Como Devin Townsend copiou uma música obscura dos anos 1980 e deu a Strapping Young Lad um single inovador. A história por trás da música: “Love?” de Strapping Young Lad

Como Devin Townsend copiou uma música obscura dos anos 1980 e deu a Strapping Young Lad um single inovador.

No início do novo milénio, Devin Townsend estava, como confessa, num mau caminho. «Até certo ponto, toda a minha carreira baseou-se na tentativa de me desenrascar», sorri quando lhe pedem para recordar um capítulo difícil da sua vida. «Durante esse período, eu estava lixado, mas totalmente pelas minhas próprias mãos. Não se trata de ‘ai de mim’; eu estava totalmente fascinado e imerso no meu processo criativo e ainda não tinha filhos. Penso que, em retrospectiva, estava a esforçar-me activamente para me desviar do caminho e tornar-me um louco para conseguir compor música maluca.»

Hoje, todos reconhecemos Devin como uma das verdadeiras vozes visionárias do heavy metal, mas em 2004 foi tratado com um toque de suspeita pelo mundo mainstream do metal. Apesar de ter assinado o seu nome em discos como o esmagador “City” de Strapping Young Lad [SYL] e o seu emocionante e épico álbum a solo “Ocean Machine” – ambos considerados justamente clássicos hoje em dia –, ainda não tinha chegado à maior base de metaleiros. Em vez disso, era quase exclusivamente pintado como ‘maluco’, ‘cientista louco’ ou ‘excêntrico’ pela imprensa do rock, que se apoiava fortemente na sua abertura em relação aos seus problemas de saúde mental.

«Agora consigo olhar para trás muito mais claramente», suspira Devin. «Percebi que essa noção romântica de passar por essas coisas malucas, e abusar para fazer música louca, apenas resulta na tua vida ser pessoalmente louca e fodida. Não achava que isso iria acontecer, mas de repente tornei-me muito sensível em relação ao que estava a ser compreendido. Essas coisas às quais me propus – insensíveis, sádicas e descontroladas – eram apenas mais medo do que qualquer coisa.»

«Essas coisas às quais me propus – insensíveis, sádicas e descontroladas – eram apenas mais medo do que qualquer coisa.»

Devin Townsend

Assim, quando Devin entrou em estúdio no final de 2004, sentindo-se esgotado após uma década a abarcar todo o tipo de negatividade através de Strapping Young Lad e a automedicar-se fortemente com drogas e álcool, fê-lo sabendo que a banda muito em breve chegaria ao fim.

«Senti que tinha levado este projecto o mais longe possível», diz. «Havia muito pouco mais a dizer dessa forma. Foi exaustivo. O estúdio era louco; eu estava rodeado por muitas drogas leves e pessoas estúpidas.»

Ainda era preciso fazer um álbum, e, apesar dos problemas crescentes, Devin encontrou uma maneira de escrever um álbum com uma música que, contra todas as probabilidades, lhe proporcionaria o avanço comercial que o apresentou a toda uma nova base de fãs.

«Certo dia, levei a “Love?” para o ensaio», diz Devin. «Começámos a trabalhar nela e, de seguida, o Jed [Simon, guitarrista de SYL] criou o riff ‘duggy-duggy-dah-duggy-duggy-dah’, e organizámo-lo para que houvesse dois riffs principais juntos. Então, para o refrão, foi realmente importante para mim inventar algo memorável, seja isso brutal ou não. Não se trata duma orientação comercial; só preciso de algo onde cravar os meus dentes.»

De facto, Devin conseguiu inventar algo memorável. Bem, talvez não ‘inventar’ no sentido mais estrito do termo, mas um pouco de plágio ajuda.

«Tinha mesmo de acertar no refrão», ri. «E assim, o refrão de “Love?” é uma cópia directa de uma música do álbum “90125” dos Yes. Há uma música nesse álbum chamada “City Of Love”, que é basicamente o refrão de “Love?” – até o nome é o mesmo! Há uns tempos, os Machine Head fizeram uma música e um pouco dela soa a “Love?”, e toda a gente estava a cair-lhes em cima, do tipo, ‘por que é que estão a roubar os Strapping Young Lad?’. Bem, só para que fiquem a saber, eu roubei alguém em primeiro! Parece-me justo que siga o mesmo caminho.»

Com o álbum,intitulado “Alien” na bagagem, era hora de escolher um single principal, e “Love?” destacou-se. Considerando o quão desafiante era muito do material de SYL até àquele momento, a música representava algo com um potencial apelo de crossover. Não que Devin veja isso dessa forma.

«Só preciso de algo onde cravar os meus dentes.»

