Lançado no passado dia 12 de Junho, “Lava Empire” é o terceiro álbum de A Constant Storm, projecto portuense liderado pelo compositor e multi-instrumentista... A Constant Storm: «“Lava Empire” transmite sensações, texturas e toda uma atmosfera»

Lançado no passado dia 12 de Junho, “Lava Empire” é o segundo álbum de A Constant Storm, projecto portuense liderado pelo compositor e multi-instrumentista Daniel Laureano aka Stormbringer, um dos guitarristas de Moonshade. No novo álbum de ACS, Daniel apresenta-se como autor e intérprete de todas as letras e composições, e é o responsável pela execução e gravação de todos os instrumentos. O álbum conta com a produção de Pedro Quelhas (Moonshade) e a colaboração de Ricardo Pereira (Moonshade) e Inês Rento como vocalistas.

Intrigados com a complexidade deste processo, partimos para a entrevista com o músico para desvendar a relação do álbum com a “Divina Comédia” de Dante Alighieri, e pedir que nos esclareça sobre outros aspectos, como por exemplo, os sucessivos períodos de seca criativa e inspiração fugaz que antecederam as gravações, em que medida originalmente o conceito de “Lava Empire” era «um disco acerca de não ser capaz de fazer discos», sobre o papel de Pedro Quelhas como produtor e a «contaminação de parte a parte em termos de influência e estilo» com o trabalho dos Moonshade, para além da estreia surpreendente de Inês Rento como vocalista.

Por entre outras revelações, ficámos a saber que A Constant Storm não tem, por enquanto, previstas actuações ao vivo, uma vez que, na música, o que mais o atrai «é a composição e concretização das ideias que nascem na cabeça, não propriamente a repetição das mesmas num cenário live».

A nota biográfica enviada à redacção descreve “Lava Empire” como um álbum conceptual fazendo uma alusão à “Divina Comédia” de Dante. Em que medida é feita esta associação entre a “Divina Comédia” e “Lava Empire”?
Desde cedo que quis que o “Lava Empire” representasse uma convergência de vários conceitos, maioritariamente relacionados com três aspectos.
O primeiro trata da crise de identidade, manifestada primariamente através do bloqueio criativo, algo com o qual lutei sobretudo durante os inícios de 2017, ano ao qual remontam os primeiros esboços dos temas. Pode-se dizer que, originalmente, o conceito do “Lava Empire” era ‘um disco acerca de não ser capaz de fazer discos’. A partir daí, acabei por alargar a tela para a exploração de outros aspectos da psique humana – nomeadamente a minha própria –, algo que faz com que a temática lírica de todas as metáforas seja, claro está, bastante pessoal.
O segundo aspecto tem a ver com dois conceitos que funcionam sobretudo como âncoras estruturais, tanto ao nível da organização conceptual como de todo o lado visual. O primeiro é o conceito de ‘pirâmide’, que, alcançando o seu expoente máximo na “Pyramid at Sunset” (faixa que é especificamente dedicada à exploração poética da noção piramidal), acaba por estar presente em todo o disco, tanto a nível estrutural como sonoro. O segundo é ‘império antigo’, e a ideia passou por fazer com que todo o universo “Lava Empire” transmitisse sensações, texturas e toda uma atmosfera relacionadas com a exploração de uma qualquer civilização antiga esquecida (com elementos das culturas Egípcia, Inca e Maia, entre outros), e que a timeline da narrativa levasse o ouvinte por uma jornada guiada através desse mesmo império.
Por fim – e respondendo finalmente à pergunta colocada –, acabei por notar um paralelo muito interessante entre a história que estava a tentar contar e a ideia conceptual base da “Divina Comédia” de Dante Alighieri, uma obra literária seminal e que já é, há largos anos, uma das minhas favoritas. Nela, o escritor embarca numa longa viagem pelos confins das dimensões além-vida, mas que serve também como uma reflexão acerca da sua própria vida, os seus defeitos e as suas virtudes. Para mim, o “Lava Empire” representa precisamente isso: nele, canalizo Dante e proponho-me a analisar a minha própria mente – todas as imperfeições e erros que me fustigam por dentro, mas que também fazem de mim quem sou. No final da história, apercebo-me que são precisamente essas mesmas imperfeições que me tornam humano e que é com elas que terei de viver até ao final dos meus dias.

O álbum levou um ano gravar. De acordo a informação que fizeste circular, compuseste, escreveste as letras, gravaste tudo, e o Pedro Quelhas produziu no Home Studio. Quão contente estás com o resultado final deste trabalho?
Um ano a gravar e dois a compor, na realidade. Tal como mencionei anteriormente, comecei a fazer os primeiros esboços para o disco por volta de Fevereiro de 2017, cerca de um ano depois de ter começado o processo de composição do álbum anterior, “Storm Alive”. Entre sucessivos períodos de seca criativa longuíssima e inspiração fugaz, só dei por concluída a composição em Agosto de 2018, sendo que a gravação ficou para 2019.
A ideia de gravar com o Pedro surgiu naturalmente por via do nosso trabalho com os Moonshade, onde ele também assume grande parte do lado mais técnico da nossa produção musical, mas também pelo desejo que ele foi tendo em expandir a sua área de influência e começar a trabalhar com artistas para lá da nossa banda. Desde então, de resto, ele já trabalhou com nomes emergentes da nossa cena metal nacional, como Akroasis e Sotz’, em várias funções técnicas e fazendo trabalhos brilhantes.
Abordando especificamente o trabalho dele no “Lava Empire”, assumo que não podia estar mais contente com a produção. Considero que captou na perfeição tudo aquilo que visualizei durante a concepção do disco: um som equilibrado e limpo na medida do necessário, mas que nunca sacrificasse a emoção e aquele grau de alguma crueza que uma peça destas deve ter, a espaços.
Resumindo, acredito que ele conseguiu atingir um equilíbrio perfeito entre técnica e emoção.

