A meros 500 quilómetros da capital norueguesa Oslo, os suecos Watain mantêm viva a tradição e o espírito do black metal originado no país-vizinho.... Erik (Watain): «Black metal irá sempre representar a adversidade, as sombras, a escuridão da mente e do próprio mundo»

A meros 500 quilómetros da capital norueguesa Oslo, os suecos Watain mantêm viva a tradição e o espírito do black metal originado no país-vizinho. Com o sexto longa-duração “Trident Wolf Eclipse”, a banda prorroga o seu estatuto de emissários deste histórico espectro do metal extremo e apresentam-se em boa forma, deixando para trás toda a exploração musical que adveio do antecessor “The Wild Hunt” (2013).

Foi precisamente pelo mal-amado “The Wild Hunt” que teve início a entrevista com o vocalista Erik Danielsson. Visto por muitos fãs como o álbum mais fraco da discografia dos Watain, este disco trouxe alguma frescura à sonoridade da banda, apresentando um trio unido e com vontade não de mudar, mas de trazer uma certa progressão ao paradigma da então cena black metal mundial. A produção e os vocais limpos, assim como as passagens mais lentas ou melódicas, deixaram os fãs da velha-guarda – que viram “Casus Luciferi” (2003) e o sucessor “Sworn To The Dark” (2007) como autênticas obras-primas que chegavam ao mundo para preservar ou até salvar o black metal – de pé atrás e um tanto reticentes em dar uma nova oportunidade à banda. Em “Trident Wolf Eclipse” é possível assistir a um regresso à velha fórmula – ainda que, e como já é convencional nos Watain, haja lugar para implementar novas ideias. Isto seria razão mais do que suficiente para aproximar os suecos aos fãs mais antigos, se ao menos Erik Danielsson estivesse minimamente preocupado com isso: «Espero bem que não», diz-nos o vocalista ao telefone seguido de uma gargalhada. «Não tenho tempo para birras na minha vida. As pessoas podem ter as opiniões que quiserem, mas isso não tem qualquer valor para nós.» Erik, que vê “The Wild Hunt” como uma espécie de «pico» da sua carreira e que percebeu que viria a «tomar proporções épicas» aquando da fase de composição, refere que «quando lemos comentários negativos acerca de “The Wild Hunt” não dissemos ‘oh, isto é muito interessante”. Não pensamos nisso e não tem qualquer relevância para nós. Para mim, é interessante quando as pessoas gostam do álbum e têm a dizer coisas positivas, pois assim podemos ter uma boa discussão. No entanto, as pessoas gostam é de se queixar e isso é uma forma muito aborrecida de iniciar uma conversa acerca de arte».

O músico admite que a paciência já não é a mesma de outrora: «Não há mesmo lugar para isso na minha vida. Tenho quase 40 anos e simplesmente não tenho tempo para ouvir adolescentes a queixarem-se do facto da minha banda não soar da mesma forma que soava quando tínhamos 16 anos. [risos] Watain é para as pessoas que manifestam um interesse profundo na música. É para as pessoas que gostam da discografia inteira dos Black Sabbath e não apenas do primeiro álbum.»

