Afastados da primeira linha de ataque do death metal moderno durante seis anos, os californianos Abysmal Dawn regressaram em 2020 com “Phylogenesis”, indiscutivelmente o... Abysmal Dawn: quando os céus escurecem
Foto: Rodrigo Fredes

«Temos perfeita noção do porquê de algumas bandas se transformarem em geradoras de memes, estrelas do YouTube e modelos do Instagram. Não estou a mandá-las abaixo, mas não é o que somos.»

Afastados da primeira linha de ataque do death metal moderno durante seis anos, os californianos Abysmal Dawn regressaram em 2020 com “Phylogenesis”, indiscutivelmente o melhor disco do quarteto até à data. A nossa primeira questão teria obrigatoriamente de incidir na razão de uma ausência tão prolongada para os tempos que correm. No entanto, o que parece, poucas vezes é, como a banda prontamente justifica. «Bom, na verdade fizemos imensas digressões para promovermos o nosso álbum anterior, o que significa que, na realidade, nunca estivemos afastados. Se não nos falha a memória, fizemos cinco digressões norte-americanas, uma europeia e ainda outra sul-americana. Gravámos a percussão e as guitarras rítmicas em Novembro e Dezembro de 2017. Porém, ainda não tínhamos letras, leads ou linhas de baixo, mesmo porque aconteceram-nos muitas coisas a nível pessoal em simultâneo. Não tínhamos uma data limite e o nosso orçamento foi virtualmente ilimitado, visto que gravei uma parte significativa do trabalho no meu estúdio caseiro. Assim, as coisas acabaram por se arrastarem.»

A principal diferença dos regressados Abysmal Dawn reside em dois membros-chave para a realização do novo trabalho: o baterista James Coppolino Petroni e o guitarrista Vito Petroni. Graças a eles, “Phylogenesis” agarra o ouvinte com facilidade e, como ambos não são propriamente nomes estabelecidos dentro do movimento, quisemos saber como é que os restantes elementos tomaram conhecimento dos músicos e os convidaram para integrar a banda. «Os Abysmal Dawn deram alguns concertos com algumas das bandas anteriores do James e foi assim que nos conhecemos inicialmente. O nosso anterior baterista abandonou-nos e deixou-nos numa posição muito precária, pois fê-lo a um mês da nossa digressão com os Cannibal Corpse, Obituary e Cryptopsy, o que nos deixou em mãos a ingrata tarefa de encontrarmos um baterista competente em tão pouco tempo. Acabei por perguntar ao James se nos conseguia ajudar nesse sentido, ele concordou e acabou por fazer um trabalho fenomenal nessa digressão. Muito pouco depois acabei por convidá-lo a juntar-se à banda. Já o James tinha tocado noutro projecto com o Vito. Além disso, o James mostrou-me algum trabalho de guitarra-solo do Vito num grupo instrumental. Mal o ouvi, quis-lo ter imediatamente na banda, pois sempre procurámos um guitarrista-solo dedicado nos Abysmal Dawn. O Vito acabou por preencher uma vaga durante uma digressão e o resto é história.»

“Phylogenesis” é um exemplo perfeito de death metal americano de pedigree. Todas aquelas influências clássicas expectáveis estão lá, não fosse o disco feito by the book. Embora o som final possua um claro toque moderno, a banda decidiu manter certos costumes, caso da colaboração com Pär Olafsson e a aparente não utilização de triggers. Tudo isto nos leva a crer que não é por ser moderno que é mau – basta que não perca a riqueza orgânica. «Utilizámos triggers, mas no bombo, claro. Tem de ser assim quando tocas a velocidades absurdas como nós fazemos. Mas concordo que tudo o mais tem um som natural e que tentámos não editar o produto como muitas bandas fazem hoje em dia, ao ponto de tornarem o registo em algo estéril. Queremos continuar a soar em disco como se estivéssemos em palco e manter essa energia crua das coisas.»

O adeus à Relapse Records sucedeu-se pelas boas-vindas da Season of Mist (SoM). A editora francesa é, claramente, um dos pesos-pesados mundiais do género, ainda que a transição de uma empresa americana para uma europeia possa trazer diferenças bastante acentuadas. «Até agora correu tudo bem. A SoM também tem uma presença norte-americana muito forte, o que me leva a crer que não se trata apenas de uma empresa europeia. O Michael (dono da editora) é fantástico. É um tipo honesto e sem rodeios, sem merdas, algo que apreciamos bastante. E o Gordon Conrad (dos escritórios nos EUA) até foi a pessoa que nos conseguiu um contrato com a Relapse quando lá trabalhámos. Além disso, toda a gente na editora parece ser fã de metal. Agradecemos à Relapse tudo o que fez por nós ao longo dos anos, mas, para ser totalmente franco, por vezes sentíamo-nos deslocados. Por exemplo, sentimos que o death metal já não era uma prioridade para eles. Ou pelo menos que o nosso estilo de death metal não o era. Ficámos com essa sensação.»

Ao mesmo tempo que é bom ouvir falar dos Abysmal Dawn novamente, não poderíamos estar numa altura pior para lançar um disco. Muitas bandas têm tido sérias dificuldades em lidar com as restrições da pandemia que atravessamos; logo, a curiosidade sobre o que se passa com os Abysmal Dawn, e até com a cena do outro lado do Atlântico, é uma preocupação de todos, dos fãs à imprensa. «É difícil, realmente. Não só já não lançávamos um disco há muito tempo, como agora acontece isto e rebenta com os nossos planos de promoção, para não dizer que dificulta imenso a distribuição de discos pelo mundo por parte da SoM. Enquanto isto durar, a melhor forma de obterem o nosso novo disco é através da SoM. Portanto, sugiro que visitem a loja virtual da editora para o encomendarem. Mesmo assim, estamos a lidar com esta situação como toda a gente. Temos estado confinados e só saímos para comprar produtos essenciais. Temos alguns trabalhos a tempo inteiro desde casa pelo tempo que os nossos patrões decidirem manter-nos empregados. Pode tornar-se um pouco assustador por ninguém saber quanto tempo é que isto demorará e o que acontecerá.»

Ainda no ponto da promoção de “Phylogenesis”, as restrições das actuações ao vivo serão com certeza um impedimento para os Abysmal Dawn, que não se revelam particularmente optimistas na actualidade. «Isto é péssimo para nós. Nunca fomos uma banda muito dependente das redes sociais e sempre nos sentimos melhor em digressão para promover o nosso trabalho. Agora temos de repensar isso e tentar perceber até que ponto é que nos sentimos confortáveis com as redes sociais. Temos perfeita noção do porquê de algumas bandas se transformarem em geradoras de memes, estrelas do YouTube e modelos do Instagram. Não estou a mandá-las abaixo, mas não é o que somos. Assim, tentaremos descobrir maneiras de promover o nosso trabalho sem deixarmos de ser quem somos. Depois, logo veremos o que o futuro nos reserva. Até lá, esperamos que as pessoas gostem do disco e, se gostarem, que passem a mensagem aos seus amigos e que continuem a apoiar a música de que todos gostamos.»