Entrevista a Akhlys. Akhlys: «Tenho um amor pela mitologia desde que era criança»

«Em “Melionë” ainda recorri fortemente à minha experiência pessoal, mas também me concentrei em interpretações pessoais, usando uma abordagem menos linear com um simbolismo mitológico e esotérico extremamente específico.»

Naas Alcameth

“Melinoë”, o mais recente álbum de Akhlys, resulta da busca incessante de Naas Alcameth pela manifestação artística do mundo pavoroso dos pesadelos e das entidades que o habitam. A propósito deste lançamento, a Metal Hammer Portugal entrevistou o músico, figura incontornável do metal que nos chega do outro lado do Atlântico.

A capacidade de criação deste artista parece ser infinita, colaborando regulamente com um vasto número de músicos (como o português Menthor) e através dos seus múltiplos projectos: Nightbringer, Bestia Arcana, Aoratos e Akhlys, entre outros. Sucessivamente, tem vindo a fazer da sua audiência uma legião mimada, concedendo-lhe a ritmo veloz novos (e bons!) álbuns, formando um lustroso catálogo de black metal. Todos os seus projectos partilham um mesmo cunho estético que não se limita às cores demoníacas da sua voz, mas que se faz ouvir também nas melodias inebriantes das guitarras ou nos ambientes furiosos, esotéricos e assustadores, como se provenientes das mais ocultas trevas. A fusão entre dark ambient e black metal tem atraído vários actos, e Akhlys é o projecto onde Naas Alcameth tem explorado incisivamente o diálogo entre estes dois estilos: «A minha introdução ao dark ambient ocorreu no final dos anos 90, quando fui apresentado a Aghast. A partir daí, descobri o rol da Cold Meat Industry e o meu amor pelo género cresceu», prendando-nos assim com refinados exemplos dessa negra comunhão.

Adoptou uma linguagem musical que o distingue logo que ouvimos as primeiras notas, e nela a influência da second wave é clara. Mas a relação com a Europa tem-se revelado bastante estreita, associando a maioria dos seus projectos às prestigiadas editoras francesas Season of Mist e Debemur Morti, a estreia inesperada de Akhlys ao vivo, conjuntamente com Aoratos, deu-se no Ascension Fest, e tem já agendada digressão para 2021, também em solo europeu – lamentavelmente, sem datas previstas por terras lusas. «A região onde cresci não tinha uma cena metal forte e o black metal não existia aqui por volta dos anos 90 e início de 2000. Por isso, não houve realmente muita influência pela proximidade, ao contrário de outras zonas que tiveram expressões maiores e que acabaram por influenciar o som da cena local. Além disso, a cena black metal europeia simplesmente disse-me algo, e num nível que poucas foram capazes de fazer. Com o tempo e com as digressões no estrangeiro, conheci muitos músicos pela Europa, muitos amigos próximos, e vários desses indivíduos tornaram-se companheiros de banda num momento ou noutro através dos meus outros projectos.»

Naas Alcameth tem sido autor e regente de Akhlys, contando, na produção, com a parceria de Dave Otero, com quem tem trabalhado o som final dos seus projectos desde há vários anos. Em “Melinoë”, o resultado é novamente primoroso, o que, de certo, seria expectável, pois estamos a falar de pessoas para quem o “diabo mora nos detalhes”. A experimentação tem feito parte da estrutura de trabalho de Naas Alcameth, e o álbum foi comunicado como sendo o mais colaborativo que o projecto já teve, levando-nos a abordar como, exactamente, isso se concretizou: «Na verdade, grande parte da abordagem é a mesma de antes, excepto alguns elementos-chave. Desta vez, trabalhei com o baterista [Eoghan] de forma muito mais próxima, e tudo foi refinado durante os cinco meses de encalço. As suas ideias e feedback fizeram realmente uma diferença monumental no resultado final. Também abordei as letras de forma mais metódica, tornando tudo muito intencional quanto ao posicionamento.»

«Descobri que, em certos tipos de música, existe muitas vezes um carácter contemplativo e evocativo que se presta a formas de pensamento que conduzem à reflexão espiritual.»

Naas Alcameth

Não apenas nas letras como também no título dado a cada uma das faixas, verificamos ter havido uma evolução das temáticas oníricas características do projecto. «Na sua essência, o assunto ainda é o mesmo, lidando com sonhos estranhos e fenómenos do sono interpretados através da lente do ocultismo. No entanto, em “The Dreaming I”, delimitei-me exclusivamente ao meu diário de sonhos, usando a prosa para transmitir esses sonhos e as experiências com eles relacionadas de uma forma muito linear. Em “Melionë” ainda recorri fortemente à minha experiência pessoal, mas também me concentrei em interpretações pessoais, usando uma abordagem menos linear com um simbolismo mitológico e esotérico extremamente específico.»

O nome do projecto é dedicado à deusa grega Áclis e, neste terceiro álbum, a mitologia grega também esteve na origem quer do título do álbum, quer das cinco faixas que o compõem. Outros conceitos greco-romanos podem ser encontrados em vários projectos do músico, como é o caso do “genius loci” usado em Aoratos, com Naas Alcameth a contar-nos como a mitologia grega se tornou tão significativa na sua arte: «Tenho um amor pela mitologia desde que era criança. Para mim, a mitologia grega e romana, especificamente, sempre se destacaram, talvez por serem algumas das histórias com as quais me familiarizei primeiro. À medida que amadureci e comecei a interessar-me por religião, filosofia e esoterismo antigas, fui sendo atraído por coisas como o Orfismo e a tradição Platónica, que deram a esses mitos uma profundidade completamente nova.»

Nas suas palavras, assim como na música que faz ou nas performances ao vivo, vemos que esses temas, além de serem fonte de inspiração, são vividos a níveis mais profundos. Gentilmente, Naas Alcameth deu-nos um fugaz vislumbre sobre o que tem sido para si a relação entre música e jornada espiritual: «Descobri que, em certos tipos de música, existe muitas vezes um carácter contemplativo e evocativo que se presta a formas de pensamento que conduzem à reflexão espiritual. Isso é no que me tenho esforçado para captar na minha própria música e, de certa forma, o meu desenvolvimento musical e o meu desenvolvimento espiritual sempre estiveram entrelaçados.»

Realmente, a música de Akhlys faz uso próspero de padrões helicoidais e de texturas que vão desde a mais brutal e terrífica explosão até ao zuído suspenso no ar, subtil e ameaçador – música que leva a emoções perturbadoras e que ecoa em recônditos níveis de consciência.