A banda nunca habituou os fãs a lançamentos pontuais; contudo, os cinco anos que separam “Trident Wolf Eclipse” de “The Wild Hunt” foram o maior intervalo de tempo registado até à data. Erik culpa o álbum de 2013 pela longa espera: «Já se passou algum tempo. Parece-me que os níveis de paciência e entusiasmo aumentam sempre que acabo de gravar um novo álbum e é bom poder começar a dar entrevistas, pois pelo menos assim dou algum sinal de vida», confessa. «A razão pela qual se levou todo este tempo a concluir o novo álbum foi o “The Wild Hunt”, que ocupou-nos imenso espaço depois de ter sido lançado. Necessitou de muito tempo para cumprir o seu propósito.» Sobre esse registo em específico, o músico afirma que ama «cada bocadinho do álbum», considerando-o como um dos trabalhos «mais brutais e honestos que alguma vez fizemos». «Foi uma quebra necessária e sentimos que era preciso bater com o martelo na mesa e mostrar às pessoas que não podem achar que sabem tudo o que há a saber sobre Watain, e que as vossas expectativas não têm qualquer impacto naquilo que fazemos. Somos uma banda de pensamento livre e temos muito orgulho nisso, em termos esta liberdade enquanto compositores.» “The Wild Hunt” marcou-se assim dos demais como uma «grande afirmação» por parte da banda, com uma forte componente emocional: «Só falávamos disso. Tínhamos reuniões depois dos ensaios, trazíamos sempre novas ideias em estado cru… Posso dizer que percebemos muito rapidamente que seria um álbum mais centralizado e mais directo, pois tinha toda esta grande dimensão. Não sei se fomos bem sucedidos neste nosso objectivo, mas pelo menos foi essa a nossa intenção.»

Com a editora do colectivo da Suécia, a Century Media, a ser adquirida pela gigantesca Sony, poder-se-ia pensar que os Watain perderiam alguma da sua soberania. Danielsson confirma que continuam livres como sempre foram: «A ideia de ter uma editora a controlar a música de uma banda não se aplica às bandas de black ou death metal. Nem no que respeita à sonoridade nem a nível nenhum. Talvez alguém da Roadrunner [editora norte-americana] tenha dito aos Slayer para trabalharem com um produtor famoso aquando das gravações de “Divine Intervention” [1994], ou talvez alguém tenha dito ao pessoal dos Ghost que a música deles tinha que ser mais comercial, mas no que toca aos Watain, ou até bandas maiores como os Morbid Angel, não acho que as editoras tenham qualquer impacto na música de qualquer banda que toque este estilo de música extrema.» A liberdade dos Watain extende-se para lá do produto musical: «Temos liberdade criativa, não só na música mas em tudo no geral. Tudo nos Watain é criado por nós: os designs do merchandise, os posters de tour, os títulos… Vem tudo dos membros da banda.»

Esta vontade de agarrar o boi pelos cornos surge devido à paixão pelos métodos tradicionais que outrora dominaram o meio musical. É que apesar dos Watain terem estado maioritariamente activos já no Séc. XXI, a sua sonoridade está muito mais próxima daquilo que se fazia no final da década de 1980 e início da década de 1990. O motivo? Manter o velho espírito vivo. «Todos os membros da banda são verdadeiros adeptos dessa era do black metal. Foi assim que nos conhecemos. Este nosso amor pela forma de fazer as coisas como antigamente, assim como pela velha tradição, foi sempre muito importante para Watain, não só na música mas também na forma como actuamos e como fazemos as coisas na banda. Por exemplo, fazemos muitas coisas à mão, como os designs da t-shirt, e tudo isso corresponde a essa era em particular na cena metal, que para mim foi perfeita. Tudo aquilo que é feito é, na melhor das hipóteses, uma boa continuação desses tempos. É aí que está o meu coração, no metal dos anos 1980 e início dos anos 1990. Podes ouvir isso na nossa música, e este novo álbum é o exemplo perfeito disso mesmo, pois experimentámos muitos elementos dessa altura e misturámos tudo com ideias novas.»

Sobre “Trident Wolf Eclipse”, que Erik classifica como sendo um álbum «profundo, filosófico e com muitos aspectos satânicos», o músico concorda quando lhe é sugerido que este disco levou 20 anos para ser concluído: «Sim, temos que ver por esse prisma. Creio que as novas músicas soam exactamente da forma que queríamos quando formámos a banda. Apresenta uma mudança drástica, assim como todos os nossos outros trabalhos. Cada álbum representa a posição actual na qual a banda se encontra. Tudo aquilo que aconteceu, todos os nossos lançamentos anteriores, todas as tours que fizemos e todos aqueles que apareceram e desapareceram do nosso círculo e das nossas vidas, tudo isso tem um impacto na forma como um disco novo vai soar.» De acordo com o entrevistado, todos os acontecimentos que trouxeram os Watain até este ponto contribuíram para que o novo disco fosse mais «violento e profundo».

