Se gostam de violência, terror e velocidade, vão ficar satisfeitos com este pica-miolos e o crânio espatifado. Beneath The Massacre “Fearmonger”

Editora: Century Media Records
Data de lançamento: 28.02.2020
Género: technical death metal
Nota: 3/5

Preparem-se para o massacre aural deste projecto tech-death do Québec, Montreal, Canadá. Beneath The Massacre (BTE) é o projecto dos irmãos Bradley – Christopher na guitarra, Dennis no baixo. O bilhete de identidade dos BTE diz que vieram a este mundo em 2005 com o EP “Evidence of Inequity”. Mais à frente, e entre os manos, anda o Elliot Desgagnés com um vozeirão que faz o Adamastor borrar-se todo. A bateria divide-se por dois – o efectivo Anthony Barone e Patrice Hamelin, um precário a recibos verdes que só aparece nos concertos para ajudar a partir tudo. Desde 2012 que não davam notícias, porque a vida, enfim, não permite a ninguém, que invista na música extrema por circuitos underground, o ganha-pão suficiente para resistir às pressões da vida dos comuns mortais sem ter de se sujeitar a um ‘das 9 às 5’ que ofereça algum retorno para subsistir.

Talvez por isso, esta banda, que já deu umas centenas de concertos entre dois continentes e que chegou a ser considerada a Banda Underground do Ano por uma Metal Hammer, tivesse sido obrigada a repousar desde 2012, ano em que editaram “Incongruous”, até agora, 2020, para o lançamento deste “Fearmonger”. Não há regressos, a música é um movimento perpétuo, é para continuar.

“Fearmonger” foi muito bem cuidado, levou oito meses a gravar, misturar e masterizar sob a batuta do guru dos Cryptopsy e dos estúdios The Grid Productions, Christian Donaldson. Dizem que foi um processo lento, descontraído e muito bem estudado. Foi de tal maneira que o resultado chegou aos ouvidos da Century Media, quando ninguém contava com isso, uma vez que o álbum ia ser editado pela banda de forma autónoma. 

Para gáudio do pessoal do speed-thrash, “Fearmonger” oferece uma intensa meia hora duma brutal selvajaria a que nenhum amante da velocidade e da música extrema se pode negar. É à antiga, a cru e sem distorção. Um quarteto clássico de voz, baixo, bateria e guitarra, sem produções atrofiadas, tudo puramente orgânico e dotado de uma pujança sobrenatural e destruidora. Do lado de cá desta extremidade underground só há que agradecer. Não é qualquer um que está para aturar as debilidades duma cena musical decadente e voltar ao activo oito anos depois, ainda para mais no estado em que isto está – saturado.

“Fearmonger” tresanda a old-school, com certificado de garantia logo no primeiro tema “Rise of The Fearmonger”. Apesar dos dez temas soarem muito homogéneos, há uns mais interessantes e assanhados do que outros, como é o caso de “Autonomous Mind”, “Return to Medusa” e “Flickering Light”. 

Se gostam de violência, terror e velocidade, vão ficar satisfeitos com este pica-miolos e o crânio espatifado. O zig-zag enlouquecido da guitarra de Christopher Bradley que enreda os ritmos a jacto das batidas pneumáticas das baquetas e do bombo de Barone é um absurdo. Esta trupe são cavalos de corrida. Se o pessoal das motas de Isle of Wight ou os aceleras da Vasco da Gama um dia se lembram de usar Beneath the Massacre para banda-sonora das suas perícias, então sim, vai ser um verdadeiro massacre contra a prevenção rodoviária e segurança pública.

Convém esclarecer que o heavy metal está a fazer 50 anos e nasceu para contrariar o establishment da indústria. É natural que nesta altura já tenham sido ultrapassados alguns traumas, e agora surjam novos traumas, novas manifestações, explosões e o diabo a sete, com muito maior violência e brutalidade, o que só espelha a realidade do quotidiano. Convenhamos que o quotidiano é obscenamente mais bruto e violento, ultrapassando facilmente estas ficções geradas em laboratório por meia dúzia de pessoal que ainda assim prefere os estúdios e os concertos para soltar a ira. 

Entrar a fundo em “Fearmonger” é alucinante. A guitarra ressoa como o assobio dum enxame de vespas em zig-zag junto ao ouvido, e a bateria parece estar num exercício de fogo real em que o pelotão da frente dispara morteiros de rajada que nos rebentam ao lado. É um pesadelo tão real como a temática que serve a mensagem lírica de “Fearmonger”, e sobre a qual Desgagnés vai cuspindo ferro e fogo. Muita da alma deste disco reflecte sobre a actual condição humana e pretende combater o populismo que alastra mundialmente. É uma expressão muito pessoal da frustração de Elliot Desgagnés contra a forma como a sociedade está a ser conduzida. Não é só mais um gajo aos berros, é um manifesto que saliva de raiva por nos andarem a tratar por burros.