Basalto “Odor”

Reviews 1 de Novembro, 2019 João Rolo

Os Basalto pegaram de estaca. "Odor" é um álbum pesado e austero, de uma tocante rusticidade. Basalto “Odor”

Editora: Fuck Off and DIY
Data de lançamento: 01.11.2019
Género: stoner/doom metal
Nota: 4/5

Depois de “Basalto” (2016) e “Doença”​ (2017), António Baptista (guitarra), Nuno Mendonça (baixo) e João Lugatte (bateria) entraram novamente em estúdio, no passado mês de Agosto, para a gravação deste “Odor”, o novo álbum composto pelos temas “XIII”, “XIV”, “XV”, e XVI”, que vêm dar continuidade à sequência iniciada na sua discografia. Segundo afirmam os autores, a opção de seguir a numeração romana, ao longo da continuidade das músicas, é uma forma de registar a evolução do projecto na procura duma identidade própria. Captação, mistura e masterização foram novamente da responsabilidade de António Baptista, sendo o processo de gravação muito mais cuidado do que nas gravações anteriores.

“Odor” mantém o espírito das jams que conduziram à reunião inicial dos três músicos e à formação deste projecto. Ao terceiro álbum, nota-se uma acentuada prevalência da lentidão dos ritmos doom em detrimento do stoner rock mais ou menos psicadélico do passado. Este é um registo que nos remete para outras paragens, mais subterrâneas, claustrofóbicas, e cavernosas, menos áridas, menos amplas ou infinitas do que as sugeridas pelo stoner desert rock.

Se no anterior “Doença” os Basalto aludiam à aura mais negra contida no álbum, então agora ela adensa-se erguendo um gigantesco e robusto muro sonoro. O novo “Odor”, à semelhança de “Doença”, volta a ser inspirado por um texto de Martim Sousa, o escritor da banda. O poema “Odor” é dividido e declamado ao longo dos quatro temas, no que podemos chamar de “primeira parte” de cada tema, sendo que num segundo momento, o que é comum a todos, evoluem num registo exclusivamente instrumental. Bem, não será exactamente declamado, isto será mais vociferado pela troada de António Baptista que dá vida à obscuridade e à atmosfera negra do próprio texto, como podem ler na transcrição do poema. Outra impressão colhida numa primeira audição é a forma que perpassa o esquema de composição das quatro faixas: todas obedecem a um langor paquidérmico numa cadência progressiva com a cumplicidade dos três instrumentistas.

XIII
“um a um arranco os dedos, térreos dedos arranco, / enterro-os em húmus, na terra, aos pés, os dedos, / humedecem no chão, o cheiro disso, os gritos, húmus, / no chão, cheiros e gritos, o espelho do coração (…)”
Doze minutos cujo início é marcado pela introdução ao poema de Martim Sousa. O doom não se quer bonito, “XIII” começa a desvendar o que o resto do álbum tem para oferecer: um pulsar sombrio, lava que alastra até o magma solidificar denso e rugoso, no ambiente austero duma noite lentíssima.

XIV
” (…) sem mão, o sangue ferve, os dedos no chão, sem mão, / ávidos os odores estremecem lavrando em chamas, no chão. / arranquei os dedos, animais os cheiros de mim ao lume / apodrecem nos nervos, no nariz sou o último olfacto.”
Apesar do tom gutural das vocalizações, a voz soa limpa com nitidez, percebendo-se claramente o poema. “O sangue ferve…” neste segundo tema em que entramos em passo mais acelerado, bélico até, marcado por uma frase de guitarra que se movimenta numa toada pendular, hipnótica, melancólica e viciante, com um efeito quase cinematográfico.

XV
” (…) a carne fora exala, freme, ofegante queima, no chão, / já quase enxuta, apodrece, pungente cai e fundo grita. / do poço ao mundo, trilhos agros fedem;/ nos pulsos quentes, sulcos de noites baças / exalam os amargores das poeiras glaucas;/ do centro do tédio, a osmologia haure.”
A terra estremece “…no chãooo, no chãooo, no chãooo”. Da vocalização à afinação da guitarra, bem podia ser Mão Morta. Este tema fica ainda marcado por um detalhe de belo efeito no trinar da guitarra que se cola e fica na memória do ouvido, um pormenor que ressurge mais à frente à medida que o tema avança em direcção a um final dominado pela batida metronómica da bateria, quase kraut.

XVI
” (…) irredolentes, as horas, essa acidez vaga, / irrompem na pele como vapores vacilantes, / poucas esquinas espreitam, nem tu és eco. / vem tempo a mim, com nidor estoira cerce, / vem do odor este braço, a faca na língua fere,/ arranha o vapor das narinas, arranha o vapor do cheiro, / no chão aspiro, subo ao mundo, rebento…”
O álbum encerra com o tema mais longo, 16 minutos que decorrem numa toada mais arrastada até meio, para nos últimos oito minutos explodir progressivamente numa erupção dominada pelo som cheio da bateria e pela força sónica que se eleva num crescendo da vibração baixo/guitarra. É nesta última parte que os Basalto avançam por trilhos mais stoner para um final apoteótico.

Em suma, os Basalto pegaram de estaca. “Odor” é um álbum pesado e austero, de uma tocante rusticidade. Um que nos prende com algum magnetismo, e mais naturalidade do que artifício, à viagem de quarenta e cinco minutos que dura esta descida ao inferno, onde “o sangue ferve”, ” a carne fora exala, freme, ofegante queima, no chão, já quase enxuta, apodrece, pungente cai e fundo grita”, e a “faca na língua fere”. “Odor” é um álbum que se revela e surpreende a cada nova audição. Por fim, uma chamada de atenção para o excelente trabalho de capa de Almeida Alma.