Sabendo do teu percurso e da existência dos Moonshade, e ouvindo o excelente trabalho que o Pedro fez enquanto produtor, conseguimos intuir a existência duma grande cumplicidade entre os dois. Quais são os critérios que usas quando te ocorre uma ideia para uma música ou um conceito? O que te leva a decidir se certo material é para Moonshade ou se se aplica melhor a A Constant Storm?
Eu e o Pedro temos uma relação de enorme amizade e sinceridade, como de resto é o caso com o Nuno e o Ricardo – apesar de muitas vezes sermos uma família um bocado disfuncional, com os choques inevitáveis que resultam da convivência de quatro pessoas com personalidades muito fortes.
Quanto às composições, contudo, elas vivem em universos claramente separados, algo que acaba por ser tão complexo quanto tremendamente simples. Concretizando, aquilo que acontece comigo é que geralmente componho músicas para ACS quando me proponho a compor para ACS e componho para Moonshade quando me proponho a compor para Moonshade. Existe, sem qualquer dúvida, muita contaminação de parte a parte em termos de influência e estilo, mas as composições nascem com um destino desenhado logo à partida. A única excepção que me vem à mente tem a ver com a música “Pendulum Heart”, cujo riff principal e melodia base foram compostos originalmente para os Moonshade, em 2015, mas que acabaram por não ser desenvolvidos.
Um pedaço de trivia potencialmente interessante: várias partes da música “World Torn Asunder”, do “Sun Dethroned” (Moonshade), foram compostas como uma segunda parte da música que estava a nascer dos riffs que acabaram por formar a “Pendulum Heart”.

A seguir ao álbum devem seguir-se os concertos. Tens alguma coisa em vista? Como é que te apresentas ao vivo? Alguns dos temas encerram alguma teatralidade. Existe algum conceito previsto para espectáculos ao vivo que gostasses de anunciar?
Desde os primeiros dias deste projecto que o meu objectivo sempre passou pela criação de música que não precisasse de concertos ao vivo para poder sobreviver. Tanto como peça artística como do ponto de vista monetário – uma vez que a música não é o meu sustento, não tenho a necessidade de dar concertos. Comparativamente, e apesar de haver aspectos desse lado que me agradam, devo dizer que aquilo que mais me atrai na música é a composição e concretização das ideias que nascem na minha cabeça, não propriamente a repetição das mesmas num cenário live.
Dito isto, não fecho a porta à possibilidade de algum dia serem feitos concertos de A Constant Storm com uma banda completa, sendo porém certo que só a considerarei se tal fizer sentido na altura em que me proponha a fazê-lo – do ponto de vista do interesse do público, mas também da performance como algo que consiga viver de modo independente da música. Por outras palavras, preciso de chegar a um ponto em que esteja convicto que vou conseguir fazer daquele espectáculo ao vivo algo que seja verdadeiramente especial e com características únicas, caso contrário é um esforço que simplesmente não me interessa.

Ao ouvir o álbum apercebemo-nos de que os temas e as guitarras estão carregadas de um certo sentir português – qualquer coisa indefinida, mas está muito lá. Deste assunto passámos para outro, que nos levou a pensar sobre aquela cena do Lusitanian Metal? Revês-te nisso? Isso existe para ti? Há mística? Alguma vez pensaste em cantar em português?
É uma interpretação muito interessante, sem dúvida, particularmente porque me apercebo que até hoje nunca me tinha posto a pensar a fundo acerca deste tema.
Não tenho, contudo, uma resposta particularmente definida para dar, além de: é perfeitamente possível que sim – sou influenciado por um sem número de géneros musicais, obras audiovisuais e literárias, dos mais variados campos e das mais variadas nacionalidades, e que formam as minhas criações das mais diversas maneiras. Desde hip-hop a black metal, do camaleonismo do David Bowie ao dark folk do Nick Cave, de uma obra clássica como a “Divina Comédia” ao “Caim” de José Saramago, séries manga como “Berserk” ou filmes como “A Clockwork Orange”, entre tantos, tantos outros.
Gosto muito do nosso país e da nossa herança cultural, sem qualquer dúvida, e de importantíssimas bandas nacionais como os Moonspell, que também acabam por explorar várias facetas daquilo que pode ser descrito como Metal Lusitano – portanto, seguramente terei bebido muito deles em várias fases da minha vida, algo que seguramente sobressai.

Por fim, como e onde foram descobrir a Inês? Aquela voz não vai passar despercebida a ninguém.
Na verdade, a Inês é minha prima, com quem partilho uma relação bastante próxima. Isto deve-se ao facto de termos praticamente a mesma idade e de termos passado grande parte da nossa infância juntos, pelo que a vejo quase como uma irmã.
Foi precisamente dessa relação de proximidade que acabou por se concretizar a ideia dela participar no “Lava Empire”, algo que eu já tinha na minha cabeça há vários anos, suportado pelo enorme talento na voz e o histórico musical que lhe conhecia, nomeadamente os seus estudos de Conservatório em violino. Ainda pensei em convidá-la para tocar violino neste disco, algo que não aconteceu, mas que seguramente acontecerá num futuro mais ou menos próximo!
Quanto a projectos musicais, posso dizer com alguma vaidade que este é apenas o segundo trabalho discográfico em que ela participa, sendo que o primeiro foi o disco da Tuna Médica Feminina da Universidade da Beira Interior à qual ela pertence. E, reforço novamente, seguramente não será a última vez que vamos colaborar um com o outro.