Ao longo de uma carreira iniciada em 1998, os Týr habituaram os fãs a intervalos muito curtos entre álbuns, cerca de 2 a 3... Heri Joensen (Týr): «A nossa performance ao vivo está mais coesa do que nunca»

Ao longo de uma carreira iniciada em 1998, os Týr habituaram os fãs a intervalos muito curtos entre álbuns, cerca de 2 a 3 anos, mas “Valkyrja” (2013) teve de esperar quase seis anos por um sucessor: intitula-se “Hel” e foi lançado neste ano de 2019. «Aguentava trabalhar muito quando era mais novo [risos]», diz Heri Joensen, guitarrista e vocalista da banda insular. Ao consentir que «apressar um álbum a cada dois anos é uma questão de hábito», acaba por confessar que «se se tivesse usado o tempo certo, ter-se-ia feito melhor em alguns dos álbuns». Foi o que fizeram desta vez. «Quis usar o tempo necessário para fazer o melhor álbum possível e isso requereu alterar os nossos hábitos de trabalho.»

«Todos os álbuns até ao “Hel” foram feitos sob grande pressão», conta-nos, assegurando que isso é «possível e exequível», mas que, na realidade, «não é bom para a saúde». «A minha saúde ia ser prejudicada se o continuasse a fazer. Dormi duas ou três horas por noite durante um mês quando estávamos no estúdio com os dois álbuns anteriores – gravava as guitarras e as vozes de dia e escrevia as letras à noite. Bebia muita Coca-Cola e Redbull para me manter acordado. [risos] Ajuda a criatividade, mas faz muito mal à saúde, e não quero fazer isso outra vez.»

Com a Internet e com as centenas de álbuns que são lançados todos os meses, tudo pode tornar-se descartável, ainda que as pessoas continuem a querer mais e mais – ouve-se uma vez por inteiro, o que nem sempre acontece, e que venha a próxima banda ou o próximo link de YouTube. Heri corrobora: «Querem muito, mais rápido e mais barato. Há muita pressão para os criadores continuarem em frente. Há mais fãs e há mais concertos. Para mim, na indústria musical, a minha motivação foi sempre criar música e quero fazê-lo sempre num grau de satisfação alto. Se as pessoas não gostam, tenho pena, mas trabalho o mais rápido que posso.» Todavia, com muita ou pouca espera, o nórdico diz estar «muito satisfeito» com “Hel” e com o trabalho que desenvolveu «até ao detalhe para se ter a certeza que estava tudo no sítio certo». «Mesmo antes de começarmos a gravar, eu e o Gunnar [Thomsen, baixo] revemos todos os detalhes e organizámo-los o melhor que pudemos. Espero que as pessoas concordem que este álbum é melhor do que os anteriores.»

Falar de Týr é sinónimo de mitologia, mas é sabido que “Hel” vai para além disso ao serem incorporadas experiências pessoais e acontecimentos internacionais da actualidade. Assim sendo, o conceito do disco não é preto no branco, como Heri esclarece: «É complicado escrever só sobre mitologia na minha maneira de o fazer. Pego num pedaço de mitologia e depois misturo com algo que quero dizer ou nem sei o que quero dizer e pego nisso por alguma razão.» Conforme explica, começa a escrever «sem um objectivo específico em mente, mas com a atmosfera e o cenário» previamente pensados, ainda que seja «mais subconsciente do que isso». «Nem sei dizer como é, mas olho para uma letra e vejo que não é mitologia pura, de todo. Não tenho a clareza de dizer o que é e o que não é numa letra, apenas escrevo algo que julgo enquadrar-se e que pertence a este universo mitológico, mas é tudo influenciado pelas minhas opiniões. Para dizer o que é o quê, precisava de uma consulta de duas horas com um psiquiatra.»

Na mitologia nórdica, Hel é o lugar para onde vão os mortos, pelo menos os que não morrem em batalha, e é governado por uma divindade com o mesmo nome. Tendo em conta que esta temática está muito impregnada nas massas, especialmente devido à série “Vikings”, há quem diga que imaginários como Valhalla e as Valquírias eram destinadas aos nobres e a pessoas de altos cargos, deixando a plebe fora do cenário. É bem mais complicado do que isso. «O que o público geral conhece é uma parte muito pequena», como Odin e Valhalla – «as cenas mais fixes», diz-nos – e «muitas pessoas têm conhecimento de Loki por causa da banda-desenhada da Marvel e dos filmes, mas se começares a explorar há muito mais material – só se conhece tipo 10%». «Há toda a criação, como é que os seres humanos surgiram, o fim do mundo – há muitas camadas de interpretação, há muitas versões diferentes que dependem da fonte que se usa e nem todas concordam umas com as outras. É complicado acompanhar tudo mesmo que saibas muito sobre o assunto. Comummente conhecem-se, principalmente, detalhes sobre Thor e Odin.»

Haverá, portanto, toda uma manutenção e preservação da História, mas Heri revela-nos que a mitologia e as religiões ancestrais não estão muito presentes nas Ilhas Faroé, ainda que existam «referências óbvias através de nomes de lugares, como a capital Tórshavn [Porto de Thor], mas isso não quer dizer que as pessoas estejam sempre a pensar em Thor e que isso signifique que ele esteve ali». «Não há adoração. Ninguém, pelo menos que eu conheça, acredita nisto literalmente, e isso é bom no geral», assume, para seguidamente recordar a infância: «Quando andava na escola, quando tinha 10 anos, ensinavam mitologia nórdica e acho que falam disso às crianças nas escolas das Ilhas Faroé. É um padrão da educação e acho que isso é bom.»

Neste Verão de 2019, a banda visitará o nosso país para uma actuação no Vagos Metal Fest. Em modo de despedida, quisemos saber o que é que os fãs portugueses podem esperar de um concerto de Týr. «Vamos tocar músicas novas, e algumas vão ser muito divertidas de se tocar ao vivo mas também de se ouvir. A nossa performance ao vivo está mais coesa do que nunca, o que nos dá uma boa sensação quando estamos em palco e tentamos dar sempre esse sentimento ao público. Espero ver uma multidão e que consigamos conectar-nos através de heavy metal – é esse o nosso objectivo para todos os concertos», conclui.

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