Devin Townsend

«Não!» Responde imediatamente quando questionado se viu a música como uma porta de entrada para grandes arenas e para um estilo de vida luxuoso de estrela do rock. «Antes tinha “Ocean Machine” e “Infinity”; existem muitas mais músicas com ‘som comercial’ nesses discos do que “Love?”. Parece haver esse equívoco comum sobre a minha carreira, de que tento alcançar sucesso comercial ao fazer músicas comerciais. A verdade é que adoro Def Leppard, adoro Enya, adoro The Eurythmics, musicais da Broadway e pop. Na verdade, é um desgosto para a editora quando dizem: ‘Oh, por que é que não fazes isto outra vez?’, e eu digo-lhes que já fiz, por isso vou escrever um álbum sobre um cheeseburger.»

Portanto, foi mais um acidente feliz do que planeado quando “Alien” foi lançado a 22 de Março de 2005, tornando-se o disco com melhor desempenho comercial dos SYL, chegando ao número 32 na Billboard Heatseekers Chart. Muito do seu sucesso deveu-se ao seu primeiro single.

«Durante a maior parte do tempo nesta banda, escrevi músicas para impedir que as pessoas prestassem atenção a Strapping Young Lad», Devin encolhe os ombros. «E quando ouves esse disco, o “Alien”… Pá, é um disco pesado, brutal, sombrio e raivoso. Músicas como “Skeksis”, “Shit Storm”, “Info Dump”… Não são músicas boa onda. Então, é um bocado divertido ter “Love?” no meio, e, verdadeiramente, a única razão pela qual isso aconteceu foi porque, certo dia, entrei no estúdio com aquele refrão na cabeça.»

Outro factor que contribuiu para o sucesso da música foi o vídeo, que se inspirou no sórdido clássico “The Evil Dead” (1983) de Sam Raimi, dando-nos a banda a tocar numa cabana semelhante à do filme e a ser perseguida por uma força sobrenatural. É um vídeo excelente e divertido que combina perfeitamente com a música e, tendo em conta o vínculo entre heavy metal e filmes de terror, faz muito sentido. Mas se Devin o fizesse à sua maneira…

«Tenho muita dificuldade com filmes de terror», diz. «Passo um mau bocado com sadismo, tripas e sangue. Não percebo como é que as pessoas investem tempo a fazer arte assim? Mas, estranhamente, gosto muito do “Evil Dead”, particularmente do terceiro, “Army Of Darkness”. Achei excelente. Foi-nos proposto fazer uma versão disso. Mas odiei as filmagens. Não me dei bem com o realizador, e tudo parecia um pouco Los Angeles demais, demasiado artístico e auto-importante. Olhei à volta e pensei: ‘O que é que estou aqui a fazer?’»

«E quando ouves esse disco, o “Alien”… Pá, é um disco pesado, brutal, sombrio e raivoso.»

Devin Townsend

No entanto, houve um momento na filmagem que Devin admite gostar…

«Na altura, eu tinha aquele cabelo absolutamente horrível», ri. «Eles contrataram umas maravilhosas maquilhadoras para as filmagens e, a certa altura, elas chegaram e ofereceram-se para fazer uma massagem no couro cabeludo enquanto estávamos na maquilhagem. Lembro-me de pensar: ‘Acho que não é tão mau!’ Ah ah!»

Quando a banda saiu em digressão para promover o disco, Devin finalmente começou a chegar a algum tipo de realização e resolução dos seus problemas pós-”Alien”. «Definitivamente, aprendi tudo o que precisava de aprender e segui em frente a partir desse período», conta. «Depois, os meus padrões de comportamento começaram a mudar.»

E ainda tivemos mais um álbum de Strapping Young Lad em 2006, com “The New Black”, antes da banda se separar e Devin Townsend embarcar no seu próximo conjunto de projectos. Mesmo assim, “Love?” continua a ser uma música da qual ele se orgulha.

«Adoro, para mim ainda soa excelente», consente. «Sou a mesma pessoa agora que era nessa altura? Não. Ainda me sinto igual? Definitivamente não. Mas ainda consigo olhar para trás e ver o que era: um snapshot da minha vida naquele momento. E, de certa forma, é por isso que todas as músicas que já fiz serão sempre tão importantes para mim quanto as mais recente. Tudo o que posso dizer é que, na altura, dei o meu melhor. Não conseguiria ter feito melhor.»

Podem achar que isto encerraria a história, mas não exactamente. Antes de partirmos, Devin conta-nos um encontro casual que teve com um dos homens que inspirou a criação de “Love?”.

«Fizemos um cruzeiro prog-rock há alguns anos», sorri. «O meu agente de digressão telefonou-me e disse: ‘O Jon Anderson [ex-vocalista de Yes] quer conhecer-te.’ Eu fiquei do tipo ‘Holy Shit!’. Fiquei empolgado. Fomos jantar, e, com os meus amigos lá, digo-lhes que um dos nossos heróis quer conhecer-me. Ele entra, o meu agente diz: ‘Jon, este é o Devin.’ E o Jon Anderson diz: ‘Quem é este? Não é este que quero conhecer!’ Acontece que ele queria conhecer Anathema! Ri-me dele, mas, para ser justo, ele ficou e conversou connosco até os Anathema descerem. Foi uma experiência muito divertida.»

Consultar artigo original em inglês.