Para uma banda que vê o estado evolutivo das coisas com bons olhos, mas que ao mesmo tempo resguarda-se nos costumes de outrora, questionámos o frontman se o black metal ainda personificava os mesmos valores da era dourada do estilo: «O black metal diz exactamente a mesma coisa que dizia antes. Não o vejo de forma diferente. Fico um pouco desapontado por constatar que há mais caos e competição na cena black metal actual. Já lá vai algum tempo desde que ouvi uma banda que parecesse viver da forma que aprendeu. É algo pelo qual sempre nos sentimos esfomeados com Watain. Isto é um estilo de vida, é mesmo uma forma de viver que vai contra a sociedade e às leis dessa mesma sociedade. É uma forma de viver à foragido e é assim que deve ser vista e ouvida na música que crias enquanto banda, que és esse tipo de pessoa.» Estes valores, confirma-nos Erik, foram sempre «sublinhados nos Watain» e «é algo que sinto falta de ver nos nossos contemporâneos, por assim dizer». «Dantes era assim e agora não o é mais com estas bandas novas. As pessoas andam a ler demasiados livros.» Lição de black metal número 1: devemos então ver o black metal como o inimigo de todas as coisas? O professor Danielsson tem a resposta: «Não é o inimigo de tudo. Não é meu inimigo, por exemplo. É, sim, o inimigo da maior parte daquilo que a nossa sociedade representa. É uma contra-cultura direccionada ao que é tido hoje como normal. O black metal irá sempre representar a adversidade, as sombras, a escuridão da mente e do próprio mundo. Está muito relacionado com aquilo que a sociedade ocidental apelida há centenas de anos de “demónio” ou “satanás”. É uma forma de arte onde estas coisas devem ser postas à frente e nunca atrás.» O líder dos Watain continua a sua explicação apaixonante: «Se ouves black metal, é assim que te deves sentir. Deves sentir que é a música do diabo, como uma espécie de escuridão musical. Deves sentir-te um inimigo da sociedade e não parte dela. Esta é uma regra crucial no black metal, e se o que fazes é tudo menos isso, então não se deveria chamar black metal.»

Para desgosto dos Watain, o mundo avançou, e na área da música teve lugar a revolução digital. Erik acredita que o mundo moderno continuará a produzir álbuns clássicos, mas que essa responsabilidade não pode cair toda aos pés das bandas: «As bandas não podem fazer tudo. Podem compor músicas excelentes e colocá-las num disco, mas precisam que tudo aquilo que está à sua volta funcione: os fãs, as pessoas que compram os álbuns, a imprensa e as editoras. Mas sim, temos bandas perfeitamente capazes de compor música intemporal e memorável. Absolutamente!» A parte negativa desta era considera ser «a forma como as pessoas ouvem música hoje em dia», que é «muito diferente daquilo que costumava ser e é uma ideia triste e trágica». «Sou uma pessoa tradicional no que respeita à maneira como ouço música ou experiencio um novo álbum, e estas formas tradicionais não estão presentes nestes tempos modernos, o que é muito triste.»

No fim, o músico fala sobre a energia que ainda lhe resta: «Gosto muito de fazer isto. É claro que ao longo dos tempos as coisas vão mudando, porque se não mudar, então é porque és um bocadinho deficiente e eu espero não o ser. A energia mantém-se, mas vais-lhe acrescentando algo mais. Diria que a energia cresce e transforma-se, mas a tua fonte é a mesma, que está onde reside o teu coração, e isso nunca vai mudar. Watain poderá apresentar diferentes expressões, e se me perguntares se vamos gravar mais seis álbuns depois deste, não te sei responder. Não tenho a energia para isso. Mas irei definitivamente estar sempre envolvido a criar coisas para Watain, de uma forma ou de outra, sejam álbuns ou não.»

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