh, percebo! “I Am The Legion” é uma música do Tomas e eu compus “Of Blood And Ash”.

Mas, por exemplo, até a vossa introdução é excelente.

Também é uma composição minha.

É? Não é costume ouvir as intros e passo logo para a faixa seguinte mas não consegui fazê-lo aqui. É uma introdução realmente muito bonita.

Eu percebo-te. Foi algo que criei ainda antes de Berzerker Legion. Tinha-a no meu computador e ainda sinto que as harmonias lá presentes são muito bonitas.

Verdade. Não gosto de adjectivar música como “bonita” mas é a melhor palavra que encontro para a descrever. Percebe-se que puseste a tua alma e coração nesta composição. Fiquei feliz por ter tido a oportunidade de ouvi-la.

Por vezes, quando tens um dia mau ou sentes-te triste, se fores compor algo vais senti-lo mais tarde quando voltares a ouvir. Podes estar num estado completamente diferente mas a emoção original fica lá. O mesmo acontece quando estou irritado, em que componho riffs brutais de death metal! [risos]

A vida é mesmo assim. Sempre senti que em qualquer momento ou experiência que vivemos há uma lição a retirar daí. Até quando perco alguém, as lições que retiro daí são tão… Não quero dizer “gratificantes” porque a morte é algo trágico mas já aprendi tanto com isso que mudou completamente a minha vida. A música tem todo este poder…

Estás correcto. Compus o tema “The King Of All Masters” durante um período muito triste da minha vida, pelo que tem um ritmo mais lento, quase épico, e há muitas emoções presentes. Sempre que a ouço recordo-me desse período mas ao mesmo tempo percebo que emanam muitos sentimentos dali e é isso que amo na música. Compus seis músicas para este disco e foi algo que fiz com paixão. São temas bonitos porque até no death metal podes encontrar e sentir a beleza.

Tens o exemplo dos At The Gates. No último álbum têm uma música chamada “Daggers Of Black Haze” e não há outra palavra para a descrever que não seja “bela”. Há tantas emoções ali… É death metal feito de uma maneira muito bonita.

O álbum deles de 1993 [“With Fear I Kiss the Burning Darkness”] tem uma música chamada “The Burning Darkness”. Gostava que fosse tocada no meu funeral. Claro que antes disso preciso de editar mais discos dos Berzerker Legion! [risos]

Espero bem que sim!

Gosto muito deste álbum. Acho que oferece diversidade, é dinâmico e poderoso. Podes ouvir harmonias e melodias do início ao fim mas ao mesmo tempo oferece um compasso brutal. A produção é boa e podes ouvir cada um dos instrumentos na música. Pessoalmente, acredito que fizemos um bom trabalho e estou muito orgulhoso deste lançamento. Espero que os fãs de metal portugueses sintam o mesmo.

“Obliterate The Weak”, dos Berzerker Legion”, pode ser adquirido aqui ou aqui.