Com seis anos a separar o debutante “When Hope and Despair Collide” da novidade que é “The Far Star”, decerto houve muito tempo para... Miguel Andrade: «Apotheus ganhou um sentido – sabemos que queremos deixar a nossa marca e sabemos com que armas»

Com seis anos a separar o debutante “When Hope and Despair Collide” da novidade que é “The Far Star”, decerto houve muito tempo para se repensar e realinhar conceitos artísticos (como é evidente no novo disco), assim como melhorar habilidades musicais. «Já lá vai uma longa viagem de facto, e deu tempo para muita coisa», começa por nos contar Miguel Andrade, vocalista e guitarrista dos Apotheus. «Em primeiro lugar, considero ter havido uma evolução na composição. Não é nada trivial transformar uma mensagem em som, mas penso que neste trabalho esculpimos a mensagem de tal forma que ela quase se confunde com o som. Como parte integrante da mensagem, apostamos também num espectáculo ao vivo bastante superior.» Assim, para o músico, «os Apotheus de 2019 são um grupo que não está com meias medidas», continuando: «Não que o tenhamos sido no passado, mas agora ainda menos. Se nos surge uma ideia, nós perseguimo-la até à exaustão, seja num conceito de um vídeo, seja no espectáculo ao vivo, seja numa passagem de guitarra ou num verso em que a métrica podia estar melhor.» Contudo, para si, há uma diferença que é realmente importante: «Acima de tudo, Apotheus ganhou um sentido. Sabemos que queremos deixar a nossa marca e sabemos com que armas. Criamos um universo nosso, a nossa história, tentamos trazer uma dimensão extra à nossa música. É nesse universo que nos vemos durante muito tempo, curiosamente também um pouco à semelhança de Asimov.»

Em boa hora se fala de Isaac Asimov, porque “The Far Star” é, de facto, inspirado na obra do norte-americano, alguém conceptualmente muito próximo de Miguel Andrade, portanto não será de estranhar que durante os últimos seis anos tenha devorado 15 livros do autor que «que ocorrem todos no mesmo universo e estão interligados». «Aí apercebi-me da quantidade enorme de filmes, por exemplo, que são inspirados em Asimov. Ele é tido como um dos pais da ficção-científica. Dizer que “X é inspirado em Asimov” é quase sinónimo de dizer que “X é ficção-científica”. Nós somos apenas mais um.»

Referir que “The Far Star” é inspirado no autor é muito redutor, portanto Andrade precisa de detalhar onde e como. «Alguns reconhecerão o título da primeira música e single do álbum “Caves of Steel”. Este é o primeiro livro da saga “Robots” que Asimov escreveu. A música e o livro são completamente diferentes, apenas têm o título em comum. Mas pode-se considerar um ‘easter egg’. Da mesma forma, “The Far Star” é o nome de uma nave num livro da saga “Foundation”. O nome foi directamente para o título do álbum, embora aqui não represente uma nave mas sim uma missão. Para além disso, temos referências menos directas. A short-story “The Last Question” de Asimov teve também um contributo importante para o “The Far Star”. Esta história tem, o que é para mim, um dos maiores plot-twists de sempre. Pode-se dizer que o cenário apresentado na nossa história é um cenário típico de Asimov. No entanto, a história evolui e segue o seu caminho original.»

Com uma narrativa que se detalha em miniconto, “The Far Star” espelha parte da nossa realidade civilizacional e espreita um futuro medonho cada vez mais próximo – os filmes de ficção-científica distópica e fatalista que conhecemos, e que agora têm mais de 30 anos, nunca fizeram tanto sentido. Neste segundo longa-duração da banda portuguesa, a energia esgotou-se e os poucos recursos são engolidos pela minoritária classe abastada em relação aos milhões de aflitos, pobres, analfabetos e esquecidos nos escombros de uma sociedade desigual. A única hipótese é ir à procura de uma nova vida fora daquele planeta.

Assim, neste tipo de conceitos é praticamente imperativo fazer uma alusão à natureza humana e à realidade verdadeira do momento em que vivemos. Qual é o destino da humanidade neste disco? Miguel responde: «A pergunta assume que o “The Far Star” fala sobre o destino da humanidade. Associa-se muito ficção-científica ao ‘futuro’, mas será que esta história segue essa tendência?» Tudo é revelado no livro incluído na edição especial de “The Far Star”. E como será que o músico vê dia de amanhã no nosso planeta enquanto civilização? A resposta tem contornos positivos. «Acho que as opiniões tipicamente se enquadram numa de duas categorias. Por um lado temos os pessimistas, que acham que o mundo vai de mal a pior e que o fim está próximo. Por outro lado temos os optimistas. Pessoalmente, sou optimista neste tópico. Os dados apontam para melhorias tremendas em várias áreas. Pobreza diminuiu, mais acesso a água potável, maior esperança média de vida, mortes por cancro diminuíram, menos criminalidade, mais acesso à informação, o nível médio da educação subiu (especialmente nas mulheres e em países africanos, por exemplo), acesso à electricidade subiu, imensas ditaduras sucumbiram, o número de horas de trabalho por trabalhador diminuiu, escravatura abolida, racismo diminuiu. Perante estes dados não tenho alternativa senão ser optimista. Temos sim muitos problemas por resolver, mas acredito que daremos a volta por cima, como o fizemos no passado.»

Com muitas soundscapes em “The Far Star” que podemos classificar como espaciais, pode ser automático pensar-se em “2001: A Space Odyssey” de Kubrick, “Interstellar” de Nolan ou mesmo Alejandro Jodorowsky (talvez pelo “Dune” que nunca chegou a fazer). O cinema e as suas bandas-sonoras acabaram, realmente, por obter o seu particular domínio nos Apotheus, como o nosso entrevistado admite: «Sem dúvida que obras como as mencionadas tiveram imensa influência. Hans Zimmer em “Interstellar”, por exemplo, foi uma enorme influência na nossa música “Prelude” e nas orquestrações no geral deste álbum. O “The Far Star”, em muitos aspectos, é cinematográfico. Nas nossas cabeças é um filme que decorre ao longo do álbum e tentamos passar isso para o ouvinte. Tentamos recriar sons de motores na descolagem, de sonares nas passagens de incerteza e até de explosões e sirenes nos momentos de turbulência. A ideia é que cada um recrie este filme para si mesmo, muito à semelhança do que se faz num livro, mas com mais liberdade do que assistir a um filme já feito.»

“The Far Star” é o título do novo álbum dos Apotheus e foi lançado no passado dia 1 de Novembro pela Black Lion Records.